Livros de Du Bois renovam esperança no mercado editorial

Livros de Du Bois renovam esperança no mercado editorial – 17/04/2026 – Ilustrada

Celebridades Cultura

Em um mercado editorial em permanente diagnóstico de crise, a chegada de uma leva de lançamentos que revisitam a obra de W.E.B Du Bois renova a esperança política de que talvez os livros ainda possam salvar aquilo que necessita ser salvo: a própria crença de que ainda há tempo para se salvar um pouco.

“Reconstrução Negra”, lançado pela editora da Unicamp e pela Boitempo, “Chuva Escura”, pela Fósforo; e “Penumbra da Aurora”, pela Perspectiva, compõem um conjunto de livros produzidos com esmero e conhecimento pelo projeto Du Bois (capitaneado pelo Afro-Cebrap) e propõem requalificar a recepção da obra do responsável, reafirmando-o porquê um dos pilares da sociologia moderna.

É uma tributo robusta no esforço de democratizar o chegada à obra do intelectual norte-americano nascido em 1868 em Barrington, nos Estados Unidos, e morto em 1963 em Acra, Gana.

A despeito da lista de intermináveis méritos que esses três lançamentos apresentam, para muitos de nós, viciados nos textos de introdução e nos livros de ingressão, talvez seja tentador realizar um movimento de refração aos desafios interpretativos que a imensa obra de Du Bois propõe.

É um responsável brutalmente americano —em um país no qual a esquerda aprendeu o antiamericanismo por silabário—; um responsável orgulhoso de sua negritude —em um país no qual a intelectualidade é tida porquê patrimônio intáctil dos eurodescendentes—; e um responsável com obra recheada de projetos de emancipação para o povo preto —em um país no qual qualquer proposta de mediação social deve ter origem em pessoas brancas.

Isso talvez represente um gesto analítico maior do que uma militância massacrada por séculos de indiferença seja capaz de suportar. Mas para os dedicados e racionalmente responsáveis (que devem subsistir em qualquer lugar), são livros com privativo valor para uma geração de cotistas que finalmente se encontra em condições de tomar para si o que sempre foi seu.

Enfim, são livros carregados de boas reflexões e de achados filosóficos complexos, com método, rigor e boa redação. Tudo isso publicado por boas editoras, com traduções fluidas e conscientes do genuíno valor ético e estético das obras que estão vertendo para o português.

Cada uma das três obras, a seu modo, aborda um vista importante para a questão analítica do papel das identidades raciais na construção dos Estados Unidos e do protótipo de sujeito livre nas Américas.

“Chuva Escura”, que traz um magnífico posfácio de Matheus Gato —a coisa mais importante que já se disse sobre o responsável no Brasil—, é o mais literário dos três, misturando a as instâncias políticas e emocionais, a vida privada e a pública, a rua e a mansão, o doméstico e o internacional.

Já “Penumbra da Aurora” aposta no acerto de contas com a tradição marxista e no fiscalização zeloso dos limites das reflexões de sociedades em permanente transformação.

A certa profundidade, Du Bois afirma com uma sinceridade profética: “Hoje, tanto os jovens porquê os idosos olham para um mundo cujos alicerces parecem estar desmoronando. Eles estão incertos sobre o que o amanhã trará. Talvez seja a queda definitiva da cultura europeia, daquele enorme e envolvente caldo de cultura no qual nasceram. Tudo em seu meio é material para sátira. Eles podem determinar o pretérito e especular sobre o horizonte sem paixão. É o momento de uma mudança fundamental”.

Isso foi escrito em 1940, mas é inegável que a atualidade dessas palavras impressiona e constrange mesmo os mais neófitos dentre nós.

No livro de maior fôlego, “Reconstrução Negra”, há uma recuperação historiográfica, com apresentação de Angela Davis.

Confrontando velhos mitos sobre a segregação racial e os processos que levaram à Guerra Social dos Estados Unidos, Du Bois desmonta a narrativa de que certos estados são naturalmente conservadores, destacando com perspicácia os motivos pelos quais uma sociedade não pode ocultar na biologia as razões ideológicas de seus tropeços históricos e morais.

Tudo somado, ler Du Bois é ter lição sobre o que já se sabe: que é muito difícil ser preto em um mundo que odeia tudo aquilo de que depende para viver. E sobre o que era oculto para a maior segmento de nós: que é verosímil desmontar as explicações raciais que a sociedade produz, se estivermos dispostos a destruir aquilo que sustenta suas estruturas —nossas próprias fantasias de onipotência.

Folha

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