Afegã que virou uma das melhores fisiculturistas da Europa

Afegã que virou uma das melhores fisiculturistas da Europa – 13/11/2025 – Esporte

Esporte

Uma mulher de biquíni vestido de cristais brilha sob as luzes do palco.

A pele bronzeada e reluzente realça cada risco de seus músculos definidos, resultado de horas de treino intenso na ateneu.

A maquiagem impecável e o cabelo loiro iluminado de Roya Karimi não destoavam de uma final do Miss Universo.

É difícil imaginar que, há exclusivamente 15 anos, ela era uma juvenil casada à força no Afeganistão, mãe ainda moça, antes de fugir em procura de uma novidade vida.

Hoje, aos 30, ela está entre as principais fisiculturistas da Europa e se prepara para disputar, nesta semana, o Campeonato Mundial de Fisiculturismo. Ela começou a competir profissionalmente há menos de dois anos e sua subida foi meteórica.

Zero disso parecia provável quando Karimi fugiu do Afeganistão com a mãe e o rebento pequeno. Na era, ela buscou refúgio na Noruega, onde reconstruiu a vida, retomou os estudos, formou-se em enfermagem e conheceu o atual marido, também fisiculturista.

O esporte, diz ela, a ajudou a romper barreiras sociais e psicológicas impostas durante anos.

“Cada vez que vou à ateneu, lembro que houve um tempo, no Afeganistão, em que eu nem podia me exercitar livremente”, contou Karimi à BBC News Afeganistão.

A trajetória dela é marcada pela resistência a tradições restritivas, pela reconstrução da identidade e pela tentativa de inspirar outras mulheres afegãs que vivem sob possante repressão.

Algumas dessas restrições já existiam quando Karimi ainda morava no Afeganistão –fruto de normas sociais–, mas se agravaram desde 2021, com o retorno do Talibã ao poder.

Hoje, mulheres no país são proibidas de frequentar a escola em seguida os 12 anos, praticar a maioria das profissões, viajar sozinhas por longas distâncias e até de falar cimeira em público.

“Eu tive sorte de conseguir transpor daquela situação, mas muitas mulheres ainda não têm direitos humanos básicos, porquê o chegada à ensino. É muito triste e devastador”, diz Karimi.

Procura por outro horizonte

Anos antes de o Talibã retomar o poder, Karimi já havia deliberado que “não queria aquela vida”.

A decisão de fugir em 2011, deixando o primeiro marido para trás, foi arriscada para uma mulher em uma sociedade tão conservadora. É um período de que ela não gosta de falar.

Na Noruega, Karimi encontrou um envolvente completamente dissemelhante. Precisou se conciliar a uma cultura mais liberal, aprender o linguagem e arrumar ocupação para sustentar a família.

Os primeiros anos foram difíceis, mas o esforço compensou. Ela estudou enfermagem e passou a trabalhar em um hospital em Oslo.

Foi na ateneu que veio o novo ponto de viradela. Treinar deixou de ser exclusivamente tirocínio físico e passou a ser um meio de restaurar a autoestima e redefinir sua identidade.

Lá, conheceu o segundo marido, o também afegão Kamal Jalaluddin, experiente no fisiculturismo e um de seus principais apoiadores.

“Antes de saber Kamal, eu já praticava esportes, mas não em nível profissional”, explicou.

“O escora dele me deu coragem para seguir um caminho competitivo e quebrar tabus. Acredito que, quando um varão apoia uma mulher, coisas incríveis podem sobrevir.”

Ameaças e ofensas

Há um ano e meio, Karimi deixou a enfermagem para se destinar totalmente ao fisiculturismo.

Foi uma decisão arriscada, mas, segundo ela, o principal duelo não foi a mudança de curso, e sim aprender a mourejar com a liberdade em seguida anos de restrição.

“Nosso maior duelo foi romper os limites e moldes impostos por outros, regras não escritas justificadas em nome da tradição, da cultura ou da religião”, disse. “Mas, quando você decide inovar, precisa se libertar dessas amarras.”

A escolha também trouxe problemas.

Os biquínis, os cabelos soltos e a maquiagem pesada que ela usa nos palcos contrastam com as normas sociais – e agora também legais – que determinam porquê mulheres devem se vestir e se comportar em seu país natal.

Não surpreende que suas redes sociais sejam meta de críticas e ameaças de violência e até de morte.

Ela ignora os comentários.

“As pessoas só veem minha fisionomia e o biquíni. Mas, por trás disso, há anos de sofrimento, esforço e perseverança. Essas conquistas não vieram facilmente.”

Ainda assim, as redes são um via que ela valoriza: permitem falar diretamente com mulheres afegãs sobre saúde física, autoconfiança e reconstrução da identidade.

No caminho do título mundial

Agora, Karimi se prepara para competir no campeonato da Federação Internacional de Fisiculturismo e Fitness (IFBB, na {sigla} em inglês), que começa nesta quinta-feira (13/11) em Barcelona, na Espanha.

Ela já conquistou ouro na categoria Wellness – voltada à boa forma originário, fisionomia saudável e venustidade discreta – no torneio Stoperiet Open, em abril.

Em seguida, venceu o prestigiado Norway Classic 2025, que reúne atletas de toda a Escandinávia.

Essas vitórias a levaram ao Campeonato Europeu, que garantiu sua vaga no Mundial.

“Sinto uma felicidade e um orgulho profundos”, disse ao se preparar para competir em Barcelona.

“Foi uma jornada incrivelmente difícil, mas, passo a passo, consegui ocupar medalhas de ouro pelo caminho.”

Na plateia, o marido e o rebento sempre a acompanham.

“Ver Karimi no palco é a realização de um sonho que construímos juntos”, afirma Jalaluddin.

Mas, para ela, essa disputa representa alguma coisa maior.

“Eu me sinto mentalmente possante e totalmente pronta para dar o meu melhor, esperando fazer história e destinar esse feito às meninas e mulheres afegãs, pela primeira vez.”

Folha

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