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Benedito Ruy Barbosa viu lado shakespeariano do Brasil 07/07/2026
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Benedito Ruy Barbosa viu lado shakespeariano do Brasil – 07/07/2026 – Ilustrada

Nos capítulos finais de “Velho Chico”, última romance assinada por Benedito Ruy Barbosa na TV Mundo, o coronel Saruê, personagem de Antonio Fagundes, ao perder o fruto, Martim, vivido por Lee Taylor, arranca a peruca e atira-se nas águas do rio São Francisco numa tentativa vã de resgatá-lo.

Ao trespassar das águas, com os cabelos brancos, vestido em farrapos, andando pelas dunas, em meio às turbinas eólicas, vê-se diante de seu duplo com a mesma peruca acaju e o terno matizado do qual ele havia se despido. Tenta, sem sucesso, enfrentá-lo, derrotá-lo, numa guerra trágica e patética.

A cena que remete a um dos momentos mais emblemáticos da dramaturgia universal —aquela em que rei Lear, já despido de sua realeza, caminha nu sobre a tempestade, reencontrando sua humanidade— sintetiza também a obra de Benedito Ruy Barbosa, morto nesta terça-feira. Um responsável que narrou, no folhetim televisivo, a formação do Brasil moderno.

Essa trajetória começa na dezena de 1970, com novelas rurais porquê “Meu Pedacinho de Soalho”, exibida entre 1971 e 1972, “À Sombra dos Laranjais”, de 1977, e “Cabocla”, de 1979. Nelas, vemos em formação elementos que seriam maturados ao longo das décadas seguintes.

As disputas políticas locais entre forças que representam a modernidade e o detido —um pouco muito presente no Brasil da modernização autoritária da ditadura— e os amores impossíveis entre os herdeiros desses clãs políticos, o elemento shakesperiano, claramente inspirado em “Romeu e Julieta”, que seria fartamente explorado em sua dramaturgia.

Na dezena seguinte, a imigração entra porquê elemento na sua narrativa. Em 1981, o responsável faz sua primeira grande saga, “Os Imigrantes”. A romance, exibida pela TV Bandeirantes, conta a história de três Antonios —um italiano, um português e um espanhol — que vêm tentar a vida no novo mundo. São dessa temporada também “Vida Novidade”, de 1988, que conta a vida dos imigrantes no bairro do Varíola em 1945.

A romance foi, naquele momento, a última trama de Benedito na Mundo. Depois ter a sinopse de “Pantanal” recusada, ele mudou para a TV Manchete, dando início a uma novidade temporada, com grandes sagas de migrantes e imigrantes no Brasil profundo.

Em “Pantanal”, o responsável acompanha a família de Zé Leôncio, personagem de Cláudio Marzo, que chega ao Mato Grosso do Sul para produzir mancheia. Na romance, o responsável faz um pouco atípico na dramaturgia e mesmo na literatura brasileira —o choque de civilizações.

Num Brasil que havia se industrializado e urbanizado, tornando-se uma das maiores —e mais desiguais— economias do mundo, convivem e chocam-se a natureza do Pantanal e sua cultura, representada pelo Velho do Rio —Marzo— e Juma Marruá, personagem de Cristiana Oliveira, e o Brasil urbano e moderno, de Jove, vivido por Marcos Winter, e Madeleine, papel de Ítala Nandi. A romance ganhou um remake de grande repercussão em 2022.

O sucesso de “Pantanal”, que incomodou a TV Mundo em 1990, o levou de volta à emissora. Em 1993, ele estreou no horário superior com “Renascer”, um dos maiores sucessos de sua curso.

Na zona do cacau, na Bahia, José Inocêncio, personagem vivido por Leonardo Vieira, na temporada jovem, e depois por Antonio Fagundes, finca seu facão aos pés de um jequitibá-rei, dizendo que nunca morrerá “nem de morte morrida”, “nem de morte matada”.

Depois sobreviver a uma emboscada, torna-se uma figura mítica, mas perde, no parto do quarto fruto, João Pedro —personagem de Marcos Palmeira—, a sua dulcinéia Maria Santa, razão pela qual passa a rejeitar o rapaz. Anos depois, a chegada de Mariana, personagem de Adriana Esteves, coloca pai e fruto em conflito pelo paixão da mesma mulher, que deseja vingar o assassínio do avô, atribuído a José Inocêncio.

Para além dos elementos épicos, temos cá novos elementos shakespearianos que remetem à Guerra das Rosas, explorada fartamente por Shakespeare em seus dramas históricos, porquê “Ricardo 3º”, e uma trama clássica da literatura universal —o pacto com o diabo, sintetizado no demônio que José Inocêncio carrega na garrafa.

Em “Renascer”, o responsável dá mais espaço a temas urbanos contemporâneos, porquê a questão da intersexualidade e das crianças moradoras de ruas. É o encontro do Brasil rústico com o Brasil urbano que veremos naquela que é considerada sua melhor romance, “O Rei do Manada”.

Exibida em 1996, a trama conta a saga de duas famílias de imigrantes italianos, os Berdinazzi e os Mezenga, em dois momentos da história brasileira —os anos 1940, da ingressão do Brasil na Segunda Guerra Mundial, e os anos 1990.

Na primeira temporada, acompanhamos o paixão proibido de Giovanna Berdinazzi, vivida por Letícia Spiller, e Enrico Mezenga, vivido por Leonardo Brício, entre as plantações de moca. O motivo do ódio entre as duas famílias? O típico das famílias italianas: a marcação da muro. Quem descende de italianos, sabe.

O par foge e Giovanna dará à luz a Bruno Mezenga, vivido por Antonio Fagundes, que se apaixona pela boia-fria Luana, papel de Patricia Pillar, sem saber que ela também é uma Berdinazzi, sobrinha de seu tio, Jeremias, numa grandiosa versão de Raul Cortez.

Em “O Rei do Manada”, o responsável trouxe, pela primeira vez, a questão dos sem-terra para a TV, discutiu depravação política, violência contra a mulher e apresentou ao público o moderno agronegócio brasílio.

A história, porém, se encerra com um revinda às fazendas dos Berdinazzi e dos Mezenga e o rei do mancheia voltando às plantações de moca.

Seu último grande sucesso, “Terreno Nostra”, exibida em 1999, também volta aos cafezais. Conta a história de paixão de Giuliana, vivida por Ana Paula Arósio, e Matteo, interpretado por Thiago Lacerda, dois imigrantes italianos que se apaixonaram no navio que os traria para trabalhar nas propriedades da fidalguia paulista.

A história se passava numa São Paulo que começava a se urbanizar e a se fazer grande, e que seria narrada a partir de logo, porquê o Brasil profundo, em seus conflitos políticos, lendas, amores, desamores, ódios, paixões e toda humanidade e sensibilidade por Benedito Ruy Barbosa.

Folha

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