A transformação da Ladeira da Serra, que liga as cidades Subida e Baixa em Salvador (BA), do pretérito boêmio até a requisito atual de desamparo, foi o ponto de partida para que a escritora Bethânia Pires Amaro buscasse a história de mulheres que tiveram papel medial na região, entre as décadas de 1950 e 1970. Elas eram profissionais do sexo, quando o lugar era reduto da boemia e da vida noturna, e acabaram invisibilizadas na memória solene.
“Essas mulheres tinham sido o coração daquela região, daquele meio histórico, e não havia zero na voz delas, não havia zero mesmo. Foi uma invisibilização da existência dessas mulheres”, disse a escritora.
Em Ressalga, seu romance de estreia, Bethânia retoma os tempos de efervescência da região, que reunia artistas, intelectuais e políticos, e constrói uma narrativa inspirada na trajetória dessas mulheres. A obra é permeada por acontecimentos históricos do país, porquê a morte de Getúlio Vargas, e figuras reais, porquê o médium Zé Arigó.
“A teoria é que o leitor se sentisse transportado para Salvador e para o Brasil dos anos 50, 60, 70, e que a história [do livro] se mostrasse a ele sob esse paisagem, uma história verossímil, que de roupa era muito semelhante ao que estava acontecendo no país naquele momento”, explicou a escritora.
Em entrevista à Filial Brasil, Bethânia falou sobre a pesquisa que deu origem ao romance, o objetivo de restituir protagonismo às mulheres invisibilizadas pelos registros históricos e a valimento de apresentar a obra durante a Sarau Literária Internacional do Pelourinho (Flipelô), que será realizada de hoje (5) a domingo (9) no Meio Histórico de Salvador, cidade onde a história acontece. Durante o evento, ela participa de bate-papo na Mansão Motiva e na Mansão Odisseu, no próximo sábado (7).
A escritora teve seu primeiro livro, Ninho, vencedor dos prêmios Jabuti, APCA e Sesc de Literatura, todos na categoria Contos.
Confira os principais trechos da entrevista.
Filial Brasil: porquê surgiu a teoria do livro Ressalga?
Bethânia: eu cresci em Salvador e, morando na cidade, eu sabia que a Ladeira da Serra havia sido um dos centros da grande boemia na cidade, dos anos 1950 até os anos 1970, principalmente. Isso sobreviveu muito no imaginário da cidade, das pessoas que circulavam por ali. Atualmente a Ladeira da Serra está completamente desmoronada, fantasmagórica, uma rua realmente bastante arruinada, no sentido mais literal verosímil, os prédios estão em ruínas. E eu queria entender porquê tínhamos chegado de um lugar até o outro.
Filial Brasil: você decidiu se aprofundar em algumas personagens. Quem são elas?
Bethânia: decidi racontar essa história sob o ponto de vista das mulheres [profissionais do sexo] que trabalhavam ali. Durante a pesquisa, descobri que Jorge Estremecido ia ortografar um livro sobre o cotidiano das mulheres que trabalhavam na Ladeira da Serra. Ele havia chegado a encomendar uma mostra de fotografias de Flávio Damm para um projeto de livro que seria intitulado Mulher Senhora.
Esse livro nunca foi escrito em razão da repressão que se seguiu ao Ato Institucional número 5 (AI-5), durante a ditadura militar. As imagens ficaram engavetadas por mais de 50 anos, até que houve uma mostra delas em Salvador, em 2018. Foi a primeira vez que essas fotos saíram da sombra. Tudo isso só me mostrou com mais segurança que havia uma história ali a ser contada.
Filial Brasil: foi difícil encontrar informações sobre essas mulheres?
Bethânia: quando fiz a pesquisa histórica, encontrei muito material, mas sempre sob uma lente masculina. Havia muitas biografias de grandes homens. A Reunião Legislativa da Bahia tem um trabalho de preservação da memória de grandes personalidades do estado. Ali há um conjunto de biografias, livros de entrevistas, quase na totalidade com homens.
