Amos Gitai: Amo Israel, e me recuso a ficar em silêncio – 29/10/2026 – Ilustrada
A guerra na Filete de Gaza foi tema mediano nos festivais de cinema deste ano, incluindo na trilogia principal, Berlim, Cannes e Veneza. Para o israelense Amos Gitai, o conflito é uma preocupação há pelo menos 40 anos, quando fez o documentário “House” e foi censurado em seu país. O diretor apresentou “O Caminho de Jericó” na Mostra de Cinema de São Paulo, depois de ir à Veneza com o longa.
O documentário usa músicas e reflexões para narrar o cotidiano de uma escola primária de uma lugarejo beduína, construída com pneus, barro e madeira. Localizado em território palestino, o sítio sofre ataques constantes de colonos israelenses que consideram a terreno sua por recta.
“A escola tornou-se um símbolo da resistência sítio diante de anos de ameaças de demolição iminente e da pressão das autoridades israelenses para expulsar os moradores”, diz Gitai, em entrevista por email.
“Senhoril Israel, e por isso me recuso a permanecer em silêncio diante do rumo que o país está tomando”, diz Gitai, a saudação da ocupação dos territórios palestinos por Israel e sobre o governo de Binyamin Netanyahu.
O diretor deu a enunciação pouco antes das eleições parlamentares em Israel, na última terça-feira (27). O conjunto de Netanyahu soma 53 cadeiras, contra 48 da oposição. O grupo do primeiro-ministro obteve mais votos, mas não tem a maioria necessária para governar.
Para Gitai, Netanyahu tenta “reduzir a cultura à propaganda”. São palavras de um artista que precisou transpor de Israel. Seu filme “House”, sobre uma lar deixada pelo morador palestino durante a guerra de 1948 e ocupada sucessivamente por famílias judias, foi precito da televisão israelense nos anos 1980.
“Racontar a história do conflito por meio das pedras de uma lar e das vozes daqueles que a construíram ou a perderam era, evidentemente, perturbador demais”, lembra Gitai.
Pouco depois, fez “Field Diary”, que mostrava a verdade dos territórios ocupados pelo tropa de seu país antes e durante a invasão do Líbano, em 1982. “A violência das reações levou-me a deixar Israel e partir para Paris, onde permaneci por dez anos”, diz.
Voltou a Haifa nos anos 1990, estação do governo de Yitzhak Rabin, primeiro-ministro que tentou firmar a silêncio com as lideranças palestinas. Ele foi assassinado por um estudante da extrema-direita israelense em 1995.
Rabin é uma figura recorrente nos filmes de Gitai desde logo. Em 2015, “O Último Dia de Yitzhak Rabin”, mostrou os últimos momentos do ex-primeiro-ministro. Em uma das cenas do documentário, um jovem Netanyahu inflama o ódio de manifestantes que gritam “morte a Rabin”. “O governo de Netanyahu luta contra Israel e precisa terminar”, disse Gitai, há três anos, quando o filme foi exibido nos cinemas brasileiros.
Em fevereiro, o conflito em Gaza foi o núcleo de uma polêmica que tomou o Festival de Berlim. A diretora do evento, Tricia Tuttle, quase foi demitida pelo ministro da Cultura boche por suposto antissemitismo. Isso porque ela apareceu, numa foto, com a equipe de um filme palestino, ainda que ela tenha defendido uma posição de neutralidade no evento. O caso se soma a outros episódios de retaliação contra artistas que criticam Israel.
“Nem tudo é antissemitismo. Há críticas legítimas às ações de Israel, sobretudo à preocupação pelo uso da força. Estamos vendo as consequências dessa política”, diz Gitai. Por outro lado, o diretor desaprova o boicote contra artistas israelenses, movido por entidades pró-Palestina para pressionar o governo de Netanyahu a parar os ataques em Gaza e a ocupação de terras palestinas.
“Quando faço cinema ou teatro, tento reunir atores israelenses e palestinos e peço que dialoguem. Para mim, cultura significa produzir espaço para o diálogo”, diz. “Se boicotarmos os artistas capazes de transfixar essas brechas, é melhor passarmos logo para a próxima guerra. Não haverá zero melhor do que esperar.”
Gitai encontrou esperança na escola de “O Caminho para Jericó”. Ali, viu mulheres israelenses indo até a comunidade beduína para substanciar a resguardo do território frente à violência dos colonos. Para o diretor, elas fazem mais política do que ele próprio, ou qualquer outro cineasta e jornalista.
Ele diz lembrar de “Guernica”, tela do pintor Pablo Picasso, quando pensa sobre a relação entre arte e política. Com cabeças de humanos e animais gritando em agonia e corpos desalinhados, a obra se tornou símbolo da Guerra Social Espanhola. O quadro é de 1937, e o conflito terminaria só dois anos depois, com a vitória do general Francisco Franco e uma ditadura que durou 36 anos.
Entre as milhares de obras assinadas por Picasso, “Guernica” é uma das que melhor se fixou na memória coletiva, ainda que não tenha surtido efeito qualquer sobre a guerra. Para Gitai, essa é a prova de que a arte tem poder —não político, mas simbólico. “A verdade não muda exclusivamente por meio do verba e das metralhadoras. Ela também muda por meio das ideias. Talvez elas deixem um vestígio na memória, e talvez essa memória incentive as pessoas a dar perpetuidade ao diálogo.”





