Foi em 1981, depois pegarem ônibus do Rio de Janeiro para São Paulo para assistirem ao show do Queen no Morumbi, que o novato de tecladista Mauricio Barros e o estudante de bateria Guto Goffi resolveram fazer alguma coisa dissemelhante.
“Ficamos muito impactados com aquilo. Embora a gente já tivesse algumas bandas instrumentais, voltamos com a crença de que queríamos ter um grupo de rock, e com cantor. Foi o combustível primordial para a gente estrear o que veio a se tornar o Barão Vermelho”, lembra Barros.
E, além dos dois, quem mais você acha que estudava na ProArte, tradicional escola de música do Rio? Dé Palmeira (reles) e Roberto Frejat (guitarra). São esses quatro integrantes originais que se reúnem agora na turnê “Barão Vermelho Encontro”.
Em 2023, a produtora 30e havia conseguido colocar no palco os sete integrantes do Titãs, no que foi um tour de grande sucesso, com 48 shows. Agora faz o mesmo com o Barão.
A turnê começa nesta quinta (30), no Rio de Janeiro, e outras datas já marcadas são em São Paulo, 23 de maio; Porto Prazenteiro, 27 de junho; Florianópolis, 8 de agosto; Curitiba, 29 de agosto; e Belo Horizonte, 26 de julho.
No Rio e em São Paulo, a margem contará com a presença peculiar de Ney Matogrosso. “É uma participação que envolve mais de uma música, ele entra em um conjunto do show”, afirma Frejat.
Os encontros acontecem porquê um projeto paralelo às atividades atuais dos músicos —Barros e Goffi estão se apresentando porquê Barão Vermelho, ao lado de um novo vocalista e de outros músicos. Não é, portanto, uma volta de Frejat, que já lançou cinco discos solo, ao grupo carioca.
O repertório é aquilo que fãs querem ouvir, as canções mais famosas do Barão dos anos 1980 e 1990. “Você não vai para uma redondel tocar música obscura ou permanecer lançando coisa novidade”, diz Barros. “E olha que deixamos coisa de fora, porque não cabe tudo”, diz Goffi.
Quando esses dois resolveram montar o Barão Vermelho, porém, o problema era o oposto: eles mal tinham músicas para ensaiar. “Quando chegou o Dé e o Frejat, a gente tinha duas músicas que eu e o Guto tínhamos feito”, lembra Barros.
E quando Cazuza (1958-1990) entrou, algumas semanas depois, o novo vocalista logo quis reescrevê-las. “Ele foi trazendo para o universo da boemia carioca. Ficou evidente para nós que tínhamos ganhado um poeta também”, diz o tecladista.
“E o lance do Cazuza entrar, lembro que foi muito difícil convencê-lo”, diz Goffi. “Eu falei: ‘quer trovar numa margem de rock?’ E ele respondeu ‘quero’.”
Anos mais tarde, Cazuza, que comporia bossas novas, passou a ser identificado mais porquê da MPB. Mas o Barão não perderia a aura de rock’n’roll. E aquele primórdio teve tudo a ver com isso, indo muito além do Queen.
“Uma referência que funcionava para nós quatro era o Van Halen, aqueles dois primeiros discos deles”, conta Frejat. “Comigo tinha muito Rolling Stones, blues e Led Zeppelin, essa coisa do rock mais clássico. E o Police era uma margem presente.”
“Eu queria aprender a tocar rock e eles eram realmente roqueiros”, diz Palmeira. Mas, para quem acha que o Barão torcia o nariz para a produção vernáculo, não era muito assim. “Talvez tenha ficado esse timbre de MPB em mim, mas todo mundo ali gostava de música brasileira”, continua o baixista.
“A gente era muito fã da Cor do Som, do Pepeu Gomes. O ‘Acabou Chorare’, do Novos Baianos, é um dos discos que eu mais ouvi na minha vida”, diz Goffi.
“Eu gostava muito de Mutantes, tinha essa pegada mais de rock brasílico também. Mas também curtia música brasileira, Jair Rodrigues, Benito di Paula, porquê qualquer brasílico”, completa Frejat.
Essa combinação de referências se refletiu na forma porquê as músicas passaram a ser construídas com Cazuza. Segundo os integrantes, a margem passou a organizar os arranjos em função das letras. “A gente fazia uma moldura músico sem atrapalhar o exposição”, conta Goffi. “A letra ia levando.”
Esse desvelo com a voz e as letras de Cazuza virou uma marca desde o primeiro disco. “A gente nunca teve problema de alguém expor que não entendia o que estava sendo cantado”, diz Frejat. “Os arranjos já eram feitos para sustentar a voz.”
Ao gravar e lançar seu primeiro disco, homônimo, em 1982, o Barão não estava sozinho. “Outras bandas começavam a desabrochar, ainda que em estágios diferentes”, fala Frejat, citando os nomes de Lulu Santos, Blitz e Rádio Táxi, porquê os de uma novidade geração no rock brasílico.
“Tinha o Lobão. E o Camisa de Vênus, que estava começando ali naquele ano também. O João Penca e os Miquinhos Amestrados. O Léo Jaime”, vai lembrando Frejat.
Mesmo assim, o cenário era restringido. “Todo mundo tinha uma margem, mas não tinha lugar para tocar”, afirma Barros. No Rio, segundo ele, as bandas tocavam em seus apartamentos. “Não era um movimento articulado, porquê a Tropicália”, diz Frejat.
O Barão saiu desse contexto e alcançou o estrelato. Décadas depois, o reencontro retorna a um ponto inicial em que a margem ainda estava sendo definida —e que, segundo eles, não se sabe quando poderá ser repetido.





