Mulheres empreendem em bioeconomia e mudam de vida no Sudoeste

Mulheres empreendem em bioeconomia e mudam de vida no Sudoeste do Pará

Brasil

Em Paraupebas, no sudeste do Pará, a força criativa de mulheres tem transformado vidas. Seja com a produção de mel, cerâmica ou de biojoias feitas com sementes, essas mulheres mostram que é verosímil liderar negócios aliando a realização pessoal com a valorização cultural da região, a preservação da floresta e a geração de renda.

Essas mulheres vivem próximas à Floresta Vernáculo de Carajás e à maior mina de ferro a firmamento ingénuo do mundo. E é ali que elas vêm coletando materiais para suas produções e conquistando também sua independência financeira, além de um papel de protagonismo na comunidade.

Uma dessas iniciativas impulsionadas por mulheres é a Associação Filhas do Mel da Amazônia (AFMA). A associação existe há murado de dez anos e trabalha tanto com mel proveniente da apicultura, com as abelhas mais conhecidas, quanto da meliponicultura, que consiste na geração de abelhas sem ferrão, que são resgatadas de zonas de supressão.

O incentivo à geração de abelhas contribui não só para a preservação da natureza uma vez que também oferece alternativas de geração de renda para essas mulheres.

“A gente só sabia passar e cozinhar”, contou Ana Alice de Queiroz, uma das fundadoras da associação. “Mas, quando colocaram essa teoria nas nossas cabeças, de que a gente podia fazer outras coisas fora de morada, abraçamos. Isso foi nos transformando. Até saímos para estudar”.

 


Paraupebas - Pará 19/04/2026 - Ana Alice de Queiroz, uma das fundadoras da Associação Filhas do Mel da Amazônia (AFMA). Foto: Washington Alves/ Ligth Press
Paraupebas - Pará 19/04/2026 - Ana Alice de Queiroz, uma das fundadoras da Associação Filhas do Mel da Amazônia (AFMA). Foto: Washington Alves/ Ligth Press

Ana Alice de Queiroz, uma das fundadoras da Associação Filhas do Mel da Amazônia (AFMA). Foto: Washington Alves/ Light Press/Divulgação

A fundadora conta que voltou a estudar com 51 anos e que muitas dessas mulheres eram analfabetas.

“Saímos de dentro da cozinha, de dentro daquela vida que era só a mesma, e hoje estamos empreendendo e, para nós, isso é muito gratificante”, ressaltou.

Agora, diz Ana Alice, elas já não têm mais tempo para cuidar dos negócios domésticos. “Mudou tudinho. A gente não tem mais muito tempo para cozinhar, não. Nem para organizar a morada”.

A AFMA é composta atualmente por 23 famílias, reunindo tanto mulheres quanto homens. À semelhança das colmeias, as fêmeas cuidam dos principais negócios desse trabalho, uma vez que cuidar das finanças e de envasar, rotular e colocar o preço no resultado.

“Os homens vão para o apiário, mas quem administra são as mulheres”, disse Ana Alice, que já foi presidente da associação. “A gente vai organizando todo mundo e fazendo o que é melhor para produzir e para aumentar essa produção, assim uma vez que as abelhas fazem”, destacou.

 


Paraupebas - Pará -  19/04/2026 - Criação de abelhas da Associação Filhas do Mel da Amazônia (AFMA). Foto: Washington Alves/ Ligth Press
Paraupebas - Pará -  19/04/2026 - Criação de abelhas da Associação Filhas do Mel da Amazônia (AFMA). Foto: Washington Alves/ Ligth Press

Geração de abelhas da Associação Filhas do Mel da Amazônia (AFMA). Foto: Washington Alves/ Light Press/Divulgação

Mulheres empreendedoras

Só no ano pretérito, mais de 2 milhões de pequenos negócios abertos no Brasil foram liderados por mulheres. Os dados são do Serviço Brasílio de Escora às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae), com base em dados da Receita Federalista.

Segundo esse levantamento, quatro entre cada dez pequenos negócios abertos no país em 2025 foram criados por mulheres, superando em mais de 320 milénio o verificado no ano anterior.

