No último dia 17 de agosto, celebrou-se o Dia Internacional de Opinião do Gato Preto. Criada nos Estados Unidos pelo protetor de animais Wayne H. Morris, a data presta homenagem a Sinbad, gata preta que pertenceu à sua mana, e procura combater uma das mais persistentes injustiças produzidas pela superstição humana.
Mas, quando vi, a primeira coisa que me chamou a atenção foi a “crítica” do gato preto. Na hora, quis me somar a essa data. Eu sou apaixonada por gatos; posso dizer-me uma apreciadora. Em próprio, senhor gatos pretos. Tudo neles me encanta: a sensibilidade, a autonomia, a lucidez. Compreendo o porquê de representações divinas no Egito Macróbio.
O primeiro gato da minha vida foi o Ébano, um gatão preto rei do pedaço, meu companheiro na puerícia e na juvenilidade. Eram os anos 1990 e meu pai, enamorado por gatos, um dia apareceu com ele em moradia. À idade, éramos tutores de cachorros e meu pai se ressentia por não ter um felino em moradia.
Lembro-me de seu Joaquim fazer uma globo de papéis picados e colados com durex. A essa globo ele pendurou um elástico e o colocou em um gancho que minha mão usava para pendurar samambaias no teto. Logo, a gente puxava a globo pelo elástico e, quando soltava, ela voava pela sala com Ébano correndo que nem um doido detrás dela. Era uma alegria.
Ele cresceu, viveu alguns anos e foi muito querido. Depois de alguns anos, minha mãe foi diagnosticada com cancro e foi um tratamento muito pesado.
A quimioterapia a deixava de leito e o Ébano, aquele gatão aventureiro, de repente não saía do lado dela. Uma tia minha foi visitá-la uma vez e, depois de muito tempo de companhia, ela tomou um susto com o Ébano se mexendo. Ele estava tão imóvel ali nos pés da minha mãe que ela achou que ele era um gato de enfeite.
Entre tantas injustiças que falam sobre gatos, a que me deixa mais indignada é a confrontação com os cachorros. Quero deixar simples que eu também paladar muito de cachorros e tive muitos durante a puerícia e a juvenilidade. Porém, o que me irrita é o siso geral sobre o gato, que desconsidera a sensibilidade desses seres. “O cachorro é companheiro do proprietário, o gato é companheiro da moradia”, coisas do tipo. Uma grande bobagem.
Tempos depois, Ébano voltou muito mal. Não paladar de lembrar daquilo, pois foi uma malícia. Levamos ele direto para o veterinário, que constatou que ele havia sido envenenado por chumbinho. Ébano não voltou mais para moradia e nunca soubemos quem fez essa malignidade. Todos ali no quarteirão se conheciam, mas esse incidente mostrou que não conhecíamos as pessoas tão muito quanto pensávamos.
Combater o preconceito contra gatos pretos ainda é necessário. É um contra-senso que encontra repercussão há muito tempo. Durante séculos, segmento do imaginário europeu associou gatos pretos à bruxaria, ao contratempo e a forças malignas.
No Brasil, de certa forma, parece que seguimos na Idade Média nesse tema. Uma pesquisa divulgada neste ano pelo Cobasi ouviu 41 organizações de proteção bicho de diferentes regiões do país.
Em 56% delas, os gatos pretos costumam esperar mais tempo por uma família do que animais de outras pelagens. A mesma proporção das organizações afirmou já ter recebido casos de desarrimo relacionados, em maior ou menor frequência, à superstição contra esses animais.
Importante visibilizar a geração do ProPatinhas —o Programa Pátrio de Proteção e Manejo Populacional Ético de Cães e Gatos—, e do SinPatinhas, cadastro pátrio gratuito de animais domésticos pelo Ministério do Meio Envolvente. O programa prevê escora técnico e financeiro da União a estados e municípios para castração, microchipagem, registro, prevenção do desarrimo e enfrentamento aos maus-tratos. Entre os públicos prioritários estão animais comunitários, famílias de baixa renda, população em situação de rua, organizações de proteção e protetores independentes.
Qualquer responsável pode cadastrar gratuitamente seu bicho no SinPatinhas, usando uma conta Gov.br, e enunciar o chamado RG Bicho. O sistema registra dados sobre vacinação, doenças, castração e microchip, além de mudanças de responsável. O cadastro facilita a reunião entre famílias e animais perdidos e pode fornecer informações para políticas de vacinação, esterilização e prevenção do desarrimo.
Com informações e entrada a políticas de proteção bicho, avançamos porquê sociedade. Fica nessa oportunidade minha crítica ao velho Ébano. E meu carinho à Lupita, minha gata preta e dona da moradia. Faz nove anos que a sirvo e apreciá-la é uma das maiores alegrias da vida.
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