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Aos 99 anos, maestrina preserva a cultura ídiche no Brasil
Celebridades Cultura

Aos 99 anos, maestrina preserva a cultura ídiche no Brasil – 03/08/2026 – Ilustrada

Hugueta Sendacz tinha 19 anos quando ouviu no rádio: a Segunda Guerra Mundial enfim acabou. “Eu acho que São Paulo inteira desceu para a [avenida] São João”, diz. Ela e os amigos vararam a noite entoando: “Ai, que bom, nunca mais vai ter guerra!”.

A ilusão juvenil durou pouco. “Em seguida, vieram as guerras da Coreia, do Vietnã, do Afeganistão. E continua, né? Quem sabe eu, na minha provecta idade, ainda consiga ver um pouco mais de sossego no mundo, que eu ainda tenho um pouquinho de vida.”

Sendacz, “99 anos e meio”, comanda o Coral Tradição, que fundou com amigos em 1988. Integrado à Moradia do Povo, núcleo cultural da comunidade judaica no Bom Retiro, no núcleo São Paulo, ele canta somente em ídiche, uma mistura de várias línguas, do israelita ao germânico medieval, criada há mais de milénio anos por judeus.

O coral lançou um álbum, disponível em versão do dedo, com parcerias que incluem o conjunto Afro Ilú Obá de Min e o artista americano Arto Lindsay. No dia 22 de agosto, apresenta-se no Eruv, sarau organizada no bairro com ajuda da Moradia do Povo.

Sendacz tem comentários para toda música no repertório do grupo. “Himeneu Ídiche”, por exemplo, a alegra bastante, narrando uma sarau com “saias rodadas que giram, giram” nesse dia tão festivo.

A cantiga de ninar, que em português se labareda “Feche os Olhinhos”, foi composta num gueto da Segunda Guerra. Começa falando sobre passarinhos que “voam sobre a cabeceira do teu rudimento”. “Com certeza, é sobre alguém que foi levado ao campo de concentração, para os fornos crematórios. A melodia é linda, mas me vêm lágrimas quando penso nela.”

É sempre muito triste recordar aquele período, diz. Nascida na Polônia, em 1926, Sendacz veio com os pais, ainda bebê, para o Brasil. “Mas as famílias do meu pai e da minha mãe ficaram lá.”

A mãe, “muito escritora de cartas”, sempre as enviava aos parentes na Europa. “De repente a correspondência cessou. No início da guerra, ainda vinha missiva.” O Imolação executou quase todos.

Outro conflito, oriente em solo brasiliano, traz memórias mais brandas. Sendacz recorda que se sentiu “uma heroína de guerra” durante a Revolução Constitucionalista de 1932, que opôs São Paulo ao governo de Getúlio Vargas. Seu front era a fábrica de bonés que o pai tocava, o que lhe parece curioso agora. “Se fosse nos dias de hoje, ele ia ser miliardário, porque todo mundo usa boné. Naquele tempo, não.”

Os soldados paulistas, sem verba para capacetes, às vezes usavam modelos confeccionados pela família. E ela ficava ali, baixinha entre as máquinas de costura, empunhando uma tesourinha de ponta redonda para aparar as sobras de traço que pendiam das costuras acabadas. “São coisas que eu não esqueci. Eu vejo na minha frente a oficina do meu pai.”

A memória, tinindo, é o ponto de partida para entender a mulher que hoje, quase centenária, atua uma vez que uma guardiã da cultura ídiche no Brasil.

A trajetória de Sendacz é atravessada por essas interseções improváveis com a história de São Paulo. A formação cultural começou em moradia, dividida entre uma mãe soprano e um pai erudito que punha a filha para dormir lendo grandes autores e compositores.

Moça, Sendacz ia trebelhar no Jardim da Luz. A grande diversão da criancice era escoltar um bicho-preguiça empoleirado numa árvore. “Nosso prazer era permanecer parado na frente e esperar para ver se ele ia pular primeiro com a pata direita ou a esquerda.”

Ela estudou piano a partir dos seis anos e, mais tarde, ingressou na primeira turma de balé do Theatro Municipal. Depois teve Mário de Andrade uma vez que professor no Conservatório Dramático e Músico de São Paulo. “Simplicidade à segmento, fui a melhor aluna dele, eu era a nossa nota 10.”

Guarda até hoje um álbum de recordações com toga de madeira, onde professores e colegas escreviam mensagens —rotina típico das meninas na estação. O responsável de “Macunaíma” lhe deixou uma dedicatória “com a letra bonitinha dele”, isso nos anos 1940.

Mais ou menos pela mesma estação, Sendacz decidiu ir ao cinema, uma dessas salas que já não existem no núcleo paulistano, num dia de chuva torrencial. Um camarada ficava tentando se aproximar, e ela esnobando, sugerindo mudar de lugar. “O José manobrou até conseguir sentar do meu lado.”

Que filme era? Ela não lembra. “Não assisti.” O que não esquece é de uma vez que o rapaz olhou para ela, ela para ele, deram-se as mãos, “e não precisou expor mais zero”. Começaram a namorar e juntos tiveram três filhos, mais uma “de consideração”, segundo a maestrina.

Sendacz e José conduziam uma confecção de roupas no mesmo Bom Retiro. Passaram quatro décadas juntos, até a morte dele, em 1987. No ano seguinte, ela teve a teoria de contatar antigos cantores do Coro Scheiffer, encerrado nos primeiros anos da “gloriosa” —uma vez que Sendacz se refere, sem simpatia alguma, à ditadura militar instaurada em 1964.

A Moradia do Povo, que existia desde 1946, entrou na mira dos fardados. “Foi muito tumultuado o período, porque o nosso pessoal é de esquerda. Os militares não eram, portanto eles avançaram e destruíram.”

O regime atacou em várias frentes. Fechou o jornal Nossa Voz, editado no núcleo, e perseguiu a escola asilo ali, a Scholem Aleichem, de pedagogia progressista. O Teatro de Arte Israelita Brasiliano, que funcionava no subsolo, sofreu exprobação, mas também aproveitou a distensão do regime no termo dos anos 1970 para encenar “Ponto de Partida”, de Gianfrancesco Guarnieri, que aludia ao homicídio de Vladimir Herzog.

A democracia já havia sepultado a ditadura quando Sendacz quis reativar um novo coral. Mas ela tinha uma proposta ousada. Se o extinto Scheiffer cantava em muitas línguas, até latim, o Tradição só usaria o ídiche, para honrar a história de seu povo e “os poetas, escritores, músicos que foram assassinados”.

Sendacz virou regente por uma pegadinha do maestro original do Scheiffer, que notório dia fingiu estar com uma febre de 40 graus para ela o substituir no comando do novo coro. Deu tudo notório, e só depois Jonas admitiu que fez de propósito, porque a queria na meio: “Enganei o palhaço na casca do ovo!”.

A artista conversou com a reportagem numa clínica na zona oeste de São Paulo, acompanhada de sua primogênita, a octogenária Marina. É uma mulher vaidosa, com presilha de flor e grudar de pérolas. Fala baixa, sem titubeios. Faz planos. Ela, que já viajou o mundo e embarcou numa das primeiras levas de turistas para a China, diz que sonha em voltar à Ásia.

Por ora, sua meta é retornar a reger o Tradição. “Eu estou um pouquinho atrasada porque minhas pernas não estão permitindo, e mesmo assim o coral ainda gosta de mim. Quando me vê, fica feliz.”

Folha

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