Kleber Mendonça Rebento ainda se lembra de um de seus primeiros contatos com a obra do cineasta iraniano Abbas Kiarostami. Foi uma sessão de “O Vento Nos Levará”, de 1999, em um cinema do Recife que já não existe mais. “Foi muito impactante deslindar essa vaga iraniana, que chegou com força no Brasil naqueles anos”, afirma.
Kleber, diretor de “Bacurau” e “O Agente Secreto”, volta agora àquela memorial na exigência de curador de uma mostra sobre Kiarostami no cinema do Instituto Moreira Salles, em São Paulo. Serão quase 30 filmes do cineasta iraniano, alguns inéditos no Brasil. A mostra fica em edital de 17 de julho até o termo do ano.
Nascido em 1940 em Teerã, Kiarostami começou a curso na pintura e na publicidade. Foi em 1970 que lançou seu primeiro trabalho no cinema, o curta neorrealista “O Pão e o Beco”, que acompanha um garoto perseguido por um cachorro.
Vieram mais tarde os consagrados “Onde Fica a Vivenda do Meu Colega?” (1987), “Close Up” (1990) e “O Vento Nos Levará” (1999). Um de seus filmes mais conhecidos, “Paladar de Cereja” (1997), levou a Palma de Ouro no Festival de Cannes.
Kleber credita secção da popularidade do cinema iraniano no Brasil ao papel de Leon Cakoff, fundador da Mostra Internacional de Cinema de São Paulo. “Muitas vezes há esse papel de um curador que dá um empurrão a um determinado movimento artístico”, diz. É o papel que, de certa forma, assume agora.
Kiarostami surpreendeu —no Brasil e no mundo— desde a estreia com seu olhar justo aos detalhes do cotidiano, oferecendo delicados retratos da vida iraniana. Era uma maneira dissemelhante de filmar, em confrontação ao cinema americano, de escopo homérico e pontuado por cenas de ação.
“Muito me labareda a atenção essa conversa, que até hoje persiste, de que o cinema iraniano é, entre aspas, simples”, afirma Kleber. “Temos que ter desvelo com o que queremos expor por simplicidade. Ter uma economia na linguagem e ainda assim expor muito não é para todos.”
Longe de ser redutiva, a simplicidade do cinema de Kiarostami e de seus pares iranianos “carrega muita trova e muita complicação”, Kleber afirma.
Perguntado sobre uma vez que aquela sessão em Recife influenciou sua obra, Kleber hesita. Olha ao volta —fala com a reportagem por vídeo, de Bordeaux— e pega um alfinete. O atavio parece trespassar de um roteiro bem-escrito. “É muito difícil pegar um alfinete e mostrar onde alguém uma vez que Werner Herzog ou John Carpenter me influenciou”, diz. “Mas uma coisa que o cinema iraniano me deu de maneira prática foi uma vez que expressar uma teoria da maneira mais tranquila verosímil e, ainda assim, com força.”
Kleber conta que às vezes assiste a um filme americano e pensa: “É sério que essa conversa entre dois personagens tem 14 ângulos de câmera e levou dois meses para ser gravada? Precisa jogar toda essa areia no rosto do testemunha?” Em vez disso, Kleber diz que segue o exemplo iraniano e procura “a maneira mais verdadeira, do ponto de vista humano, de narrar histórias”.
Porquê a mostra inclui dezenas de títulos, organizados de forma cronológica, o público terá a oportunidade de escoltar o desenvolvimento da linguagem artística de Kiarostami. “Uma retrospectiva dá esse fio condutor, essa tenacidade do olhar, em que você consegue estancar décadas em um tempo mais pequeno”, Kleber diz.
“Revi os filmes, o que é sempre um momento tocante para mim”, afirma. “Sou muito sensível a essa teoria. É quase uma vez que ter entrada aos diários de alguém. Não estou exagerando. Em cada filme, você vê a vida da pessoa em ideias, movimentos, imagens, visões de mundo.”
Dentro da programação, há algumas sessões duplas, com a exibição de dois filmes. A teoria, explica, é permitir que o público consiga dar um zoom em um momento específico da curso de Kiarostami e ver suas transformações em graduação microscópica. “O cineasta não sabe que filme vai fazer daqui a alguns anos. Mas, quando você vê em retrospectiva dois filmes separados por esses anos, vê que eles são irmãos. Há coisas em generalidade, às vezes um simples movimento de câmera.”
A mostra foi planejada para marcar os dez anos da morte de Kiarostami, ocorrida em julho de 2016, mas também coincide com uma crise geopolítica. Os Estados Unidos e Israel atacaram o Irã em fevereiro deste ano, bombardeando o país e matando seu líder supremo, o aiatolá Ali Khamenei.
As ofensivas não são exclusivamente as do conflito, sugere. “Existe uma propaganda muito pesada dos Estados Unidos e de Israel contra o Irã uma vez que uma região”, diz. “O cinema consegue furar esse oração de guerra e te mostrar uma versão que é muito mais procedente e verdadeira da trova do povo iraniano.”





