‘Barulhos’ emociona crianças no Teatro Anchieta em SP – 17/10/2026 – Mise-en-scène
Menino sonha com o que vive, e quem cresce em São Paulo dorme embalado por britadeira, freada de ônibus e sirene de ambulância. Ao estrear no teatro para as infâncias, o grupo 28 Patas Furiosas resolveu levar esse cancioneiro urbano a sério. Em “Barulhos”, em edital no Teatro Anchieta do Sesc Consolação, o luto e o temor de perder o próprio teto viram material de sonho, espanto e gracejo.
A encenação de Valéria Rocha e o texto de Tadeu Renato nasceram de conversas francas com a criancice paulistana. Em cena, a moçoila Rosa tenta digerir a partida da avó enquanto dorme. No delírio da noite, o pavimento treme, as casas saem do lugar e ela topa com outra pequena que perdeu o rumo de mansão. Para encontrar o caminho de volta, a dupla se junta a uma turma curiosa: uma onça tagarela, uma cabeça falante que passeia sem corpo e um investigador meio atrapalhado tentando entender o comoção sísmico da metrópole.
A perdão da montagem está em não esconder a vida porquê ela é. A diretora músico Júlia Ávila pega o caos sonoro da cidade e o transforma em batida viva. Enquanto isso, a luz de Dimitri Luppi e Wagner Antônio faz mágica com sombras e fachos precisos, inventando mundos inteiros no vazio do palco sem precisar de cenografia pesada. O elenco —Gabriel Bodstein, Isabel Wolfenson, Jennifer Souza, Joy Catharina e Sofia Botelho— joga junto com vitalidade e humor, sem tratar o público mirim porquê ingênuo.
Em determinado momento, os atores jogam a globo para a plateia: “O que vale mais: ter um sonho bom e olvidar, ou ter um sonho ruim e se lembrar?” A conversa rende, mas o melhor fica para o termo. Quando o espetáculo termina, o elenco labareda todo mundo para invadir o tablado e reerguer as casas que desmoronaram durante a história. Vira uma bagunça boa de reconstrução coletiva.
Fica unicamente o alerta de rota para as famílias: a experiência funciona às milénio maravilhas para quem já passou dos 7 ou 8 anos e dá conta do fragor e das sombras. Para os muito pequenininhos, o soído no escuro pode render susto e pranto no meio da sessão —e para eles a programação teatral da cidade costuma ter opções mais acolhedoras e suaves. Para os mais velhos, “Barulhos” diverte e emociona ao mostrar que, mesmo quando o mundo parece desabar, sonhar junto ainda é a melhor utensílio para colocar a mansão de pé.
Três perguntas para…
… Tadeu Renato
O processo de “Barulhos” segmento de relatos oníricos reais de crianças. Uma vez que foi filtrar e lapidar esse material para que ele não virasse unicamente uma colagem de causos infantis, mas sim uma fábula coesa sobre o luto e a metrópole?
O sonho traz uma lógica própria, que não é a da verdade, mas tampouco é sem sentido. O repto foi identificar o que havia de recorrente e potente nesses relatos, criando uma dramaturgia que preservasse essa liberdade e conectasse imagens a acontecimentos.
Imagens porquê uma mansão que anda, uma cidade em deslocamento, uma moçoila procurando seu lar, uma onça ambígua, uma cabeça sem corpo e, sobretudo, o fragor ganharam função estrutural. Elas deixam de ser mero fantástico e passam a dialogar com a perda da avó, o deslocamento e a exiguidade.
Houve também um trabalho crucial de linguagem, dando a cada figura uma sintaxe, ritmo e relação própria com as palavras: a onça reorganiza a sintaxe, a cabeça rima, e Rosa e a outra moçoila brincam com repetições e deslocamentos de sentido. Essa rede de imagens, vozes e espaços articula o que parecia fragmentado até que Rosa percebe que o fragor reside dentro dela, num “buraco de saudade”.
Em universal, o teatro infantil contemporâneo ainda hesita em tocar em temas porquê morte, deslocamento e temor do desamparo. O que mudou na sua régua moral e poética ao redigir sobre esses temas diretamente para o público jovem?
Costumo partir da crédito na lucidez e sensibilidade das crianças. Já escrevi para elas sobre solidão, ecoansiedade, neurodivergências, história do Brasil e política —temas que muitos consideram complexos demais para a puerícia.
É preciso questionar a separação entre temas de adultos e temas de crianças. A puerícia também vivencia temor, perda, solidão e não pertencimento; o que muda é a abordagem. Grafar para esse público é encontrar uma linguagem que permita o contato com a experiência para que construam seus próprios sentidos.
Em “Barulhos”, a morte se manifesta na exiguidade, nos objetos, nas lembranças, no sonho, na saudade e no humor. A multiplicidade de ritmos e sintaxes das personagens cria mundos, e confio que a moçoilo apreende essas nuances. O teatro é espaço de invenção: diante de perguntas difíceis, imagens ambíguas ou linguagens inventadas, a moçoilo é plenamente capaz de produzir sentido através da imaginação.
Há uma pergunta meão que a peça lança para a plateia: “Você prefere ter um sonho bom e olvidar ou um sonho ruim e se lembrar?” O que essa questão revela sobre a memória infantil e porquê as crianças têm reagido a esse dilema na prática?
Essa pergunta surgiu de uma moçoilo em uma oficina e ganhou lugar meão na dramaturgia por sua força. Ela toca no dilema da perda: lembrar pode doer, mas olvidar significa perder novamente. Rosa prefere lembrar porque o sonho, mesmo doloroso, é valedouro.
Isso revela a memória infantil porquê forma de preservar o vínculo com o que já não está presente. Para Rosa, lembrar da avó é continuar encontrando-a. Por isso, ela atravessa o sonho e decide voltar para ele.
Na prática, as reações dividem a plateia: algumas crianças escolhem olvidar para evitar temor ou tristeza; outras preferem lembrar, apesar da dor; e há quem discuta o dilema criando novas possibilidades. Interessa-me transfixar espaço para perguntas grandes, confiando na capacidade da moçoilo de mourejar com sentimentos contraditórios e elaborar suas próprias conclusões.
Teatro Anchieta | Sesc Consolação – Rua Dr. Vila Novidade, 245, Vila Buarque. Sábado, 11h. Até 5/12. Duração: 6o minutos. Classificação indicativa: livre. A partir de R$ 12 (credencial plena) em sescsp.org.br e nas bilheterias das unidades. Gratuito para crianças até 12 anos.