Em entrevista à Sucursal Brasil, a gerente da Unidade de Sustentabilidade e Inovação do Sebrae no Pará, Renata Batista,  destacou que o número de mulheres donas de negócios passou de 8,2 milhões, em 2015, para 10,4 milhões, em 2025 ─ um incremento de 27% em dez anos, supra do progressão observado entre os homens.

“Isso acontece por uma combinação de fatores: maior escolarização feminina, a procura por autonomia financeira, a premência de geração de renda e a ampliação do aproximação à formalização, mormente via MEI [microempreendedor individual]. Ao mesmo tempo, o empreendedorismo tem sido uma porta de ingressão para as mulheres transformarem o conhecimento, o talento e o vínculo com o território e o negócio”, acrescentou.

Apesar desse incremento, as mulheres ainda não representam nem metade dos novos pequenos empreendimentos abertos no país. No estado do Pará, por exemplo, exclusivamente 37,6% das pequenas empresas criadas em 2025 eram lideradas por mulheres.

Mesmo com dificuldades, essas mulheres vêm buscando terebrar espaços nesse mercado, contando com espeque do Poder Público ou de empresas privadas.

Diretora de soluções baseadas na natureza da mineradora Vale, Patricia Daros, afirma que os negócios tocados por mulheres extrapolam a questão da geração de renda, levantando também a questão de empoderamento feminino que começa a ser mais percebido. Na mineradora, 30% dos 50 projetos de bioeconomia apoiados recentemente são liderados por mulheres.

“A gente começou a perceber, desde quando a gente começou esse trabalho [de fomento], uma mudança do ponto de vista desse perfil de quem está avante desses negócios, e as mulheres começaram, de vestuário, a manar um pouco mais ultimamente, principalmente em negócios relacionados à bioeconomia”, destacou.

Preciosidades da Amazônia

Emancipado em 10 de maio de 1988, em seguida plebiscito que o desmembrou de Marabá, o município de Parauapebas tem nome de origem tupi, que significa “rio de águas rasas”. Sua formação populacional é resultado de intenso fluxo migratório, impulsionado pela invenção e exploração de minérios na Serra dos Carajás, a partir da dezena de 1960.

Hoje, a mineração responde por boa secção da economia, com destaque para o minério de ferro, mas também cobre, manganês, níquel e ouro.

Apesar da mineração, têm desenvolvido na cidade projetos de bioeconomia, uma vez que o que transforma mais de 100 tipos de sementes em biojoias que misturam arte e sustentabilidade.

Secretária da Associação Preciosidades da Amazônia e futura presidente da Cooperativa de Trabalho Artesanal da Amazônia, Luciene Padilha, contou que a associação impacta não só a vida financeira, mas também a secção social, econômica e emocional das 12 mulheres participantes.

“Quando fizemos o curso, éramos mulheres em situação de vulnerabilidade, mulheres que não saíam de morada porque tinham pânico. Seus provedores diziam: ‘você não sabe, você não pode’. Hoje elas já se posicionam, já se sentem mais fortalecidas e trabalham com empreendedorismo feminino”, comemorou.

A Associação Preciosidades da Amazônia tem espeque da prefeitura, da Vale, do Sebrae e da Universidade Federalista Rústico da Amazônia (Ufra). Tesoureira do grupo, Sandra Brasil explicou que é da natureza que elas extraem as sementes e também sua renda.

“Nós trabalhamos com materiais vegetais e tudo o que a natureza nos permite usar. Nós estamos com um tesouro na mão. Não é só ouro e prata que são tesouros. Nós aprendemos a reconhecer a natureza uma vez que o verdadeiro tesouro da humanidade”, destacou.

 


Paraupebas - Pará 19/04/2026 -  Biojoias produzidas pela Associação Preciosidades da Amazônia. Foto: Washington Alves/ Ligth Press
Paraupebas - Pará 19/04/2026 -  Biojoias produzidas pela Associação Preciosidades da Amazônia. Foto: Washington Alves/ Ligth Press

Biojoias produzidas pela Associação Preciosidades da Amazônia. Foto: Washington Alves/ Light Press/Divulgação

Em seguida terem aprendido a confeccionar suas peças, essas artesãs agora têm sido mentoras de novas gerações de empreendedoras. “Quando nós saímos da sala de lição, já saímos com conhecimento suficiente para repassar [para outras pessoas]. Hoje em dia, todas nós vamos para a sala de lição. Já demos até oficinas”, ressaltou.

