Acampamento Miasma subverte slasher e critica Hollywood – 12/08/2026 – Ilustrada
O orgasmo e a morte estão ligados. No prazer sumo, uma vez que no término da vida, a individualidade se dissolve e perdemos o controle de nós mesmos —assim, o filósofo Georges Bataille batizou o gozo de “pequena morte”. Esse é também o nome do delinquente de “Acampamento Miasma: Puberdade, Sexo e Morte”, que sai das profundezas de um lago para perfurar corpos e decepar cabeças de jovens desavisados.
A semelhança do enredo com outras produções do terror não é coincidência. O novo filme de Jane Schoenbrun é uma espécie de fábula “slasher”, subgênero em que sangue espirra para todo o lado. Há uma mensagem sublime, porém, sobre uma vez que o cinema —e a cultura, no universal— castrou mulheres e pessoas queer por décadas com narrativas estereotipadas e padronizadas.
Schoenbrun parece usar o concepção de Bataille para fantasiar sobre uma libertação queer, o gozo, a partir da ingestão desses traumas.
“Somos todos sexualmente ferrados, porque os impulsos sexuais estão presentes desde o início [da vida]. E antes mesmo de aprendermos a falar, já somos moldados pelo mundo ao nosso volta, que é doente, misógino e repleto de uma violência que carregamos dentro de nós”, disse Schoenbrun, na sala de um hotel no último Festival de Cannes.
“Acampamento Miasma” foi coroado com a Palma Queer no evento, o mais importante do cinema, em maio. Gillian Anderson recebeu o troféu por Schoenbrun, e foi ovacionada no palco da sarau LGBTQIA+ no calçadão da Riviera Francesa. A atriz, conhecida pelas séries “Registro X” e “Sex Education”, protagoniza o longa ao lado de Hannah Einbinder, estrela de “Hacks”.
Na ficção, as duas vivem um romance intenso e brutal. Einbinder interpreta Chris, uma cineasta incumbida de fazer um novo capítulo para o terror “Acampamento Miasma”, sucesso suposto dos anos 1980 espremido à exaustão em várias continuações.
O enredo gira em torno do serial killer Pequena Morte e de uma mocinha formosa e indefesa, que fala pouco e é claro regular de cantadas. A franquia, simples, envelheceu mal, e precisa ser renovada para os tempos modernos. Quando Chris vai visitar a locação onde “Acampamento Miasma”, o filme dentro do filme, foi gravado, ela encontra Billie, atriz que encarnou a mocinha no pretérito. Excêntrica e sensual, ela mora num chalé só na serra.
Há um choque geracional conforme as duas se aproximam. Billie coleciona traumas por ter navegado pela indústria cinematográfica numa quadra cruel para as mulheres. Já Chris, apesar de viver em tempos mais acolhedores, tem um bloqueio criativo e sexual —ela não consegue gozar com outra pessoa.
“Apesar das décadas que as separam, elas se encontram nessa experiência principal em generalidade: são mulheres. Isso, por si só, pode gerar um vínculo”, diz Anderson, que dá vida a Billie. Enquanto as personagens se envolvem, porém, descobrem que Pequena Morte não vive exclusivamente na ficção.
Apesar das reflexões sobre gênero e o impacto da arte sobre diferentes gerações, “Acampamento Miasma” não se leva muito a sério. O elemento festivo é uma particularidade que Schoenbrun quis reproduzir dos slashers reais dos anos 1980, que assistia assiduamente enquanto crescia.
Gostar de terror, porém, significa ver a violência contra mulheres ser saboreada em tela, ou pessoas trans serem vilões. A fórmula se repete em produções uma vez que “Psicose”, “O Silêncio dos Inocentes”, “Vestida para Matar” e “Acampamento Sinistro”, nos quais os assassinos perturbados se vestem com roupas do gênero oposto.
“Por crescer nos anos 1990, minha principal associação com a transgeneridade era um pouco uma vez que, ‘isso quer expressar que você é o tipo de face que esconde o pênis entre as pernas e faz aquela dança bizarra’”, lembra Schoenbrun, que se entendeu uma vez que uma pessoa transexual não binária aos 32 anos.
Por outro lado, ali estavam pessoas trans, na telona. “Os filmes slasher têm preocupação por gênero, e isso acontece porque eles se tornam uma espécie de lugar seguro para explorarmos tudo aquilo que não se encaixa na narrativa do século 20 de heteronormatividade, homem-mulher e sexo hétero.”
A seção de terror da videolocadora tinha um pouco de sexual, lembra Schoenbrun. “Você não deveria ir até lá, mas ia. Não deveria ver aquilo, mas via.”
Schoenbrun já usou o terror antes para falar sobre a transexualidade com “Eu Vi o Clarão da TV”, uma jóia para a sátira que recebeu até elogios de Martin Scorsese, tornando-se um hit cult. Desde logo, sua figura é relacionada a uma originalidade audaciosa, considerada rara em uma Hollywood que se esforça para moderar riscos.
Talvez por isso, “Acampamento Miasma” é recheado de provocações ácidas ao marasmo criativo da industria americana. “Esse foi meu segundo filme feito com moeda de homens brancos de Hollywood. E quase todo esse moeda é certamente sujo. E sei que é preciso mourejar com essa equação entre arte e transacção”, diz Schoenbrun. “Sabor de tentar fazer coisas que podem ampliar uma linguagem dentro de um sistema mercantil que é hegemônico. É a única maneira de chegar às pessoas. E eles gostam de ser condenados”, afirma, rindo.
O tom subversivo do longa combina com Einbinder, que encarna a protagonista. Desde que venceu o Emmy por “Hacks”, a atriz, judia e bissexual, se tornou uma voz pelos direitos de pessoas queer e contra o que labareda de genocídio na Tira de Gaza.
“Há muita coisa no filme que aborda a forma uma vez que pessoas queer e trans existem na indústria”, diz Einbinder. “Ser posto em uma caixinha e tratado uma vez que alguém que está ali só para executar uma quota é um pouco que observo o tempo todo. É uma tentativa superficial de figuras influentes de encenar uma inclusão.”
Apesar da rebeldia e do sangue, “Acampamento Miasma” tem uma atmosfera idílica em vários momentos, reforçada pelo romance entre Chris e Billie e pelos cenários pintados à mão. O bom presságio está relacionado ao momento em que o filme foi concebido —antes da reeleição de Donald Trump e quando Schoenbrun já estava há um tempo tomando hormônios.
“O filme é sobre o processo estranho, belo e quebradiço de vivenciar pela primeira vez, já na morada dos 30 anos, aquilo que a maioria das pessoas vivência na mocidade: deslindar um corpo, uma sexualidade e uma identidade que parecem certas. E justamente porque você viveu muitos anos no extremo oposto, também se trata de desfazer muitos dos traumas”, diz.
Agora, os tempos são mais obscuros para pessoas LGBTQIA+ nos Estados Unidos. Mas, por isso mesmo, Schoenbrun não acha que lançar um filme queer prazenteiro e sensual agora signifique nadar contra a manante. Apesar de vândalo e sevo, Pequena Morte perde o posto de vilão, finalmente, para a vergonha.





