BBB 26, com expulsões, gerou debate sobre o que é

BBB 26, com expulsões, gerou debate sobre o que é diversão – 20/04/2026 – Ilustrada

Celebridades Cultura

Foram jogos vorazes, e chegou a parecer que não sobraria gente sã, mas o Big Brother Brasil 26 resistiu e vai exibir seu capítulo final nesta terça-feira (21).

Com a eliminação de Leandro Rocha, o Boneco, neste domingo, concorrem ao prêmio o dançarino e influenciador Juliano Floss, a estudante Milena Moreira e a jornalista Ana Paula Renault, que retornou ao programa depois de ser expulsa do BBB 16, há dez anos, quando bateu no rosto de um contendor.

Foi uma edição de emoções arrepiantes para o público e para ela, que descobriu estar no final no mesmo domingo em que recebeu a notícia da morte do pai, Geraldo, aos 96 anos. Durante o confinamento, a participante ressaltou a potente conexão que tinha com ele e chegou a litigar com Alberto Cowboy, um dos seus rivais, quando ele mencionou o patriarca.

Segundo Cida, uma das irmãs de Ana Paula, Geraldo seguia vendo a filha no programa do hospital e torcendo para que ela fosse até o termo da disputa.

É irônico, porém, que Ana Paula tenha conseguido sua salvamento justamente em uma edição marcada por um nível de agressividade nunca antes visto no BBB. Foram três expulsões motivadas por ataques físicos —recorde na história do reality—, além de uma desistência em seguida um caso de assédio.

Apesar disso, o Big Brother chegou perto, leste ano, da popularidade que conquistou na pandemia, perdida nas últimas edições. Ainda que tivesse mantido uma audiência subida e um interesse significativo do mercado publicitário incomuns na TV ocasião hoje, o BBB vinha deixando de ser objecto no país inteiro.

A volta do apreço popular se deve em secção à presença de ex-BBBs memoráveis, uma vez que Sarah Andrade, Alberto Cowboy e Babu Santana, num esquema de repescagem que misturou os veteranos a famosos e anônimos. Assim, nasceram grupos tão inusitados quanto queridos, uma vez que o trio formado por Ana Paula, Milena, apelidada de tia Milena, e o tiktoker Juliano.

O BBB 26 termina com saldo positivo para a TV Orbe. O programa foi visto regularmente por 23% dos brasileiros, afirma uma pesquisa do Datafolha feita no início de abril, e a média universal de audiência no Kantar Ibope foi de 17 pontos na Grande São Paulo —melhor que o BBB 25, mas ainda subalterno à edição de 2024, com uma média de 20. Já pensando nas redes sociais, a atual edição teve o maior engajamento desde 2021.

Mas há ressalvas. O Ministério Público Federalista abriu um interrogatório social para investigar se os participantes estariam sendo submetidos a práticas degradantes e relacionadas à tortura, uma vez que vinham dizendo alguns espectadores nas redes sociais.

A decisão veio em seguida uma polêmica com a tradicional prova Quarto Branco, que neste ano premiava os vencedores com uma vaga no jogo. Nove pessoas foram confinadas na já conhecida sala de paredes e soalho brancos, um envolvente sufocante, por cinco dias, e com chegada a pouca comida —biscoito e chuva de coco—, numa disputa tão árdua que fez até uma pessoa desmaiar.

A cena causou mal-estar no público, que chamou a prova de exagerada. Até um telejornal da Espanha criticou a Orbe.

Não à toa, a emissora decidiu depois pegar mais ligeiro nas provas. A última, de resistência —que costuma ser das mais difíceis—, deu orifício para que os participantes fossem ao banheiro e até se alimentassem.

Antes disso, porém, a rotina foi de caos. Na terceira semana, ao ouvir o toque do Big Fone —um telefonema que distribui prêmios e castigos—, o participante Paulo Augusto correu e agarrou um colega, que caiu no soalho. Augusto acabou sendo desclassificado por agressão.

