Sem prejuízo da narrativa, dá para recontar cá porquê “A Voz de Deus” termina. João Vitor Ota, um dos pregadores mirins que o diretor Miguel Antunes Ramos acompanhou entre 2017 e 2022, está preso às rédeas de um touro mecânico. Segura firme para não tombar. E não cai, ao menos até os créditos finais subirem.
Em outra cena, mais no prelúdios do documentário, que estreou nesta quinta (16), nos cinemas, o pai de Daniel Pentecoste, o outro protagonista, admite que a família caiu. “Caiu na veras” depois anos criando expectativa de que seu rebento fosse virar um pastor de grande projeção.
Acontece que Daniel, quando gaiato, alcançou certa notoriedade pregando. Há várias gravações dele da era, todo engomadinho falando de Deus. Mas a expectativa de que estourasse nunca vingou. Logo somos apresentados ao dia a dia do agora juvenil. Ele dorme num quartinho simples que divide com o pai e trabalha porquê caixa num mercadinho.
Ainda fala sobre Deus em público, atividade revezada com outros fainas cotidianos. Certa hora, diz que “pagou oito horas de trabalho” e está aliviado porque o instruído daquela noite foi cancelado. Senão, “ia pregar só na misericórdia”. Assim sobrava tempo para jogar videogame e manducar pizza com os amigos, crentes que nem ele.
O outro personagem medial, João Vitor Ota, é a globo da vez. Da primeira vez que o vemos, tem sete anos e é tratado porquê a promessa que um dia Daniel foi. Seu pai também é quem gerencia sua curso de pregador mirim. Ele já tem topete e usa blazer. Os pais, ambos pastores, apostam no rebento do meio para crescer porquê líder de grande influência.
Conheci João Vitor em 2021, quando escrevi sobre o trio de irmãos que queria “raptar o mercado gospel”. Na ocasião, seu pai, Leoncio Ota, profetizava: “O mundo inteiro vai saber esta família”.
Da última vez que nos falamos, no ano pretérito, Leoncio lamentava que a Meta tivesse desabilitado o perfil no Instagram do rebento, com 1,4 milhão de seguidores. Nunca soube o motivo formal, mas suspeitava ter um tanto a ver com um vídeo publicado dias antes pelo influenciador Felca. Ele havia causado comoção vernáculo ao denunciar a adultização de crianças e adolescentes. Pequenos pregadores, para muitos, encaixam-se aí.
Quando encontrei pela primeira vez a família Ota, Esther, a caçula, sonhava em ter “mais de milénio de milénio de milénio e de milénio” seguidores “para lucrar mais recebidos”, que são salamaleques que as marcas enviam a influenciadores em troca de divulgação. Davi, o primogênito, gostaria de ser convidado para os programas de Raul Gil e Danilo Gentili. Já João Vitor adoraria ir ao auditório do Silvio Santos (1930-2024), “pra lucrar verba” do apresentador que fazia aviãozinho com notas de real.
Miguel Antunes Ramos não se deixou tombar na tentação de espetacularizar ou julgar àqueles que lhe abriram as portas de suas casas na periferia de São Paulo (João Vitor) e Brasília (Daniel).
Seria simplista demais atribuir aos adultos o cômputo insensível de quem instrumentaliza a fé e, a partir dela, projeta nos filhos uma fórmula de salvamento social.
Não que não haja o uso da religião porquê utensílio de subida, numa lógica de performance místico que serpente resultados concretos. Mas reduzir o fenômeno a isso empobrece o quadro.
O que se desenha é uma engrenagem mais complexa, lubrificada por juras teológicas de prosperidade. No imaginário evangélico brasílio, a fé não é unicamente consolo. É também horizonte de mobilidade social. Nesse terreno, crença sincera e pragmatismo coexistem.
As cenas se estendem por cinco anos. Daniel, na primeira secção do filme, é um juvenil confrontado com sua glória passada. Passa o viga para João Vitor no Gideõezinhos, edição júnior do Gideões Missionários da Última Hora, congresso anual importante no segmento. A fileira pentecostal anda.
Na segunda metade, Daniel já é adulto com esposa e rebento. João está entrando na puberdade e mantém agenda intensa de pregações, quase sempre em igrejinhas de bairro onde tenta vender, depois do instruído, roupas temáticas aos fiéis (“o firmamento será muito grato” a quem comprar, diz o pai a clientes em potencial).
Nesse meio tempo, temos duas eleições no projecto de fundo. A primeira consagra Jair Bolsonaro (PL) na Presidência, a segunda o retira dela. Cenas coadjuvantes às tramas íntimas dos dois clãs evangélicos, assim porquê aquelas em que o pai revela o sonho de estudar em Harvard que João Vitor nutre. A família não sabe muito porquê pronunciar o nome da universidade americana, mas se encanta com “aquela história do sonho americano”.
O formato escolhido para recontar esta história faz toda a diferença. Não há narração em off. O diretor também não entrevista ninguém. Não coloca nenhum técnico para dissecar os evangélicos porquê um corpo social na maca um tanto gelada das ciências sociais.
Exclusivamente deixa a câmera escoltar de perto, e na edição faz um recorte sensível sobre um Brasil em que fé, avidez e vulnerabilidade se retroalimentam. Alcança, assim, um ponto de estabilidade vasqueiro ao registrar sem desculpar nem reprovar.
