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Artistas com deficiência assumem protagonismo em festival 17/09/2026
Celebridades Cultura

Artistas com deficiência assumem protagonismo em festival – 17/09/2026 – Ilustrada

Enquanto muita gente enxerga nas muletas um sinal de fraqueza e limitação, a bailarina Fernanda Maciel vê nelas um símbolo de formosura e potência. Foi pensando nisso que ela decidiu posicionar esses objetos no meio do palco durante a peça “Entre Ellas”, produção da companhia de dança Kinesis e um dos destaques do Festival Acessa BH –projeto que joga luz sobre trabalhos de artistas com deficiência.

Aos 20 anos, Maciel sofreu uma lesão na medula que fez necessário o uso de muletas para se mudar. Por meio da gestualidade, o espetáculo narra justamente o processo de se tornar uma pessoa com deficiência.

Maciel começa a performance se contorcendo sobre o solo em movimentos lentos, porquê se tentasse mondar uma dor lancinante. A cena parece uma metáfora para o momento em que a artista se percebeu uma pessoa com deficiência.

“É um processo doloroso, em que há luto, mas também existe luta. O luto acontece porque é uma coisa que não tem porquê voltar. Não é alguma coisa que se resgata”, afirma Maciel. “Já a luta existe para nos reconhecermos do modo porquê somos e lutarmos para que as pessoas nos aceitem dessa forma.”

O segundo momento da performance parece patentear a transformação da dor em resistência. Nessa hora, Maciel e sua colega de cena, a também bailarina Grazielle Mendes, se entrelaçam a muletas porquê se os objetos fossem uma extensão delas mesmas.

“Eu fiz das muletas alguma coisa para além de uma tecnologia de pedestal para andejar. É um elemento que vai se incorporando ao meu próprio corpo e que faz segmento da geração da dança.”

A teoria é um desdobramento do concepção de “Mulet(an)dança” que ela desenvolve no doutorado em instrução na Universidade Federalista de Minas Gerais. “É a teoria de que a intimidade com a muleta nos transforma em um corpo só”, diz Maciel, artista que almeja atribuir formosura a um objeto ainda visto de forma negativa.

“Assim porquê a muleta pode ser vista porquê alguma coisa criativo, cênico e artístico, o corpo de uma pessoa com deficiência também o pode. Ele consegue ser belo e ter uma outra estética para ser incorporado à arte.”

Apesar de esforços porquê esse, a inserção de artistas com deficiência no mercado encontra percalços. De concórdia com Maciel, a invisibilização desses profissionais em espetáculos ainda é grande.

“A cena artística da dança é corponormativa. Você raramente vê ator com uma deficiência presente numa peça de teatro”, diz ela, para quem existe um pensamento restringido sobre o trabalho desses profissionais.

“Uma dança comigo não vai ter salto e pirueta, mas isso não faz dela uma dança menor, com uma estética que não pode ser fluida e considerada bela.”

Ela acrescenta que outro problema é o chamado “cripface”, ou seja, a prática de escalar artistas sem deficiência para papéis em que essa é uma das características do personagem. “Eu realmente não vejo sentido nisso, porque estão tirando oportunidades dos artistas com deficiência.”

Para dar visibilidade ao trabalho desses profissionais, os irmãos Daniel e Lais Vitral idealizaram o festival Acessa BH, há dez anos. A mostra acontece em Belo Horizonte até o dia 27 de setembro, reunindo espetáculos, performances, sessões de cinema e lançamentos de livros.

“A gente teve a teoria de pensar um projeto que fosse não só conseguível para o público, mas que trouxesse esse profissional para uma posição de destaque que a gente não está afeito a ver”, diz Lais, que assina a curadoria do Acessa ao lado do irmão.

“A gente vive num mundo extremamente preconceituoso, onde há esse capacitismo de encontrar que pessoas com deficiência não são capazes e profissionais.”

Diante desse problema, a produtora cultural considera a arte um instrumento importante de conscientização, com o poder de influenciar as pessoas e trazer temas urgentes para o debate.

É isso o que faz Benedita Casé na peça “Surda”, uma das produções presentes no festival. Sobre o palco, a atriz encena a vida de Júlia Spadaccini, escritora e roteirista que criou o texto do espetáculo usando porquê base a própria vida.

Aos 19 anos, ela recebeu o diagnóstico de perda auditiva, incidente que é o fio condutor da peça. Essa história se entrelaça à vivência de Casé, artista que teve perda na audição quando era bebê.

“O que me tocou muito no texto foi a forma com que a Júlia escreveu. A peça é uma lição sem parecer uma lição. Ela provoca muito, faz o público pensar e refletir”, afirma Casé, para quem produções porquê essa ajudam a desmistificar preconceitos.

“A arte serve para isso e é uma das coisas mais bonitas do teatro. É fazer com que as pessoas saiam completamente diferentes, pensando na nossa relação com o outro e em porquê a gente vive.”

Folha

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