As biojoias produzidas por essas artesãs têm fortalecido a economia sítio e contribuído para o sustento de muitas famílias. Mais do que racontar histórias, essas peças têm fortalecido laços e também ajudado a preservar a Amazônia.

Para Renata Batista, projetos desse tipo são estratégicos porque mostram, na prática, que é verosímil gerar renda com a floresta preservada, agregando valor à biodiversidade, ao conhecimento sítio e a cultura brasileira.

“No caso das biojoias, ainda há um componente muito possante de identidade e diferenciação. O Sebrae aponta que esse mercado vem ganhando espaço porque une materiais naturais, processo artesanal e valorização de histórias, crenças e tradições do país”.

Mulheres de barro

Já o grupo Mulheres de Barro, formado por ceramistas de Parauapebas, surgiu durante a implantação do projeto Salobo, maior projeto de exploração de minério de cobre do país, tocado pela Vale no interno da Floresta Vernáculo do Tapirapé-Aquiri (Flonata), em Marabá.

Durante o projeto Salobo, foram encontrados artefatos arqueológicos presentes na floresta e que datam de 6 milénio anos detrás. E foi a partir dos trabalhos de prospecção e de salvamento arqueológico desses artefatos, conduzidos pelo Museu Paraense Emílio Goeldi e pela Vale, que o grupo se formou. Em oficinas de instrução patrimonial, essas mulheres conheceram a história sítio e tiveram aproximação a ensinamentos sobre a cerâmica, o que permitiu que criassem peças inspiradas nesse pretérito.

Nessas oficinas, elas aprenderam que a cerâmica produzida pelos povos que habitavam as proximidades do Rio Itacaiúnas e seus afluentes eram utilizadas para rituais ou uma vez que objetos de uso cotidiano. Desde logo, a partir dessa memória, essas artesãs começaram a produzir novas histórias e a moldar peças contemporâneas com referências arqueológicas.

As formas e grafismos dessas novas peças são inspiradas nos vestígios recuperados nesses sítios arqueológicos da Serra dos Carajás. Já a base da pintura são pigmentos provenientes de minerais da região, uma vez que minério de ferro, manganês e argilas coloridas.

 


Paraupebas - Pará 19/04/2026 - Cerâmicas produzidas pelo grupo Mulheres de Barro. Foto: Washington Alves/ Ligth Press
Paraupebas - Pará 19/04/2026 - Cerâmicas produzidas pelo grupo Mulheres de Barro. Foto: Washington Alves/ Ligth Press

Cerâmicas produzidas pelo grupo Mulheres de Barro. Foto: Washington Alves/ Light Press/Divulgação

Presidente do Núcleo Mulheres de Barro, Sandra dos Santos Silva contou que, depois de 2002, o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Vernáculo (Iphan) incluiu no processo de licenciamento das pesquisas arqueológicas uma obrigação de fazer instrução patrimonial para informar a comunidade do entorno sobre os resultados.

“E foi aí que eu digo que o universo conspirou a nosso obséquio, porque a gente estava buscando isso: participamos dessa formação durante seis anos. A gente não sabia fazer cerâmica, aprendemos do zero”, contou ela, que lidera uma cooperativa formada por 18 mulheres e quatro homens, que não só fabricam peças uma vez que também ministram cursos e oficinas.

Agora, essas mulheres ajudam a preservar a memória avito da região e também a floresta onde esses vestígios de cerâmicas foram encontrados. Para isso, elas deixam de coletar a greda diretamente da natureza, o que seria um processo degradante, para utilizar sobras de construções para a produção de suas peças.

“Com essa teoria de sustentabilidade, observamos que sempre há sobra [de argila] em todas as construções na cidade. Era uma quantidade imensa de greda descartada. A gente usa esse descarte das obras para fazer um processo de peneiramento da greda: a gente dilui, tamis, bate numa betoneira, dilui muito muito, coloca para decantar e aí vai tirando a chuva até ela permanecer na consistência de um açaí do grosso. Daí, coloca para desidratar até chegar ao ponto de modelagem”, explicou Sandra.

Por meio desses trabalhos, o Núcleo Mulheres de Barro vem mudando a vida de várias mulheres de Parauapebas. E esse conhecimento avito, que chegou às fundadoras do Mulheres de Barro, agora começa também a ser repassado para as novas gerações.

