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Bittencourt leva Gregório de Matos à Mário de Andrade
Celebridades Cultura

Bittencourt leva Gregório de Matos à Mário de Andrade – 14/05/2026 – Mise-en-scène

A transferência de “Boca a Boca” para a Livraria Mário de Andrade, em sua temporada atual, acrescenta uma classe de ironia histórica e profundidade arquitetônica que redefine a recepção da obra. Se no Teatro Oficina o espetáculo bebia da antropofagia ritual e do solo de terreno, na Livraria ele se instala no coração do pensamento intelectual paulistano. Ocupar esse templo do saber com a “lira praguento” de Gregório de Matos é, por si só, um ato de invasão poética: o poeta que foi silenciado pelas prensas oficiais e renegado para o exílio retorna, agora, ao núcleo do cânone literário — sem, no entanto, perder sua origem marginal e perigosa.

A montagem, que estreou originalmente em 2015 no Instituto Camões, em Lisboa, e percorreu cidades uma vez que Berlim, Salvador e São Paulo, revela-se uma obra em manente evolução. Recentemente, incorporou contribuições intelectuais de José Miguel Wisnik e a presença de vozes icônicas da cultura brasileira contemporânea.

Nesse novo envolvente, a performance de Ricardo Bittencourt ganha contornos de um recital subversivo. Bittencourt trata a termo uma vez que projétil, utilizando um trabalho vocal camaleônico para transitar entre o deboche escatológico das sátiras de costumes e a sisudez metafísica dos sonetos religiosos. As segundas-feiras, às 19h, tornam-se o palco de um confronto entre a saber clássica que a livraria representa e o “português mestiço” e escatológico que Gregório personifica.

A escolha desse espaço reforça a tese de João Sanches sobre a perenidade do exposição gregoriano: ao declamar versos que dissecam a prevaricação e a hipocrisia social cingido por milhares de livros, Bittencourt lembra ao público que a literatura de Gregório não é um objeto de estudo morto, mas uma força viva que respira e pulsa fora das estantes.

Uma das percepções mais agudas da montagem é a associação da atitude de Gregório de Matos à força do rock’n roll — uma estratégia de tradução cultural que encontra equivalentes modernos para a virulência barroca. Sob a direção músico de Adriano Salhab, a trilha ao vivo pulsa com referências que vão de The Doors a Raul Seixas, transformando o palco em um verdadeiro show onde a trova não é exclusivamente ouvida, mas sentida pela vibração percussiva e pelas guitarras.

Nesse turbilhão performático, a figura mítica do Adão de Marapé, interpretado por Gui Vieira, ganha dimensão sátira, funcionando uma vez que ponto de ignição da nossa identidade híbrida. O que, na pena original de Gregório, era um insulto racista — talhado a ridicularizar a fidalguia “caramuru” da Bahia por sua prosápia ameríndia — transmuta-se, no espetáculo, em um signo de potência antropofágica.

A dinâmica com os convidados — uma vez que Monique Gardenberg, Regina Braga e Drauzio Varella, Marina Lima e Cristina Mutarelli — adquire, no contexto da livraria, uma intimidade diferenciada. O encontro entre ciência, música e teatro, dentro desse envolvente sagrado da termo escrita, potencializa a “justiça poética” proposta pela montagem.

Cada convidado atua uma vez que testemunha contemporânea da urgência de Gregório, provando que sua voz — outrora perseguida — hoje é acolhida e multiplicada por algumas das mentes mais brilhantes da nossa cultura. Estar na Livraria Mário de Andrade significa, portanto, um fechamento de ciclo: o varão que foi arrancado de sua terreno pela força da termo retorna a ela, séculos depois, ocupando justamente o lugar onde a termo é eterna.

