A vida de Paulo Gustavo é um musical espetacular com 'Fascinação', sambas, funk, risos e muito orgulho LGBTQIA+
Espetáculo ‘Meu fruto é um músico’ mostra o tálamo de Paulo Gustavo (1978 – 2021) com Thales Bretas
Reprodução / Instagram ‘Meu fruto é um músico’
♫ CRÍTICA DE MUSICAL DE TEATRO
Título: Meu fruto é um músico
Dramaturgia: Fil Braz
Direção: João Fonseca e Ju Amaral
Direção músico: Tony Lucchesi
Cotação: ★ ★ ★ ★
♬ Em 2006, o ator e roteirista Paulo Gustavo (30 de outubro de 1978 – 4 de maio de 2021) dramatizou com o humor o cotidiano familiar com a mãe, Déa Lúcia, e com a mana, Ju Amaral, em “Minha mãe é uma peça”, solo que deu projeção vernáculo ao artista fluminense na pele de Dona Hermínia, personagem inspirada em Déa.
Vinte anos depois, a vida extraordinária de Paulo Gustavo é um músico em papeleta no Teatro Multiplan, no Rio de Janeiro (RJ). Idealizado por Déa Lúcia e Ju Amaral, “Meu fruto é um músico” é espetáculo que narra a trajetória do ator da puerícia em Niterói (RJ) ao tálamo (já rico e famoso) com Thales Bretas em narrativa interrompida com a morte precoce de Paulo Gustavo há cinco anos, vítima de covid-19, aos breves 41 anos.
Pela dramaturgia ter sido construída por Fil Braz, roteirista que trabalhava com Paulo Gustavo, o músico soa em fina sintonia com a obra e o espírito do homenageado. Tem obviamente risos ao longo das três horas de espetáculo, mas “Meu fruto é um músico” passa longe do humor popular de uma sitcom porquê “Vai que cola”, estrelada por Paulo e por sinal sequer mencionada no texto de Fil Braz.
O espetáculo faz a elegia paradoxalmente feliz (mas inevitavelmente melancólica no término) de uma vida que fez do riso uma resistência, inclusive contra a homofobia. Houve orgulho LGBTQIA+ na vida de Paulo Gustavo e ele é manifestado no palco porque o ator se revelou gay desde antes da glória e sofreu o preconceito do mercado audiovisual quando, em seguida o sucesso de “Minha mãe é uma peça”, o artista tentou dar sequência à trajetória profissional. O músico mostra que Paulo Gustavo somente deu notório porque cavou as próprias chances no teatro e no cinema sendo ele mesmo, um ator esfuziante com timing preciso de comédia.
Sob direção de João Fonseca e Ju Amaral, “Meu fruto é um músico” flui de forma espetacular, escorado no talento do elenco principal. João Pedro Chaseliov e Pierre Baitelli se revezam nas setes sessões semanais – apresentadas de quarta-feira a domingo, com sessões duplas nos fins de semana – na pele de Paulo Gustavo (o crítico do g1 assistiu ao espetáculo em sessão protagonizada por Baitelli, mas Chaseliov atinge o mesmo nível de primazia do colega, a julgar por vídeos em rotação nas redes sociais).
Coprotagonista, Dona Déa é interpretada de forma réplica pela atriz e cantora Stella Maria Rodrigues, sendo que, em alguma sessões, a própria Déa entra em cena no início e no término, abrindo o espetáculo com o esquina de “Fascinação” (Fermo Dante Marchetti e Maurice de Féraudy, 1905), valsa-canção ouvida na versão em português escrita por Armando Louzada (1908 –1986), apresentada em 1943 na voz do cantor Carlos Galhardo (1913 – 1985) e amplificada há 50 anos em gravação feita em 1976 por Elis Regina (1945 – 1982).
Já perto do término, Déa volta e canta com Stella Maria Rodrigues os sambas “Camisa amarela” (Ary Barroso, 1939) e “Exaltação à Mangueira” (Enéas Brites da Silva e Aloísio Augusto da Costa, 1955), número em que as luzes do palco ficam virente e rosa.
No universal, “Meu fruto é um músico” é espetáculo iluminado pelas cores do arco-íris, inclusive pelas menções orgulhosas ao trajo de Ju Amaral ser lésbica. Aliás, merece aplausos a constituição de Castorine porquê Ju. A atriz reproduz em cena a virilidade e o jeito da mana de Paulo Gustavo.
Com exceção das músicas cantadas por Dona Déa, o elenco interpreta trilha sonora original, composta para o espetáculo por Daniel Salve e orquestrada sob direção músico de Tony Lucchesi. A trilha abarca o funk cantado por Dona Hermínia na reprodução da encenação de trecho de “Minha mãe é uma peça”.
Emoldurado pelo cenário de Nello Marrese, garrido por pilastras de arquitetura grega, o elenco se afina ao longo de dois atos estruturados em 25 ambientes cênicos, dando vida aos personagens sem traços caricaturais, mas com refinados trabalhos de constituição.
Se o primeiro mostra o promanação de Paulo Gustavo porquê ator, profissão que deu setentrião ao artista em seguida períodos de desorientação existencial e profissional, o segundo foca no surgimento da estrela que arrastou milhões de brasileiros às salas de cinema com os três filmes da franquia “Minha mãe é uma peça”.
Embora focada na narrativa familiar e profissional do ator, evidenciando os laços familiares que nunca foram cortados por Paulo Gustavo com a chegada da glória e do numerário, a dramaturgia de Phil Braz põe em cena, de forma episódica, personagens da série de TV “220 volts” – apresentada por Paulo Gustavo de 2011 a 2016 no Conduto Multishow – porquê Maria Enfisema (hilária na interação com o público no término do pausa entre os dois atos) e Senhora dos Absurdos.
Com roteiro que molda em cena um retrato generoso do ator, mas não a ponto de santificar o artista, “Meu fruto é um músico” é espetáculo que cumpre muito a função de entreter, emocionar e ressaltar o qual diferenciada foi a vida assumida e orgulhosamente gay de Paulo Gustavo.
Pierre Baitelli, Déa Lúcia (ao núcleo) e Stella Maria Rodrigues na sessão de sábado, 27 de junho, do espetáculo ‘Meu fruto é um músico’
Rodrigo Goffredo
Fonte G1