“Eu nunca tinha mexido com barro. Mas agora me sinto muito feliz”, contou Maria do Socorro Assunção Teixeira, 62 anos, uma das fundadoras do grupo. “Agora eu me vejo uma vez que multiplicadora de conhecimento. Nós passamos [esse conhecimento] para outras pessoas”, ressaltou.

 


Paraupebas - Pará19/04/2026 - Maria do Socorro Assunção Teixeira, fundadora do Centro Mulheres de Barro. Foto: Washington Alves/ Ligth Press
Paraupebas - Pará19/04/2026 - Maria do Socorro Assunção Teixeira, fundadora do Centro Mulheres de Barro. Foto: Washington Alves/ Ligth Press

Maria do Socorro Assunção Teixeira, fundadora do Núcleo Mulheres de Barro. Foto: Washington Alves/ Light Press/Divulgação

Bioeconomia

Essas pequenas iniciativas lideradas por mulheres no Pará são exemplos de projetos de bioeconomia, um padrão econômico fundamentado no uso sustentável de recursos naturais.

“Quando uma mulher lidera um negócio de economia no território amazônico, ela não está exclusivamente vendendo um resultado, mas ela está ajudando a erigir uma economia mais enraizada no território, com mais identidade, mais valor associado e mais capacidade de repartir renda localmente”, destacou a gerente do Sebrae no Pará.

“Negócios uma vez que biojoias, artesanato de base sustentável, cosméticos naturais e outros produtos da sociobiodiversidade mostram que a Amazônia pode ser também o espaço de inovação econômica baseada em ativos da floresta e não só em atividade de inferior valor sítio”, acrescentou.

Além desses projetos serem sustentáveis, eles também fortalecem as tradições locais e as cadeias produtivas. Na Amazônia, os resultados positivos dessa forma sustentável de negócio têm atraído, cada vez mais, investimentos de governos e da iniciativa privada.

Todos os projetos citados nesta material, por exemplo, receberam espeque do Fundo Vale, associação sem fins lucrativos mantida pela mineradora e que procura açodar negócios de impacto que valorizam a floresta em pé e o uso sustentável da terreno.

“Quando a Vale lançou o Fundo Vale, nós olhamos numa perspectiva de pensar essa economia da floresta numa lógica mais justa e de desenvolvimento territorial. Já aportamos mais de R$ 430 milhões em mais de 146 iniciativas na região”, destacou Patricia Daros.

A cada ano, essa bioeconomia da sociobiodiversidade tem movimentado R$ 13,5 bilhões no estado do Pará, impulsionada por cadeias produtivas ligadas à floresta, aos rios e à cultura familiar. No entanto, esses negócios ligados à biodiversidade, principalmente os tocados por mulheres, ainda enfrentam algumas dificuldades para se manterem em pé.

“Há desafios que são comuns a qualquer empreendedor, uma vez que aproximação ao mercado, gestão financeira, capital de giro, planejamento e competitividade. Mas, no caso das mulheres, existem ainda barreiras adicionais. O Sebrae destaca que, logo que elas abrem os negócios em proporções semelhantes às dos homens, mesmo elas sendo em média mais escolarizadas, esses empreendimentos tendem a faturar menos”, disse Renata Batista.

Outrossim, ressaltou ela, as mulheres tendem a ter mais dificuldade de aproximação ao crédito e enfrentam sobrecarga no trabalho, pois tendem a reunir outras atividades relacionadas a negócios domésticos e ao desvelo de pessoas, o que afeta o tempo disponível para qualificação, gestão, capacitação e expansão do negócio.

Por isso, o Sebrae destaca que, para que um negócio relacionado à sociobiodiversidade possa dar bons frutos, é necessário não só produzir muito, mas também estruturar muito a prisão, a comercialização do resultado e o financiamento para o projeto ─ que deve ser comportável com a verdade no campo.

Para fortalecer esses projetos de bioeconomia, o governo federalista apresentou recentemente o Projecto Vernáculo de Desenvolvimento da Bioeconomia (PNDBio). Um dos eixos desse projecto é voltado para projetos relacionados à sociobioeconomia e os ativos ambientais.

*A repórter viajou a invitação da Vale.

Fonte EBC

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *