Ninguém avisa que virar adulto é aprender a somar boletos atrasados e ressentimentos em silêncio. Em “Adulto”, texto de Fran Ferraretto dirigido por Lavínia Pannunzio, a vida a dois perde qualquer resquício de romance e vira um acerto de contas prático. O espetáculo expõe o atrito quotidiano de quem trocou a cumplicidade pela convívio automática.
Sara, vivida pela própria autora, encara doze horas diárias de trabalho porquê revisora em uma sucursal para bancar o aluguel, enquanto João, interpretado por Iuri Saraiva, estagna na curso de ator, recusa papéis pequenos e depende da mesada materna. A relação se desfaz no momento em que o afeto dá lugar à pura compaixão e à certeza de que um sustenta a inércia do outro.
A encenação segmento de uma leitura dramática em tom quase protocolar. Os atores leem rubricas, marcam pausas e simulam uma sessão rotineira de tentativa. Conforme os diálogos avançam, a barreira entre o ofício e a vida privada desmorona. Sara escreve a peça para expor o naufrágio do tálamo, a recusa decidida da maternidade e a exaustão física que consome sua rotina. Ao transmutar a intimidade em dramaturgia, a protagonista assume as rédeas da própria narrativa e desmonta as concessões cotidianas antes de ser anulada por elas.
A tensão explode com a ingresso do parelha de amigos. Vitor, interpretado por Sidney Santiago Kuanza, é um ator preto que conquistou papéis de relevo e trabalhos no exterior. Paula, vivida em revezamento por Jennifer Souza e Letícia Calvosa, é uma antropóloga muito resolvida. Os dois vivem uma relação não monogâmica assumida e sem rodeios.
A presença deles desarma os anfitriões: João, que no pretérito indicava testes para o colega, não consegue mascarar o rancor diante da subida de Vitor, revelando porquê a camaradagem rui quando o outro deixa a posição de desvantagem. A segurança dos convidados expõe a mesquinhez e a fragilidade do parelha anfitrião.
A direção de Pannunzio sustenta o espetáculo na precisão dos detalhes. Uma mesa comprida corta o espaço cênico, transformando a intervalo física em barreira intransponível para os corpos.
Ao fundo, o soído sequioso e contínuo de uma máquina de lavar em funcionamento pontua as pausas, marcando a repetição sufocante da vida doméstica. Sem desvios sentimentais, a peça constrói um diagnóstico lúcido sobre o momento em que acordos antigos perdem o sentido e romper o pacto passa a ser a única escolha verosímil.
Três perguntas para…
… Fran Ferraretto
Em que momento o carinho dentro de um relacionamento de longa data deixa de ser afeto e passa a operar porquê condescendência diante da sujeição do parceiro?
Sou uma pesquisadora do cotidiano; a verso da rotina me fascina, mas é nela que moram as maiores armadilhas para o paixão romântico. Porquê leitora de bell hooks, vejo que a condescendência se instala quando o afeto deixa de ser ação e vira pura abstração. É aí que reside o desgaste do tálamo: quando o subentendido se torna obrigação automática e escolhemos o falso conforto do habitual para não remunerar o preço da presença. É um processo sombrio, fruto tanto de homens que pouco refletem sobre sua subjetividade quanto de mulheres exaustas pela sobrecarga das funções relacionais.
A recusa de Sara à maternidade surge sem culpa ou traumas justificatórios. Porquê você trabalhou essa escolha para fugir da embuste que historicamente ofídio salvamento moral da mulher no palco?
Apresentei dois retratos distintos. De um lado, Sara, que inicia a peça sob pressão interna e externa para ser mãe, mas gradualmente retira o véu da maternidade compulsória. De outro, Paula, que funciona porquê um farol de emancipação, ou uma miragem. Nela, a revolução segmento do prazer, seja na autonomia financeira, na soberania sobre o próprio corpo ou no libido de perfurar a relação. É uma mulher guiada pelo que quer, alguma coisa geral aos homens há séculos, mas que ainda choca quando segmento de nós. O mais potente na curva dramática é que Sara projeta Paula para perfurar caminho para si: primeiro porquê utopia, depois porquê resgate e, enfim, porquê verdade.
A chegada de Vitor e Paula inverte clichês: um parelha preto inabalável e bem-sucedido confronta a hipocrisia de um parelha branco lacerado. Porquê calibrou essa dinâmica para que não servissem somente de escora moral para a crise alheia?
Temos uma responsabilidade coletiva com as histórias que colocamos no mundo. Não cabem mais os velhos estigmas. Quis contrapor o desgaste de João e Sara com uma dinâmica real, contemporânea e pautada na escuta mútua. Vitor e Paula enfrentam impasses que levariam muitos ao término, mas sustentam diálogos difíceis e vulneráveis, o que, para mim, resume a maturidade.
Ao mesmo tempo, ninguém é perfeito nem funciona porquê mero inferior dramático. Vitor sustenta um pacto tóxico de masculinidade com João, que por sua vez inveja a subida do colega e se deixa infantilizar por Sara. Sara encontra poder na própria sobrecarga para manipular a relação, enquanto Paula é inflexível e impõe sua visão de mundo porquê verdade absoluta. Todas as personagens têm humanidade, falhas e conflitos próprios que colidem entre si. Para transformar a verdade, no palco ou fora dele, precisamos colocar novos modelos em cena.
Itaú Cultural – Av. Paulista, 149, Bela Vista, região medial. Quinta a sábado, 20h. Domingo, 18h. Até 27/9. Duração: 85 minutos. Classificação indicativa: 14 anos. Reservas de ingressos a partir da terça-feira da semana da apresentação, às 12h, na plataforma INTI – aproximação pelo site do Itaú Cultural www.itaucultural.org.br
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