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Anna Maria Maiolino inaugura exposição em Lisboa 26/04/2026
Celebridades Cultura

Anna Maria Maiolino inaugura exposição em Lisboa – 26/04/2026 – Ilustrada

Performances artísticas são, por definição, efêmeras. Raras se tornam clássicas —aquelas que, reencenadas, mantêm sua força em diferentes épocas e contextos. Um desses casos é “Entrevidas”, da brasileira Anna Maria Maiolino. Em 1981, a artista dispôs ovos numa lajedo do bairro de Laranjeiras, no Rio de Janeiro, e caminhou entre eles. Lastrar-se sem quebrá-los ressoou porquê um protesto soturno, mas grandiloquente, contra a ditadura militar brasileira.

Uma novidade versão do clássico foi apresentada em “Terreno Poética”, a exposição que Maiolino inaugurou em março no Maat, Museu de Arquitetura, Arte e Tecnologia de Lisboa. Os ovos foram dispostos numa lajedo à extremo do rio Tejo, e vários convidados da artista caminharam entre eles com as mãos erguidas. “Com essa loucura que está o mundo, com todas essas guerras, com toda a violência contra a mulher, com as balas perdidas nas grandes cidades, levantar as mãos é um pedido de sossego”, disse a artista à Folha.

A novidade exposição em Lisboa integra teoria, gesto e realização. Na rampa que dá entrada ao espaço expositivo estão dispostos vários desenhos de Maiolino da série “Tempestade de Ideias”. “É uma espécie de ‘storyboard do pensamento’. Eu sempre levo um caderninho comigo e revisito, o tempo todo, o que pensei um mês detrás, um ano detrás”, diz Maiolino.

“Tempestade de ideias é isso mesmo, são ideias esboçadas que poderiam virar uma estátua, uma instalação, um poema, um objeto. São resíduos de pensamento”, afirma a artista em entrevista por zoom, enquanto modela em barro uma novidade estátua —a qual, informa, nasceu de um traçado anterior.

Nas esculturas dispostas na enorme galeria mediano do Maat —um dos três principais complexos de arte contemporânea de Lisboa— reconhece-se o tempo todo o gesto de amassar o barro. “A ação das mãos é a mesma de um pão feito em lar, um espaguete feito em lar”, diz Maiolino, brasileira nascida na região italiana da Calábria. “Eu me acho uma mulher doméstica, uma mãe de família, uma avó de família, metida a artista”, brinca.

“Há uma coisa muito importante no processo dela, que é o volta à puerícia”, afirma João Pinharanda, um dos dois curadores da exposição portuguesa. “É uma história que ela sempre conta, das dificuldades da guerra, da mãe sempre a cozinhar para os dez filhos que tinha, sempre na cozinha a fazer rolinhos de nhoque e volume.”

Pinharanda, um dos mais importantes curadores portugueses, é também diretor do Maat. O invitação inicial a Maiolino se deu em 2024, quando a artista foi homenageada com o Leão de Ouro da Bienal de Veneza. Sem ser uma retrospectiva, é a primeira exposição da artista num museu em Portugal. Fica em papeleta até o dia 31 de agosto.

“Ela sempre fala da questão do barro porquê material primeira da teoria do Gênesis, a geração do varão”, diz Pinharanda. “No meu texto para o catálogo, eu tive uma percepção de que oriente barro é outro, é o do varão que teve que trabalhar quando Deus o expulsou do paraíso. O barro do suor. Ela fala muito disso, da intensidade do trabalho. E também do seu paisagem lúdrico.”

A exposição “Terreno Poética” tem 15 esculturas inéditas, entre as maiores que Maiolino já criou. A artista de 84 anos trabalha com uma equipe de vários assistentes. “Não sei se você é do campo, mas quando se trabalha em conjunto há uma alegria grande, eu me recordo das colheitas da minha puerícia, em que ficava sentada em um monte de grãos, e as pessoas cantavam, falavam e brincavam”, afirma a artista. “Havia uma alegria, e isso me deixa sempre muito feliz, porque eu só acredito no trabalho quando há alegria, não sofrimento.”

Há uma conformidade nas esculturas da exposição, onde se mesclam elementos cilíndricos, que lembram serpentes, com pequenas bolas de barro amassado. Pontos e linhas, elementos da linguagem básica dos desenhos. A maior delas surpreende ao combinar vários tons terrosos.

“Eu não sou uma colorista. Mesmo que tenha feito telas, sou muito cimo contraste. Até porquê pessoa, acho que não tenho meios tons. Sou ou sim ou não”, diz Maiolino. “Há um tempo tinha um projeto de fazer uma estátua moldada com as várias terras do Brasil. Não tive verba para viajar. Mas agora em Portugal tive a possibilidade de ter barro com cores diferentes, e decidi testar. Para mim, cada exposição é uma experimentação.”

Maiolino já experimentou em diversas linguagens. Figura, pintura, estátua, vídeo, poesias. O incitação para registrar ideias em cadernos veio do artista plástico Hélio Oiticica, que ela conheceu quando viveu em Novidade York no final dos anos 1960. Entre tarefas domésticas e passeios na cidade com os filhos pequenos, a artista desenhava e também escrevia. As palavras saíam em italiano, inglês e português. Além das ideias que se materializaram em arte, os textos deram origem a um livro de poemas.

Uma vez que um refrão recorrente, a performance “Entrevidas” se repete e se renova nas diversas fases de Maiolino. Foram 22 versões ao todo, nos cálculos de Lívia Gonzaga Bertuzzi, assistente da artista. Em 2023, no Staatliche Museen de Berlim, Gabriel Sitchin, neto de Maiolino, convidava pessoas da plateia para caminhar com ele. Dez anos antes, na cidade francesa de Metz, bailarinos contemporâneos criaram uma coreografia sobre os ovos dispostos no pavimento.

Depois de inaugurar em Lisboa a exposição “Terreno Poética”, “Entrevidas” atravessará o Atlântico para ancorar no Rio de Janeiro, no próximo dia 7 de maio, no Museu do Amanhã. A novidade versão certamente dialogará com o momento político, sem deixar de lado o paisagem lúdrico —porquê Maiolino sempre faz questão de ressaltar, a alegria é a prova dos nove de sua geração artística.

Folha

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