Foi por meio das lembranças desses homens e das biografias deles, ali pelos cantos dessas biografias e entrevistas, que fui reconstruindo o mosaico da vida dessas mulheres, porque elas não constaram da historiografia solene, elas foram realmente apagadas em termos de registro histórico. Só sobreviveram na memória e na voz desses homens que frequentavam aqueles espaços e se lembravam delas.
Isso foi alguma coisa que me assombrou muito quando comecei a fazer essa pesquisa: essas mulheres [profissionais do sexo] tinham sido o coração daquela região, daquele meio histórico, e não havia zero na voz delas, não havia zero mesmo. Foi uma invisibilização da existência dessas mulheres.
Filial Brasil: porquê você trabalhou a história delas na obra?
Bethânia: tradicionalmente, a mulher ficava muito restrita, inclusive na literatura, a [determinados] papéis. Portanto, ela era a esposa, a amante, a puta. Abordagens que normalmente eram bastante reducionistas. Quando a gente recupera o protagonismo da mulher porquê aquela que vai racontar a sua própria história, devolve a voz a essas mulheres e as coloca no meio de suas próprias narrativas. Acredito que isso permite um olhar muito mais sensível, não estereotipado, e que não reduza essas mulheres às violências que elas sofreram.
Isso também foi uma grande preocupação no meu trabalho: comemorar a existência delas e não reduzi-las aos abusos que aconteciam ali, porquê de roupa aconteciam, e que elas pudessem desabrochar com toda a sua personalidade, tanto para o muito quanto para o mal. São personagens densas, complexas, e o leitor é disposto diante de situações desconfortáveis e de escolhas muito difíceis que essas mulheres precisavam fazer.
Filial Brasil: porquê transformar tudo isso em ficção?
Bethânia: eu queria resgatar essa história, mas, ao mesmo tempo, fazer um trabalho ficcional. O livro é metaficcional. Conta a história de três gerações de mulheres na Bahia. Em privativo, de Perdão, que vai se tornar a maior cafetina da cidade. Essa personagem foi muito inspirada na história de prostitutas que existiram, trabalharam ali e tiveram que desenvolver muitas estratégias de existência para sobreviver à violência do seu tempo.
Vou sobresair duas: Maria Pires, que ficou muito conhecida na capital à era por oferecer 50% de desconto para estudantes, e Maria da Vovó, que comandou um cabaré que reunia até 60 [mulheres] nas noites mais cheias e revolucionou o mercado sexual naquela era. Ela ficou muito conhecida, inclusive por enfrentar continuamente a violência policial que era dirigida contra essas mulheres.
Filial Brasil: o contexto histórico da era foi mantido?
Bethânia: há uma série de personalidades que o leitor certamente irá reconhecer, passando pelo suicídio de Getúlio Vargas, pela subida ao poder de Juscelino Kubitschek. Até outras não tão conhecidas, porquê o médium Zé Arigó, por exemplo, que realizava cirurgias espirituais no Brasil naquele período, e o representante de costumes da capital, Almir Araújo, que está mencionado no livro.
A teoria é que o leitor se sinta transportado para Salvador e para o Brasil dos anos 50, 60, 70 e que a história se mostre a ele sob esse paisagem, uma história verossímil, que de roupa é muito semelhante ao que estava acontecendo no país naquele momento. O trabalho é ficcional, porém com esse grande substrato histórico.
Filial Brasil: em breve, você participará da Flipelô. Porquê você se sente ao apresentar o livro justamente em Salvador?
Bethânia: estou muito ansiosa por essa participação na Flipelô, um festival lindíssimo que já acompanho há vários anos. Em privativo, porque Ressalga se passa, em grande secção, no meio histórico de Salvador, exatamente onde ocorre a Flipelô. É literalmente o território de onde a história surgiu.
“A história da Bahia, que é muito celebrada na Flipelô, e a literatura de grandes autores baianos porquê Jorge Estremecido e João Ubaldo Ribeiro, para reportar exclusivamente dois, serviram de grande referência para o meu trabalho. São autores que, quando eu era moço, me mostraram que as histórias ali ao meu volta, do lugar onde eu vivia, também mereciam ser contadas, numa era em que a gente chegava às livrarias e só tinha livro estrangeiro, praticamente. Poder apresentar esse livro na Bahia, no meio histórico, é extremamente privativo”.





