A atriz Olivia Wilde lambuza um pênis de borracha rosa-choque com lubrificante. Sua personagem, Erika, está prestes a penetrar Elliot, interpretado por Cooper Hoffman, posicionado de bruços em seu pescoço, temeroso e com o traseiro empinado. Essa é uma das cenas eróticas do filme “I Want Your Sex”, de Gregg Arakis, que foram supervisionadas por um coordenador de intimidade.
Esses profissionais são responsáveis por revistar cenas de sexo em produções para o cinema, a televisão e o teatro, garantindo que sejam realizadas com segurança. Na prática, o trabalho envolve preparar os atores com conversas e exercícios, mediar a informação entre eles e o diretor e prometer que os limites de consentimento sejam respeitados. Ou por outra, eles podem supervisionar o resto do set para prometer que outras pessoas da produção não sofram qualquer assédio ou constrangimento.
“Nos sentimos muito seguros e, ao mesmo tempo, libertos”, disse Wilde sobre a atuação da coordenadora Yehuda Duenyas no set do filme que chega aos cinemas brasileiros nesta quinta-feira (22). Mas há quem ache que esses profissionais atrapalham o fluxo de originalidade em cena. A profissão, que vinha se estabilizando uma vez que conquista de atores e atrizes, agora enfrenta resistência por secção de artistas veteranos.
O coordenador de intimidade tornou-se presença indispensável nos grandes estúdios em seguida o MeToo, em 2017. O movimento levou a público assédios e abusos sexuais enfrentados por mulheres nos bastidores de Hollywood durante décadas.
Durante as filmagens de “Marty Supreme”, por exemplo, a americana Gwyneth Paltrow, de 54, pediu para que o coordenador recuasse em meio a uma cena de sexo com Timothée Chalamet. Ela interpretava uma atriz mais velha, e ele, um jogador de pingue-pongue.
“Não sei uma vez que é para os jovens que estão começando, mas se alguém diz ‘agora ele vai colocar a mão cá’, eu me sinto muito limitada”, disse ela para a revista Variety quando o filme foi lançado, no início do ano.
Outras estrelas, uma vez que a vencedora do Oscar Jennifer Lawrence e a francesa Juliette Binoche, deram declarações estranhando a atitude de coordenadores de intimidade nos sets de filmagem. Elas criticam esses profissionais por interromperem amassos, corrigirem a posição de uma mão ou palpitarem sobre a intensidade da cena no lugar da direção.
Historicamente, diretores desrespeitaram a integridade física de atrizes detrás das câmeras. Um caso sabido é o de “O Último Tango em Paris”, de Bernardo Bertolucci. No filme, o personagem de Marlon Vagaroso, à estação com 48 anos, estuprava seu par romântico, interpretado por Maria Schneider, de unicamente 19. A cena foi gravada de surpresa, sem o consentimento de Schneider, que foi estuprada na vida real.
Em seguida o MeToo, casos recentes vieram a público. As francesas Léa Seydoux e Adèle Exarchopoulos denunciaram abusos do diretor Abdellatif Kechiche durante as gravações do drama lésbico “Azul É a Cor Mais Quente”, vencedor da Palma de Ouro de 2013. A cena de sexo protagonizada pelas duas durou dias para ser filmada. Elas relataram que, frente ao clima hostil do set, se sentiram obrigadas a repetir os gestos à exaustão, e que não havia cortes claros de cena.
No Brasil, um dos casos mais emblemáticos foi o do ator José Mayer, culpado de assédio sexual nos bastidores da romance “A Lei do Paixão”, em 2017. A figurinista Suellen Meneguzzi Tonani disse que o ator a tocou sem consentimento e direcionava comentários constrangedores a ela.
“Desde o início da narrativa nas telas, o teor íntimo tem sido tratado uma vez que um manobra de improvisação, no qual os atores são simplesmente solicitados a ‘seguir em frente’. Isso levou ao ataque e ao traumatismo”, escreve a coordenadora de intimidade britânica Ita O’Brien em seu livro “Intimacy: A Field Guide to Finding Connection and Feeling Your Deep Desires”.
O’Brien trabalhou nos bastidores das séries “Pessoas Normais” e “Sex Education”, e de “Wicker”, próximo filme protagonizado por Olivia Colman. Segundo a coordenadora, a carência de diretrizes claras levou ao caos nos sets de filmagem.
Para filmes independentes, incluir o profissional no orçamento é um duelo. Daniel Nolasco, diretor brasiliano de “Exclusivamente Coisas Boas” e “Vento Sequioso”, diz que não costuma trabalhar com coordenadores, mas que não se oporia caso um artista pedisse a presença de um.
Para prometer o conforto dos atores, Nolasco diz ser importante evitar o elemento surpresa. “É preciso deixar simples uma vez que será a cena e seguir exatamente aquilo que foi combinado”, afirma.
“Muitos atores e atrizes já tiveram experiências traumáticas com cenas de intimidade. E muitas pessoas, em sua maioria mulheres, já sofreram qualquer tipo violência. São situações que merecem atenção”, diz a coordenadora de intimidade Renata Soares, fundadora do Intimidade Cênica Brasil. A organização é a primeira do país dedicada à formação desses profissionais, com reconhecimento do sindicato dos atores dos Estados Unidos.
“Artistas com anos de curso, celebridades, sabem que seu posicionamento vai ser respeitado. Mas isso não é garantia para todos”, diz Soares. Para ela, a geração recente da profissão e a falta de cursos profissionalizantes levaram muitos coordenadores a atuar no mercado sem a devida formação. A falta de preparo está relacionada às atitudes invasivas, que causam uma má sensação.
Na prática, o coordenador precisa entender de dramaturgia para decupar o roteiro, investigar as cenas íntimas e satisfazer os objetivos do diretor. Dinâmicas são feitas para aquecer os atores antes da gravação derradeira.
Com orgias e nudez frontal, os episódios de “Jogada de Risco”, da Globoplay, geraram burburinho nas redes sociais a cada novo incidente. Bruna Griphao, atriz que vive a prostituta Daniele na série, diz se sentir mais segura ao saber que há um coordenador para orar incômodos ao diretor. “Cenas íntimas precisam ser muito muito ensaiadas e coreografadas para que as pessoas consigam permanecer entregues ao personagem, sem outras preocupações.”
Segundo Soares, a coordenadora, é provável deixar momentos livres para o improviso, desde que tenham sido estipulados em conversas prévias entre produção e elenco.
Em Hollywood, Florence Pugh e Nicole Kidman saíram em resguardo dos coordenadores. À rádio Times, Kidman, veterana de “Moulin Rouge!” e de “De Olhos Muito Fechados”, disse que, apesar de não ser infalível, a presença dos profissionais protege mulheres.
Mesmo com experiência de sobra, Kidman disse ter conseguido aprimorar as cenas quentes de “Babygirl” graças à coordenadora Lizzy Talbot. O filme, lançado há dois anos, é o mais erótico da atriz.
“Nós, atores, queremos explorar as coisas e ter a capacidade de nos entregar ao que fazemos, porque muito disso é emocional, incomum e estranho. Nós queremos a estranheza. Não queremos homogeneizar as coisas”, disse Kidman à Rádio Times. “Logo que você começa a proferir: ‘Só podemos fazer isso e aquilo’, essas regras se tornam um pouco restritivas. Podemos fazer cenas íntimas, mas com saudação, estrutura e lembrando do ser humano.”





