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Alceu Valença ganha tributo em 'Anunciação', no Rio 04/08/2026
Celebridades Cultura

Alceu Valença ganha tributo em ‘Anunciação’, no Rio – 04/08/2026 – Mise-en-scène

Há biografias que cabem em momentos históricos, fatos e datas de promanação. E há obras que pedem um pouco de outra natureza: sopro, delírio, movimento. Ao comemorar os 80 anos de Alceu Valença, o músico “Anunciação”, em papeleta no Teatro Carlos Gomes, no Rio, escolhe o caminho mais bonito e reptante. Em vez de entregar a velha fórmula de recontar a vida do artista do primícias ao término, o espetáculo prefere transformar a obra do compositor pernambucano em uma grande sarau cênica, onde a memória e o afeto falam mais cume do que qualquer traço do tempo.

Esqueça a teoria de ver um ator no palco tentando imitar o jeito, a voz ou os trejeitos de Alceu. A dramaturgia de Luiza Loroza e Duda Rios preferiu multiplicar o poeta: a espírito do homenageado é dividida entre os oito atores do elenco. Todos são Alceu e nenhum é só ele. É uma escolha que bebe direto na nascente da muganga — essa farra irreverente, ritmada e meio debochada tão própria do Carnaval de Pernambuco. As músicas não entram ali só para fazer uma pausa no texto; elas são a própria conversa. Letra e fala se misturam de um jeito tão fluido que o Áspero, Olinda, o Recife e a noite carioca parecem dividir o mesmo pedaço de pavimento.

Essa atmosfera enxurro de vida não nasceu do zero. O ponto de partida visual do projeto vem de um tesouro: um montão de mais de 40 milénio fotos tiradas por Carlos da Silva Assunção Rebento (Cafi), o olhar por trás de capas antológicas de discos da nossa música. Foi desse olhar afetuoso que o diretor Miguel Colker — rebento de Cafi e da coreógrafa Deborah Colker — tirou a inspiração para o espetáculo. No palco, sob a direção de Duda Maia, a cena vira um organização vivo. O cenário de Anderson Dias não tenta plagiar cenários reais; prefere sugerir quintais do interno, varais ao vento e as ladeiras de Olinda. A luz de Renato Machado passeia do sol estalado do Sertão às místicas penumbras da noite, enquanto os figurinos de Karen Brusttolin juntam o artesanato do Áspero com o espírito meio psicodélico do rock dos anos 1970.

A grande formosura do espetáculo está justamente na recusa de ser um show convencional. Os próprios atores seguram os instrumentos e fazem a música suceder no meio da cena. Sob o comando de Ricco Viana e com os arranjos vocais de Beto Lemos, quase 35 canções ganham uma vida novidade, enxurro de vozes se entrelaçando, sem perder aquela batida particularidade que junta o frevo, o maracatu, o baião e a guitarra elétrica.

A música que dá nome ao espetáculo, “Anunciação”, vira o grande fio condutor dessa experiência. Aquela melodia que todo mundo guarda na memória ganha a força de um quina coletivo, um amplexo que arrepia a plateia. Clássicos que a gente cansou de trovar no rádio — porquê “Tropicana”, “La Belle de Jour” e “Coração Palhaço” — deixam de ser exclusivamente sucessos para virar a própria história acontecendo no palco.

No término das contas, a força da montagem tá na entrega desse grupo de artistas — Duda Rios, Luiza Loroza, Maria Pérola, Juzé, Jef Lyrio, Natascha Falcão, Beto Lemos e Rafael Lorga. Sem desabar na cilada do sotaque caricato ou do clichê regional, eles cantam, dançam e tocam juntos com uma cumplicidade formosa de ver. “Anunciação” mostra que homenagear um poeta de 80 anos não é olhar para trás com saudosismo, mas sim trazer a verso dele para o presente e deixar que ela incendeie o palco de novo.

Três perguntas para…

… Duda Rios

Porquê vocês trabalharam a transição entre o texto falado e a material poética das canções para que a narrativa não parecesse uma colagem de falas e músicas?

Tivemos que encontrar motes para as cenas e os textos. Não queríamos uma narrativa cartesiana, mas também não queríamos uma carência narrativa. A música do Alceu é muito poética e imagética, logo grafar textos puramente poéticos e soltos poderia, de indumentária, saturar o testemunha. Eu queria dar perpetuidade à produção de uma dramaturgia em rede, com múltiplas perspectivas sobre o tema ou o homenageado, porquê fiz em “Jacksons” e “Azira’i”.

Nesse caso, cada texto precisa de um mote, de uma situação ou perspectiva inusitada, que surpreenda o testemunha. Aos poucos, elas foram surgindo: o que a Lua diria sobre as palavras de um poeta maníaco, um diálogo entre o Doidinho e o Sucesso, a trajetória da cor azul até chegar nos olhos da “Belle de Jour”, a história de paixão entre Recife e Olinda, uma história de paixão entre duas pessoas comuns, entre outros. Esses motes dão fundamento e sentido ao texto.

Tudo era muito conversado entre eu (Duda Rios, responsável), Luiza Loroza (co-autora), e Duda Maia (diretora). Nessas reuniões de roteiro, que aconteciam durante o período de ensaios, íamos entendendo porquê as ideias de texto, encenação e música iam ganhando sentido.

A linguagem corporal de espetáculos com possante acento de teatro físico exige muito do elenco. De que forma o movimento influenciou a maneira porquê vocês dizem o texto?

A termo passa a suceder mais no corpo do que na mente. Ela vira sensação corporal. O movimento trabalhado por Duda Maia – que além de diretora, faz a preparação de corpo – é uma conscientização sobre a nossa estrutura óssea, muscular e proferir. Colocar essa atenção no corpo traz presença.

E quando a termo entra ela passa a suceder nesse corpo presente. Ela fica concreta, aterrada, corporificada, enraizada. Quando falo a termo “coração” eu não imagino um coração, mas eu sinto a termo coração no meu corpo. É tudo muito físico. Acho que isso traz uma qualidade dissemelhante à termo falada do que a que encontramos no dia a dia, onde tudo é muito mental.

Sinto que a termo fica mais viva. Lembro que nos ensaios Duda ia falando os nossos textos enquanto nos movíamos, e íamos decorando o texto pelo corpo. Só depois ela entregava o texto impresso em papel. Mas aí só usávamos para consulta, pois tudo já estava gravado no corpo da gente.

Porquê é o duelo de pegar um repertório tão entranhado no imaginário do público brasiliano e retrabalhá-lo para a linguagem do teatro sem perder a força original das composições?

É um trabalho em equipe. Direção, texto e direção músico. Cada música foi um grande duelo, pois não poderíamos apresentá-la porquê ela já é lembrada. Precisava ter um pouco de dissemelhante, um pouco de novo. E a plateia vai ter essa sensação a partir de três elementos: porquê ela é encenada, em qual contexto o texto apresenta a melodia, e qual o seu emendo músico.

O diálogo permanente entre a equipe criativa possibilitou que pudéssemos sempre encontrar caminhos nesses três eixos que provocassem novas sensações no público, sem desconectá-los de suas memórias afetivas com cada melodia a partir das lembranças dos gravações originais.

Teatro Carlos Gomes – Terreiro Tiradentes, s/nº – Meio, Rio de Janeiro. Quinta e sexta, 19h. Sábado e domingo, 17h. Até 16/8. Duração: 75 minutos. Classificação indicativa: livre. A partir de R$ 40 (meia-entrada) em sympla.com.br

Folha

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