Agora eu vi voga, e agora eu vi roupa. Melhor desfile de temporada, diziam os entendidos no desfile da Handred na Rio Fashion Week, a semana de voga carioca, que termina neste sábado à noite. A comoção tinha razão de ser —o diretor criativo André Namitala mostrou a melhor coleção de sua marca até agora.
Prestes a completar 15 anos, a Handred fez um desfile de muito marrom e tons fechados, com o rosa dando as caras em um belo blazer de modelagem mais quadrada. Não tinha branco, porquê sempre tem, nem clima festivo, porquê quase sempre tem. Foi uma coleção soturna criada a partir de imagens internas que Namitala conta ter acessado com a prática de reflexão guiada por música clássica.
Ao vivo, um coral cantava para os modelos desfilarem looks com muito volume em silhuetas fluidas, porquê nas calças que flutuavam longe do corpo e nas amplas camisas de seda. Os vestidos terminavam em volumes armados que davam a volta nas pernas, e uma envoltório em verde-militar e preto cobria o torso e os braços de um padrão.
Era claramente uma coleção de inverno, em que as pessoas pareciam protegidas contra as intempéries —seja do tempo ou do estado depressivo do mundo. “Tem um pouco para todos os climas do Brasil. Tem velo, epiderme, sedas mais pesadas, sedas mais fluidas, algodão e macramê. O cliente da Handred é uma pessoa que circula”, afirma Namitala, sobre a coleção.
Enquanto a Handred fugiu dos clichês do Rio de Janeiro, a Blue Man fez o caminho oposto: no desfile da marca de voga de praia, praticamente uma instituição da cidade por estar na ativa desde a dez de 1970, o Rio apareceu em estereótipo assumido. Aos 82 anos, Helô Pinho, a pequena de Ipanema da música de Tom Jobim, abriu a passarela com um conjunto de top e saia jeans de face vintage.
Os telões mostravam praias da zona sul. Da areia, a marca resgatou personagens e colocou na passarela —desfilaram a vendedora de camarões, o vendedor de mate e o surfista de bicicleta. Os modelos tinham corpos talhados em muitas horas de penúria e de ateneu, reforçando o estereótipo de que o físico a ser exibido precisa ser malhado e os cabelos, platinados, porquê a atriz Deborah Secco, que entrou no final do desfile.
Bermudões, biquínis em jeans, mochilas anos 1990, maiôs vintage e sungas pretas com apliques em clarão apareceram, assim porquê um conjunto de looks com as cores da bandeira do Brasil, num desfile cocuruto astral e que não se levou tão a sério, porquê as praias cariocas. Fechando o desfile, a pequena de Ipanema entrou enrolada numa bandeira do Brasil onde se lia “o Brasil é um luxo”.
Nos corredores da Rio Fashion Week, é palpável a alegria do povo da voga com o retorno do evento à cidade, um estado de espírito que o desfile da Blue Man captou muito muito. Para fechar a noite, a bateria da Viradouro entrou na passarela e convidou a todos para seguirem a folia fora dali. Samba, zero formalidade, praia e sarau para todos —não faltou nenhum clichê carioca.
Mas talvez zero represente mais o Rio do que o sambódromo. Foi na Sapucaí que a Misci, a marca mais comentada da voga brasileira, mostrou o seu verão 2027, numa apresentação megalomaníaca embalada por 80 ritmistas da bateria da Beija-Flor de Nilópolis tocando ao vivo. Ao desfilar na Rossio da Deificação, a mensagem que o diretor criativo Airon Martin passa é a de que quer engrandecer as suas roupas à exigência de patrimônio pátrio, porquê o samba —ele parece crer que ambos merecem o mesmo lugar de destaque.
Com o cenário, a trilha sonora e a megaprodução disputando a atenção, se concentrar nas roupas exigiu esforço, um tanto contraditório para um desfile de voga. Para a coleção intitulada “Escapismo Tropical”, Martin conta ter tentado incluir no tropicalismo a tradição do interno do Nordeste rechaçada pelos intelectuais do Sudeste. “A cultura caipira era mal vista pelos grandes centros culturais. A gente sempre foi recusado neste espaço”, afirma ele.
Desfilar na Sapucaí um vestuário talhado a partir dos costumes do interno —Martin é originário de Sinp, no Mato Grosso— foi a sua vingança. Os looks tinham silhuetas soltas, numa coleção mais fluida do início ao término e que usou bastante seda em peças leves propícias para o calor do Rio de Janeiro. Entre os destaques, o epiderme de pirarucu veio em botas caipira de canudo longo, em bermudões e também num tênis esportivo feito em parceria com a Veja.
A brasileira Wendy Cao, que borda para o ateliê da Chanel em Paris, deu um toque de alta-costura à temporada, com intervenções manuais sobre o epiderme e a seda. Teve também voga praia, num novo capítulo da parceria da Misci com Lenny Niemeyer, uma colaboração que faz sentido, oferecido que a Misci acaba de perfurar uma loja em Ipanema mirando o cartão de crédito dos turistas estrangeiros na cidade. Em suma, foi uma coleção extensa e com bons produtos para todos os gostos.
Antes deste desfile, uma grata surpresa da Rio Fashion Week foi a apresentação de Karoline Vitto, designer catarinense que começou a curso em Londres e agora aporta no Brasil com sua voga para manequnis maiores. Quase toda a sua passarela foi formada por modelos normais ou gordas, diferentemente do restante da semana de voga, onde a magreza impera e a variação de corpos foi praticamente eliminada dos desfiles.
Roupas justas mostrando as curvas e vestidos com fendas laterais deixando as gordurinhas à vista vieram combinadas com as bijuterias máxi de Carlos Penna, num vasqueiro caso de estilista que não exige das modelos que adaptem as suas silhuetas às criações —Vitto faz roupas para corpos reais, não ideais, e talvez por isso já seja respeitada.
