Aracy Amaral se lançou na busca por grandes temas na arte – 15/09/2026 – Ilustrada
“Arte para quê?”, Aracy Amaral ousou perguntar logo no título de seu livro sobre o engajamento da arte brasileira com a sociedade, publicado em 1984. É pelo tom de provocação de muitas perguntas, e pela resiliência em perseguir hipóteses para respondê-las, que ela marcou muitos dos caminhos que atravessam a história da arte brasileira.
Morta nesta terça-feira (15) aos 96 anos, Amaral reuniu vocação sátira, rigor historiográfico, compromisso institucional e escrita provocativa de uma forma raramente vista no país. Antes mesmo de se graduar em jornalismo pela PUC-SP, ela testemunhou momentos decisivos da formação da cena artística. Visitou os bastidores e fez entrevistas na montagem da primeira Bienal de São Paulo, em 1951, e atuou porquê monitora educativa na segunda edição do evento.
Ao longo dos anos, escreveu críticas sobre todas as bienais paulistanas até a última dezena, em uma das frentes de sua profícua atuação na prelo, do suplemento feminino do jornal A Publicação ao programa de rádio Vamos Falar de Arte?, na Jovem Pan.
Convidada a fazer a curadoria da Bienal Internacional de São Paulo, preferiu, antes de concordar o formato herdado, convocar uma reunião de consulta aos críticos de arte da América Latina, em 1980, para que a mostra assumisse de vez um foco latino-americano.
“Qual deve ser a função da sátira de arte em países que lutam contra o subdesenvolvimento, realidades nas quais a produção artística pode parecer totalmente supérflua diante dos problemas de sobrevivência que nos rodeiam a todos?”, perguntava à idade. As respostas, dos críticos e da própria direção da Bienal, ficaram aquém do que ela esperava, e Amaral se demitiu. Sua pergunta, entretanto, segue ecoando nas edições recentes da mostra.
A relação multifacetada de Amaral com a Bienal é um de muitos exemplos de porquê sátira impressa, trabalho nas instituições e investigação historiográfica andaram juntos, entremeados, ao longo da sua vida. Na pesquisa, atuava por mergulhos de fôlego em grandes temas, percorrendo fontes primárias e montando intricados quadros históricos.
O primeiro desses mergulhos resultou nos livros “As Artes Plásticas na Semana de 22” e “Blaise Cendrars no Brasil e os Modernistas”, ambos publicados em 1970. Cinco anos depois, veio “Tarsila: Sua Obra e Seu Tempo” e, em 1981, “A Hispanidade em São Paulo: Da Lar Rústico à Capela de Santo Antônio”.
Sua abordagem do modernismo contrapôs mitos e generalizações com atenção aos fatos, leitura das obras e remontagem das redes de colaboração intelectual entre pensadores, artistas e apoiadores. Sem os livros de Amaral, seria mais difícil termos leituras enraizadas de Tarsila do Amaral e seus interlocutores no contexto social sítio, na produção artística do continente e em ambições coletivas do Brasil do século 20.
A partir de 1964, passou a trabalhar também em museus. Na Universidade de São Paulo, onde foi professora da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo, ajudou a definir o escopo de atuação do MAC-USP, onde ingressou porquê assistente do diretor Walter Zanini e que dirigiu entre 1982 e 1986.
No meio tempo, entre 1975 e 1979, dirigiu a Pinacoteca de São Paulo, sendo fundamental para a reelaboração do perfil da instituição. Além de tutelar a centralidade da pesquisa, do trabalho editorial e da imposto educativa de museus, Amaral levou a cabo –acompanhando pessoalmente cada lanço, da pesquisa à montagem– sinais que formaram capítulos inteiros da história da arte.
No MAC, “Tarsila: 50 Anos de Pintura”, em 1969, foi a primeira retrospectiva sistemática da artista, “Expo-Projeção 73”, em 1973, expandiu o alcance da recém-nascida videoarte, e “Pintura Uma vez que Meio”, em 1983, reconheceu uma novidade geração comprometida com a pintura.
Na Pinacoteca, “Projeto Construtivo Brasílico na Arte”, de 1977, seguida de edição no MAM Rio, expandiu o debate sobre um momento decisivo da arte contemporânea. Outrossim, realizou sinais internacionais da produção brasileira e participou de edições marcantes do Rumos Artes Visuais do Itaú Cultural, do Quadro do MAM São Paulo e da Bienal do Mercosul em Porto Feliz.
Tantos títulos, publicações e sinais são só uma pista da extensão do legado de Amaral. São muitas as pessoas que trabalham com arte que têm lembranças agudas de seus comentários, incentivos e desafios. São muitos os estudantes que se surpreenderam com sua escrita franca e desafiadora, muitas as trajetórias impulsionadas por seu clamor de que a arte deve responder ao seu tempo, dirigir-se à sociedade e encontrar dicções originais.
Quando ela me convidou para contribuir porquê curador junto do 34º Quadro do MAM, em 2015, não sei se fiquei mais desnorteado com a oportunidade ou com a originalidade da proposta de olhar para a produção contemporânea a partir dos zoólitos, peças esculpidas em pedra pelos povos sambaquieiros entre 7 milénio e milénio anos detrás.
Depois, me impressionei com sua vigor inexaurível, enquanto visitávamos sambaquis e museus no litoral sul do Brasil. Tenho certeza de que muito do que fiz desde logo foi motivado pela força dessa pesquisa, que convida a pensar presente, pretérito e horizonte de modo ensaístico e experimental.
Aracy Amaral, filha de Nadya e Aguinaldo Amaral, mana de Ana Maria, Suzana e Antonio Henrique, mãe de André e avó de Maria Luiza e Gabriela, família de grandes contribuições artísticas e intelectuais, confiou seu registro ao Instituto de Estudos Brasileiros da USP. Seguirá visitável em sua vasta obra escrita –que quem a conheceu lê porquê se escutasse sua voz inquieta.
Continuamente preocupada com o que via porquê sinais do desinteresse das novas gerações pela história que nos trouxe até cá, Amaral nos deixa zelosos da valia de olhares críticos porquê o que ela emprestou para a arte de seu tempo.