Duas semanas mais tarde, a ex-BBB Sol Vega, que vem da quarta edição do programa, sofreu a mesma punição quando, num rompante de fúria, jogou seu corpo contra o de Ana Paula. Três dias se passaram e o ex-jogador de futebol Edilson Capetinha foi convidado a se retirar em seguida fustigar no rosto de Boneco.

Zero disso causou mais revolta, porém, que o assédio cometido pelo vendedor Pedro Henrique Espindola, que tentou beijar à força a advogada Jordana Morais, eliminada na semana passada. Sabendo que violou o regulamento —e que seria expulso—, Espindola se adiantou e apertou o botão de desistência. Fora da morada, ele foi indiciado pela Polícia Social do Rio de Janeirro por importunação sexual.

O caso só piorou, em março, quando Espindola processou a emissora, pedindo uma indenização de R$ 4,2 milhões por quebra de contrato, dano moral e material. Seus advogados argumentam que ele não pôde se manifestar sobre as acusações e que a produção não deu o devido suporte jurídico, psicológico ou institucional, mesmo que a família tivesse alertado sobre o histórico de problemas mentais dele. Ou por outra, a partir da ação, vazaram detalhes do contrato do programa, e agora é a Orbe quem ofídio dele uma multa de R$ 1,5 milhão.

O prêmio oferecido neste ano pode ajudar a explicar por que os participantes quase perderam as estribeiras. A Orbe vai entregar R$ 5,44 milhões, a maior láurea já dada no reality, o duplo da entregue no ano pretérito. A mudança veio em seguida o público indicar que o prêmio, embora cima, já não causava o mesmo frisson, e que isso vinha deixando o jogo cada vez mais morno.

A lógica é que, com a popularidade que o programa dá aos participantes, fica fácil para eles ganharem muito quantia com publicidade —às vezes até mais que o prêmio. Isso sem relatar que secção dos famosos escalados para participar do programa desde a 20ª edição já são endinheirados, e, portanto, chegavam lá menos compelidos a litigar pela grinalda.

Para fazer os competidores se lembrarem diariamente da bolada que os esperava, a Orbe decorou a sala da morada deste ano com cédulas e pepitas de ouro falsas, na mesa de meio, e, nas paredes, pendurou placas com o sinal de cifrão. O recado era evidente.

Há certa razão nesse raciocínio do público e do meio. O BBB viveu uma crise no ano pretérito ao apresentar uma edição considerada desinteressante, com participantes acusados de terem pouca atitude —as ditas vegetação, para usar o jargão do programa. Isso acabou gerando um problema agora, afirmou à Folha a psicanalista Camila Menezes na ocasião das últimas expulsões.

“Nesse formato de reality, os participantes são convocados a ter reações imediatas. Não têm tempo de maturar o que está acontecendo. Se você não responde a uma ofensa na hora, é visto uma vez que alguém sem opinião”, disse.

Por pouco as mudanças feitas pela Orbe não causaram um efeito indesejado. Depois os problemas do Quarto Branco, o público passou a debater sobre espetacularização do sofrimento, com pessoas privadas de sono ou reclamando de rafa —Ana Paula fez isso mais de uma vez—, sempre postas umas contra as outras, em dinâmicas forçadas ou exageradas, e confinadas num envolvente montado para gerar a sensação de sufocamento.

São sinais de que a maior secção dos fãs de BBB gosta, sim, de um jogo movimentado, mas desde que ele permaneça humanizado, diz a psicóloga Rebecca Garcez. “Nos últimos anos, a gente vem reconhecendo diversas formas de violência e o telespectador passou a ter tolerância social menor à agressão. Existe uma cobrança por secção da audiência de que sejam tomadas medidas cabíveis.”

Dias antes da final, os participantes ganharam recados em vídeos dos seus artistas favoritos. Tia Milena, por exemplo, gritou de felicidade ao ver o cantor Christian Chávez, do grupo mexicano RBD, lhe desejar fortuna. Foi um jeito, talvez, de fazer o BBB 26 terminar mais ligeiro, sem parecer um grande lição do monstro.

Colaborou Anahi Martinho

Folha

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