Três perguntas para…

… Ricardo Bittencourt

Gregório foi silenciado e exilado. Agora, sua voz ecoa no coração do pensamento intelectual paulistano. Você sente que esse espaço devolve um pouco simbolicamente ao poeta que lhe foi tirado? Uma vez que isso dialoga com sua própria trajetória uma vez que artista?

Trazer Gregório para São Paulo — a metrópole mais intensa, contraditória e desigual do país — é profundamente simbólico. É uma vez que se ele reencontrasse um espaço à profundidade de sua voz: um lugar de tensão, excesso e loucura, muito próximo da Salvador que ele conheceu.

Há também um espelhamento da minha trajetória. Vivo um deslocamento; estou fora da minha Bahia, mas é cá que o trabalho ganha corpo e sonância. Existe uma ironia nesse clarão que se dá no exílio, e é nesse ponto que Gregório e eu nos encontramos. Sinto uma risco de perenidade místico entre ele e o artista que tento ser: alguém que insiste na força da trova, mesmo quando ela incomoda.

A encenação pretende repor a Gregório o seu solo. Ele morreu em Recife e permanece, até hoje, renegado de sua terreno. Nosso objetivo é um resgate real: levar seus sobras mortais de volta a Salvador. A luta da arte é um trabalho de Sísifo. Precisamos permanentemente reacender essa memória, sendo um contraponto ao status quo que exila a cultura enquanto anistia golpistas.

O espetáculo recebe convidados uma vez que Drauzio Varella, Regina Braga e Marina Lima. Na Livraria, esse encontro entre ciência, música e teatro ganha uma ‘intimidade diferenciada’. Uma vez que você se prepara para receber essas vozes tão distintas sem que a espinha dorsal do seu Gregório se perda?

Não vejo esses encontros uma vez que uma diluição, mas uma vez que confirmação. Gregório sempre foi um poeta em conflito com seu tempo, mas profundamente inserido nele. Os convidados — vozes uma vez que Drauzio Varella, Regina Braga e Marina Lima — também enfrentam, à sua maneira, o obscurantismo e a hipocrisia. Há um alinhamento de espírito.

O Gregório não se perde porque não é uma figura frágil; ele atravessa e tensiona essas vozes. O que acontece ali não é licença, é fricção. E essa multiplicidade de tons reflete as muitas facetas do poeta: o político, o satírico, o lírico, o religioso, o sexual. A escolha e os ajustes são feitos a partir dos desejos dos convidados, permitindo que o público se identifique com diferentes nuances da obra.

A montagem nasceu em 2015 e passou por Berlim, Salvador e São Paulo. Com cada novidade cidade e cada novo espaço, o que você percebe que muda em você uma vez que tradutor? Quais contornos a ‘lira praguento’ de Gregório adquire?

O espetáculo estreou simbolicamente em Lisboa, no Instituto Camões, e fez muito sucesso. Mas foi na periferia de São Paulo, em 2016, que ele revelou sua força popular. Foi com os estudantes secundaristas que meu corpo compreendeu o quão atual e urgente é essa trova.

Com o passar do tempo, Gregório não se torna menos atual; ele se torna necessário. A peça atravessou diferentes momentos do Brasil — de 2015 à pandemia e ao presente — e o sentido das poesias é incessantemente redimensionado pela história. Cada cidade e cada plateia desloca o núcleo de sisudez do trabalho.

Embora seja teatro — e um teatro que mantém um pouco de precário, de lona de circo — ele se comporta uma vez que um clássico: nunca se esgota e está sempre dizendo um pouco novo sobre o presente. Não é exclusivamente uma trova atual, é atemporal. Agora, esse trabalho ganha um novo desdobramento com o lançamento do livro pela Editora Giostri, que servirá uma vez que material didático para aproximar a obra de Gregório de novos leitores.

Livraria Mário de Andrade – rua da Consolação, 94 – República, região médio. Segunda-feira, 19h. Até 25/5. Duração: 60 minutos. Gratuito – retirada 1 hora antes de cada sessão

Folha

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