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'Alta Sociedade' expõe elite em colapso no Rio 03/09/2026
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‘Alta Sociedade’ expõe elite em colapso no Rio – 03/09/2026 – Mise-en-scène

Mauro Rasi (1949–2003) sabia uma coisa: o riso da escol brasileira não vem de uma alegria genuína. Ele surge de um pânico muito dissimulado, em taças de champanhe galicismo. E essa verdade desconfortável vem à tona na novidade produção de “Subida Sociedade”, que está em edital no Teatro Vannucci, no Rio de Janeiro, dirigida por Emílio de Mello. A farsa de Rasi foi reconfigurada de uma forma que não tem temor de ser indigesta.

Amanda Jordão fez um trabalho incrível na atualização do texto. Ela teve a sagacidade de espetar o Brasil de hoje na veia da narrativa. Nomes uma vez que Daniel Vorcaro, que pipocam nas colunas de finanças e escândalos, viram personagens de peta que parecem verdades incômodas. O jargão das novas fraudes, das negociatas de gabinete, dos esquemas que a gente lê no jornal enquanto toma moca: tudo entra em cena com uma naturalidade assustadora.

O mais perturbador é perceber uma vez que um texto escrito na viradela do milênio se encaixa perfeitamente no noticiário de hoje, não porque seja profético, mas porque a moral da nossa mediocracia continua paralisada no mesmo lugar. Os mecanismos de poder, a persuasão na impunidade, as articulações nos bastidores: mudam os nomes, mudam os operadores, mas a engrenagem é sempre a mesma.

No meio dessa fogueira de vaidades, Julia Lemmertz e Orã Figueiredo protagonizam um duelo refinadíssimo. Eles interpretam Sylvia e Leopoldo, o par milionário que passa o Réveillon encurralado no Prédio Chopin —não por contingência, mas por escolhas que agora batem à porta. Ambos estreiam na obra de Rasi e já mostram uma química magnética, dessas que se constroem na cumplicidade criminosa e no temor compartilhado de ouvir a sirene da Polícia Federalista ou um telefonema do “sombra”.

Lemmertz compõe uma Sylvia esplêndida: sai da elegância quase aristocrática e desliza para uma histerismo que arranca gargalhadas, mormente quando trata o mandado de procura uma vez que se fosse um atentado pessoal aos seus privilégios de nascença. Do outro lado, Figueiredo dá a Leopoldo uma fisicalidade hilária e um timing cômico agudo — cada movimento dele expõe a fraqueza patética de um varão que sempre resolveu tudo com propina e telefonema para o companheiro visível.

A perdão está no contraste: lá fora, Copacabana explode em fogos e poviléu; cá dentro, o apartamento de luxo vira palco de um colapso moral. O público ri da soberba em frangalhos e da pequenez humana daquele par, mas “Subida Sociedade” é um dos diagnósticos mais certeiros e venenosos que o teatro brasílio já deu sobre a classe dominante.

Três perguntas para…

… Julia Lemmertz

A comédia de costumes e a farsa dependem fundamentalmente de uma cumplicidade cênica milimétrica com o parceiro de cena. Porquê foi a construção desse jogo de duelos verbais acelerados ao lado de Orã Figueiredo?

Eu e o Orã somos parceiros de longa data. Já estivemos juntos em “Molly Sweeney – Um Rastro de Luz”, “Deus da Morticínio”, “Os Mambembes” e, agora, em “Subida Sociedade”. Essa trajetória por diferentes gêneros nos deu uma intimidade e uma crédito cênica fundamentais.

O texto do Mauro Rasi traz tudo muito muito desenhado, portanto o sigilo é a repetição: tentativa, prática e rigor para deixar a engrenagem precisa. O Emílio nos estimula continuamente a depreender essa medida exata, o que torna o ritmo do diálogo mais expediente, vivo e rútilo no palco.

Emílio de Mello carrega no próprio corpo a memória cênica das criações de Rasi. Porquê foi ser dirigida por alguém com essa bagagem da obra e que tipo de liberdade ou precisão ele exigiu do seu trabalho nessa estreia pelo repertório do responsável?

Emílio traz essa memória viva não somente por ter atuado em montagens históricas uma vez que “Pérola”, “A Estrela do Lar” e “Viagem a Forli”, mas pela amizade íntima com o Mauro. Ele entende com profundidade o que o responsável queria manifestar e domina esse estilo de teatro.

Além de grande diretor, ele é um ator fenomenal, sabe exatamente os atalhos e os bloqueios do tradutor, exigindo nuances que às vezes nem nós mesmos estamos enxergando. Ele não dá moleza: serpente precisão absoluta na partitura do Rasi. A carpintaria original do texto, escrito em 2001, foi preservada intacta, somente pontuada por ajustes naturais para dialogar com o nosso tempo.

A farsa social ganha outra voltagem quando dialoga diretamente com o noticiário e com as novas engrenagens da impunidade no país. Para você, qual é o papel do riso incômodo nesse momento em que a ficção e as manchetes parecem se confundir?

O riso abre portas. Ele nos desarma e permite encarar nossas próprias mazelas com mais condolência e reflexão. Em cena, os personagens tratam absurdos sociais com extrema naturalidade, e é aí que surge a provocação: até quando vamos descobrir tudo isso normal?

A peça não trata de disputa partidária, mas de justiça social e cidadania. Em um momento de tanta informação e tensão coletiva, o texto do Mauro Rasi propõe um olhar ácido, irônico e, ao mesmo tempo, indulgente sobre o país. O riso permite colocar o dedo na ferida sem perder o afeto, gerando um incômodo importante para repensarmos a nossa veras.

Teatro Vanucci | Shopping da Gávea – Rua Marques de São Vicente, 52, Gávea, Rio de Janeiro. Sexta e sábado, 20h30. Domingo, 19h. Até 27/9. Duração: 80 minutos. Classificação indicativa: 10 anos. A partir de R$ 60 (meia-entrada balcão) em sympla.com.br


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Folha

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