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A Globo: Como emissora mudou cobertura política com o PT
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A Globo: Como emissora mudou cobertura política com o PT – 14/05/2026 – Ilustrada

Disposto a recontar a história do maior veículo de notícia do país, que completou 60 anos em 2025, o jornalista Ernesto Rodrigues produziu ao longo de sete anos uma gigantesca reportagem, que resultou em três volumes, muro de 2.400 páginas, intitulado “A Mundo”.

O último livro, que está sendo lançado oriente mês, compreende o período de 1999 a 2025 e se intitula “Mutação”. O jornalista se baseia em muro de 400 depoimentos dados por funcionários ao projeto Memória Mundo e em uma centena de entrevistas com protagonistas da história, incluindo os três filhos de Roberto Marítimo.

Na descrição de episódios polêmicos, que afetaram o país, porquê as coberturas do Mensalão e da Lava Jato, Rodrigues deixa simples que adota um ponto de vista crítico, muito distante da visão solene da empresa sobre o seu papel. O volume também passa longe de ser chapa-branca ao investigar diferentes e ferozes disputas internas de poder, muito porquê ao explicar as crises no campo dos negócios, incluindo o “default”, ou moratória, em 2002.

O período analisado compreende a promoção de Marluce Dias da Silva à direção-geral da empresa. Ela foi contratada pelos irmãos Marítimo para “desmontar a estrutura de poder criada e mantida por Boni ao longo de um quarto de século”. Trata-se, possivelmente, da estudo mais ampla já feita sobre esse momento da empresa.

A resistência foi tanta, incluindo episódios de machismo explícito, que Silva disse a um executivo, duas décadas depois de se alongar da empresa para tratamento de saúde, que seu cancro “foi barato” perto do que enfrentou.

Os conflitos internos causados pelos investimentos em transmissões esportivas são um tema importante da obra. “Com rara exceção, a Mundo não lideraria o noticiário sobre prevaricação na CBF ou na Fifa”, escreve Rodrigues. “Uma traço editorial discreta, quando não omissa, sempre reativa e nunca investigativa”.

A sucessão de Evandro Carlos de Andrade, diretor de jornalismo entre 1996 e 2001, é outro marco importante. Já na cobertura do 11 de Setembro, menos de três meses depois da morte de Andrade, se estabelece um conflito entre Carlos Henrique Schroder e Ali Kamel, de um lado, e Amauri Soares, de outro.

Irritado com a maneira porquê a cobertura do 11 de Setembro foi descrita no livro “Jornal Vernáculo, a Notícia Faz História”, publicado em 2004, Soares disse ao logo diretor-geral, Octavio Florisbal, que cogitava entrar na Justiça contra os responsáveis pela edição.

Rodrigues resgata a história de que, no período que antecedeu as eleições de 2002, Antônio Palocci foi o intermediário de uma reaproximação do PT com a Mundo. O petista diz que discutiu com João Roberto Marítimo, em várias conversas, o texto final da Missiva aos Brasileiros, divulgada pelo partido em 22 de junho de 2002. Marítimo não nega.

Ao longo de centenas de páginas, Rodrigues descreve o que ele labareda de uma guinada na cobertura política da Mundo a partir da chegada de Lula e do PT à Presidência.

“Não seria de uma hora para outra que a editoria de política da Mundo passaria do viés geralmente governista e não vasqueiro omisso de suas três primeiras décadas de cobertura do poder para o jornalismo de peito cândido e intransigente que a emissora aos poucos adotaria sob o comando de Ali Kamel, com o aval de João Roberto Marítimo durante os governos Lula e Dilma Roussef, deixando para trás a traço editorial inaugurada por Evandro Carlos de Andrade em 1995, considerada por muitos de dentro e de fora da Mundo porquê a mais profissional, plural e autônoma da história da emissora, e vigente até a sua morte em 2001”, ele escreve.

A última vez que o grupo Mundo esteve na oposição havia sido em 1964, no governo de João Goulart. A cobertura do Mensalão, em 2005, indica que houve uma mudança profunda no jornalismo da emissora.

“Pela primeira vez em sua história desde 1965, a redação seria autorizada e até incentivada pela direção a usar toda a sua incomparável estrutura para ocultar o governo federalista de forma ampla, universal e irrestrita. A ordem, implícita, era mostrar o canhão da Mundo para a Terreiro dos Três Poderes e atirar à vontade, sem poréns, veja-bens, não-podes, entretantos, não-vales ou esses-não.”

O responsável recorre a dois estudos acadêmicos que mostram a intensidade e o volume inéditos de reportagens sobre os dois principais escândalos que envolveram os governos petistas, o Mensalão e a Lava Jato, incluindo o processo de impeachment de Dilma Rousseff e a prisão de Lula.

Rodrigues observa que, mesmo nos casos em que não houve reparos técnicos à cobertura jornalística, o trabalho da Mundo “ficaria sob suspeita, principalmente para quem tinha na memória o comportamento humilde, quando não omisso, da editoria de política da emissora antes da chegada do PT ao poder, nos governos Sarney, Itamar e FHC”.

O papel da Mundo foi definido porquê o de “grande parceira” da Lava Jato pela jornalista Silvia Faria, na conversa com um dos procuradores de Curitiba, reconstituída em 2018 não por ele, mas por ela, à era na exigência de diretora de jornalismo da emissora, lembra Rodrigues.

O responsável registra que a anulação quase totalidade pelo Supremo Tribunal Federalista do processo da Lava Jato expôs as ilegalidades e excessos cometidos pelo logo juiz Sergio Moro e pelos procuradores da 13ª Vara Federalista de Curitiba. Mas, escreve, “pouca ou nenhuma prestígio [foi] dada para esses desvios na cobertura da Mundo e de quase toda a chamada grande prelo, à secção a prevaricação bilionária que esses veículos revelaram ao longo da mais longa, volumosa e controversa cobertura da história da prelo brasileira”.

A “pauta-campanha”, nas palavras do responsável, não levou a uma autocrítica solene. “No fundo, foram todos iludidos, seja os jornais, seja a população em universal. Foi um afronta de poder”, diz Roberto Irineu Marítimo. O irmão João Roberto não fazia “nenhum reparo” à cobertura da Mundo.

“Se isso não é um tema para virar uma editoria diária, eu não sei qual será o tema mais relevante para o país que isso. […] Se eles cometeram pecados de forma processual, isso foi lá nas internas deles, mas os fatos eram os fatos.”

“O que houve foi uma empolgação. Tomou conta da prelo do Brasil”, diz José Roberto Marítimo. “Não me lembro de nenhum erro grave”, diz Ali Kamel. “Sempre procurei ser o ‘senhor cautela’ e tudo ia ao ar amarradinho. É muito difícil olhar para trás e querer fazer dissemelhante quando se faz jornalismo ao vivo e a reação tem que ser imediata.”

Folha

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