Notícias Favoritas

O seu portal favorito de notícias na Internet

'A Raiz' leva fábula andrógina ao palco 03/11/2026
Celebridades Cultura

‘A Raiz’ leva fábula andrógina ao palco – 03/11/2026 – Mise-en-scène

A peça “A Raiz”, de Newton Mulato, segmento de uma premissa antropológica precisa: nas cosmologias andinas, o cultivo e o manejo do plantio pertenciam exclusivamente às mulheres, estabelecendo uma conexão sagrada entre a fertilidade da terreno e a geração da vida. Dessa matriz mítica, o dramaturgo extrai a chave para abordar a vivência de uma moço andrógina em pleno processo de autodescoberta. O pavimento rústico assume o peso de material viva, funcionando uma vez que memória do corpo, pertencimento e renascimento.

Ao resgatar o narrativa vocal e a fábula lírica, o texto dialoga com a poética de obras anteriores do responsável, mas afasta-se do desfecho funéreo e do aniquilamento trágico, marca de peças uma vez que “Áspero”. A escolha é política. Em vez de erigir um memorial da violência transfóbica ou enquadrar a dissidência de gênero sob a ótica da vitimização, Mulato concebe uma narrativa afirmativa.

A trama expõe o choque familiar, o julgamento comunitário e as pressões normativas, mas sustenta o princípio de que a identidade brota do quidam uma vez que uma força espontânea da própria natureza, imune às tentativas de soterramento moral. A síntese dessa postura ecoa na máxima: “há verdades que a terreno não enterra”.

Na Sala Paschoal Carlos Magno, a encenação de Elias Andreato aposta no despojamento e na contenção. O espaço converte-se em um tablado de confissão íntima, favorecido pela proximidade direta com a plateia. O esboço de luz de Cleber Eli traduz as oscilações da memória: focos secos nos momentos de cerceamento social contrastam com banhos de luz quente nas passagens de afeto e revelação. A trilha sonora, também concebida por Andreato, atua no ritmo da narrativa, sustentando a regularidade da vocábulo e os silêncios da solidão.

Cláudio Fontana assume sozinho a cena com economia de gestos. O ator transita com precisão entre o narrador longe e a vivência direta dos conflitos e alegrias do menino hermafrodita. Sem quebrar a tessitura da fábula, Fontana dá perímetro e peso às figuras do entorno. O figurino de Gabriel Villela suspende categorizações binárias ao sobrepor tecidos, texturas, cores e acabamentos artesanais fluidos. Porquê elemento cênico ativo, um manequim de moulage vestido com trajes femininos opera ora uma vez que a presença materna, ora uma vez que espelho da própria moço em transição.

O único ponto dissonante da montagem reside na inserção de imagens geradas por lucidez sintético na lisura e no fecho da sessão. Ao tentar ilustrar visualmente o que o texto, o corpo e a vocábulo já evocam com transparência, a mediação do dedo torna literal o que deveria operar no projecto da sugestão, enfraquecendo a cumplicidade imaginativa indispensável à convenção teatral.

Ainda assim, “A Raiz” conjuga contundência política e delicadeza formal ao depreender uma dimensão arquetípica. A metáfora telúrica desloca o debate do preconceito do projecto do meandro para o da natureza: se a vegetal não pode ser punida por desabrochar conforme sua semente, o quidam dissidente não pode ter sua humanidade cassada pela convenção moralista.

Três perguntas para…

… Cláudio Fontana

Você construiu uma curso em que a parceria em cena foi regular. O que mudou no seu modo de trabalhar quando se viu sozinho no palco? Do que sentiu falta e o que descobriu?

Quando li esse narrativa do Newton Mulato, que recebi através do Elias Andreato —temos o uso de trocar textos para estudo—, a empatia com a dramaturgia chegou ao supremo da espanto. Era o auge da pandemia e queríamos colocar as palavras em ação pela originalidade. Fiquei muito comovido com a simplicidade e a verso dele ao abordar esse menino hermafrodita. Não quis conciliar zero para um teatro realista ou psicologizado: decidi racontar a história pela voz épica, permitindo que cada testemunha criasse, pela imaginação, seus próprios personagens.

Sempre ouvi que a solidão de um ator no palco era assustadora, que faltaria o socorro de um colega caso esquecesse uma fala, ou alguém com quem dividir o camarim e o pós-sessão. Mas a vontade de narrar essa história superou esses mitos. Amparado pela direção sensível do Elias, descobri o prazer da solidão de me fazer ouvir e de ver nos olhos do público o mesmo luz de uma moço escutando uma história antes de dormir. O protecção substitui o preconceito durante os 50 minutos em que o texto povoa o teatro. Descobri o poder da vocábulo narrada e vi potencializada a minha função de ator uma vez que agente provocador.

No solilóquio intimista, o ator sente a respiração e a reação de cada pessoa na primeira fileira. Você procura o contato visual direto com a plateia ou prefere mantê-la uma vez que uma presença difusa no escuro?

Essa interferência da plateia —seja para seguir ou para cochilar no escurinho— faz segmento do trabalho, e exercitamos a concentração para isso. No segundo dia da temporada, minha mana sentou-se na primeira fileira. Para simbolizar a fertilidade do(a) menino(a), usamos em cena um grudar de sementes que ela havia me ajudado a escolher na gaveta da nossa mãe, já acamada.

Quando tirei o grudar da caixinha, ouvi minha mana cochichar: “o grudar da mamãe…”. Quis rir e chorar ao mesmo tempo. Em momentos assim, ou quando percebo alguém dormindo ou incomodado, embaço a visão e busco o base dos olhares mais brilhantes, daqueles que demonstram interesse em trocar sentimentos comigo.

Depois de décadas criando ao lado do Elias Andreato, o que essa intimidade cênica já resolve no silêncio e no olhar, pulando etapas que exigiriam semanas de negociação em sala de experiência?

O Elias já sabe o que me estimula uma vez que ator, e eu conheço a sensibilidade que ele empresta à direção. Essa intimidade traz transparência para escolhermos os caminhos: o silêncio dele muitas vezes me faz refletir mais do que qualquer recomendação rigorosa. Às vezes sinto que ele está presente comigo sob um dos refletores, olhando com carinho para o que construímos juntos. Finalmente, um solilóquio não é tão solitário assim.

Teatro Sérgio Cardoso | Sala Paschoal Carlos Magno – Rua Rui Barbosa, 153, Bela Vista. Sábado e domingo, 18h30. Até 20/11. Duração: 50 minutos. Classificação indicativa: 12 anos. A partir de R$ 25 (meia-entrada) em sympla.com.br


LINK PRESENTE: Gostou deste texto? Assinante pode liberar sete acessos gratuitos de qualquer link por dia. Basta clicar no F azul aquém.

Folha

LEAVE A RESPONSE

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *