A universidade pública brasileira tem pavor do laicismo – 14/08/2026 – Gustavo Alonso
Neste mês de agosto, a Universidade Federalista de Pernambuco comemora 199 anos. A data celebra a instauração da Faculdade de Recta do Recife, em 1827, que mais tarde seria incorporada à UFPE.
É de vestimenta uma data importante que merece ser celebrada, esquentando-se os tamborins para o bicentenário no ano que vem. Entre as diversas comemorações, uma em próprio chamou a atenção —a celebração de um letrado ecumênico.
O invitação veio por email solene e também foi postado na página da UFPE no Instagram. O letrado aconteceu nesta sexta-feira (14), no auditório da reitoria em Recife, a poucos metros do gabinete do reitor. Contou com a presença de um padre católico, um pastor evangélico, um reverendo britânico, um babalorixá do candomblé e uma representante espírita.
Sou professor da UFPE há mais de dez anos. Antes disso, cursei graduação, mestrado e doutorado em universidade pública. Também fui professor substituto em instituições superiores públicas no Maranhão, Rio Grande do Sul e Rio de Janeiro. E várias vezes me espantei com a penetração da religião na ateneu brasileira. Há desde as formas mais ingênuas às mais sofisticadas.
Entre as mais banais, todo ano presencio um vestimenta que sempre me incomoda. Anualmente, há a chegada dos calouros na faculdade onde trabalho e o diretório acadêmico organiza uma apresentação.
Em determinado momento, os veteranos pedem que os calouros se apresentem. A eles são perguntados o nome, a cidade de onde vêm (muitos são de fora) e o signo. Sim, o signo do zodíaco! Trata-se de uma pergunta sem maiores consequências, mas cuja resposta parece ser a mais esperada pelos místicos de plantão. Os calouros são socializados no misticismo desde o primeiro dia.
A partir daí, a cruzada místico-religiosa vai se avolumando. Nos centros de ciências humanas, não é vasqueiro encontrar bancas de alunos jogando tarô para quem quiser saber seu porvir idealizado.
Ou por outra, há também as manifestações místico-religiosas legitimadas por discursos acadêmicos. No polo da UFPE em Caruaru, há uma licenciatura indígena. Quando lecionei em outro curso no mesmo horário, alguns semestres detrás, minhas aulas concorriam com os cantos da pajelança e da toré.
São tradições dos povos originários que promovem o letrado aos “espíritos encantados” da floresta. A cantoria acontecia no jardim ao lado da sala, em pleno período de lição. Todos eram obrigados a tolerar os cantos e batucadas sob pena de parecerem “intolerantes” à cultura de um povo originário e serem cancelados pelas divindades de plantão.
A sátira cá não é ao vestimenta de os performantes serem indígenas, mas aos aspectos místico-religiosos da revelação em terreno universitário. Se fossem senhoras de terço na mão rezando a novena ou muçulmanos fazendo a salah, seria também problemático. Cabe enfatizar que não estou cá censurando a religião porquê objeto de estudo, cuja longa tradição ajudou muito a ateneu, mormente as ciências humanas.
É bom lembrar que não há somente manifestações religiosas de nossas esquerdas cirandeiras nos campos de universidades federais. Quem já andou pelos corredores da ateneu brasileira com certeza já viu um papeleta do Movimento Estudantil Começo e Ômega, que hoje mudou de nome para Cru Campus.
Trata-se de um ministério cristão interdenominacional voltado para a evangelização e o pedestal místico de universitários, presente em centenas de instituições de ensino superior pelo Brasil. E tome Jesus na sua vida!
Algumas dessas manifestações podem ser entendidas porquê privadas. Mas a convocação do reitor para um ato ecumênico em celebração aos 199 anos da universidade está longe de ser alguma coisa assim. É a instituição conclamando uma celebração religiosa em terreno público.
Porquê sabemos, o Estado brasílio é leigo. Isto significa que o governo e as instituições públicas devem manter uma postura de neutralidade e separação em relação às religiões. Um não deve se misturar ao outro.
O vestimenta de o evento ser ecumênico serve de desculpa aos mais ingênuos, pois faz parecer que se trata de uma sarau ocasião a todos, sem preconceitos. Foram incluídos padres, pastores, reverendos, babalorixás e espíritas. Mas toda escolha envolve exclusões.
A sarau da reitoria se esqueceu de judeus, muçulmanos, budistas, juremeiros e tantas outras religiosidades. Por essas e outras, o Estado não deve se meter na fé individual. Quando o faz, alguém sempre acaba sendo excluído. Mormente os verdadeiramente laicos e aqueles que se identificam com o ateísmo, que se sentem profunda e verdadeiramente ofendidos.
Lutar pela separação de Estado e religião no Brasil é esgotante. Vivemos numa sociedade na qual mesmo aqueles que dizem não crer em nenhuma nume adotam o esoterismo e se dizem “sem religião, mas com espiritualidade”.
No Brasil, até os comunistas ateus constroem igrejas. Brasília foi planejada por um arquiteto comunista, Oscar Niemeyer, que projetou uma catedral na Esplanada dos Ministérios. Nesse sentido, a UFPE não está tão distante do Supremo Tribunal Federalista, que tem um crucifixo pendurado a observar as sessões judiciais na capital federalista.
Em nosso país, até os mais ilustrados têm dificuldade de entender a teoria da separação de Estado e religião. Espremido entre esquerdas cirandeiras e direitas conservadoras, o laicismo é profunda e raivosamente odiado no Brasil.
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