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Como cinéfilos e gamers resistem ao fim da mídia física
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Como cinéfilos e gamers resistem ao fim da mídia física – 05/08/2026 – Ilustrada

“Hacks” quebrou um novo recorde ao virar a série de comédia mais indicada ao Emmy, mas seus criadores sonham com alguma coisa macróbio. Em maio, disseram querer todas as temporadas feitas pela HBO preservadas em DVDs. É que Deborah Vance, a protagonista, pode não ser eterna no streaming, seja por custos de direitos autorais, seja por incertezas de um mercado definido por fusões entre estúdios.

Esse libido se soma à tentativa de cinéfilos, gamers e aficionados por música de virar o término da mídia física. Os resistentes à extinção de DVDs, CDs e vinis, que parecia irreversível nos últimos vinte anos, se multiplicam junto aos gargalos do streaming e da pirataria.

A HBO Max, por exemplo, hoje um braço da Warner, pode se tornar da Paramount, se a compra anunciada em fevereiro se concretizar. As plataformas das empresas provavelmente virariam uma só, e várias obras seriam descartadas, já que há um limite de dados que esses serviços conseguem processar. Isso ocorreu em 2022 e 2023, quando a Warner e a Discovery formalizaram sua união e dezenas de seriados, porquê os elogiados “Westworld” e “Trem Infinito”, deixaram a HBO Max subitamente.

Nesses casos, títulos novos enfrentam o mesmo direcção de clássicos porquê “Rebecca”, lançado por Alfred Hitchcock em 1940, e “Oito e Meio”, de Federico Fellini, hoje fora dos catálogos digitais brasileiros. Embora a rotatividade entre streamings seja geral, o portal Reelgood, que mapeia a disponibilidade do dedo de filmes e séries, mostra que 51% dos filmes que deixaram a Netflix desde 2021 não entraram em outras plataformas.

Esse gargalo, somado a assinaturas progressivamente mais caras, que limitam o compartilhamento de senhas e a qualidade de imagem, também leva o público a buscar alternativas físicas. Segundo a Do dedo Entertainment Group (DEG), as vendas de mídia física diminuíram só 9% no ano pretérito, em confrontação à queda de 20% em 2023 e 2024. A associação monitora o consumo doméstico de obras audiovisuais.

“Para o grande público, o streaming é mais conseguível. Mas há filmes que você só acha em mídia física. O streaming não preserva obras antigas, porque é preciso remunerar por seus direitos. A mídia física você paga uma vez e é sua”, diz William Busa, fundador do Loja da 7ª Arte, feira de compra e venda de VHS, DVDs e Blu-Rays —que armazenam vídeos em maior definição—, que ocorre no Cine Belas Artes, em São Paulo.

Busa conta que o evento surgiu da urgência de preencher um vácuo deixado pelo fechamento de grandes livrarias, porquê a Cultura e unidades da Saraiva. Alem disso, todos os grandes estúdios deixaram de imprimir filmes em mídia física no Brasil na última dezena —a última a zarpar foi a Sony, em 2023.

Para Cavi Borges, proprietário da Cavídeo, videolocadora e produtora independente do Rio de Janeiro, houve uma obsolescência programada da mídia física. “É cada vez mais difícil comprar filmes, e não há mais porquê comprar aparelhos de DVDs. Foi quase uma imposição do mercado para dar início ao streaming”, afirma.

O interesse de jovens tem ajudado a manter esses espaços e distribuidoras de títulos em formato físico. Nos Estados Unidos, locadoras porquê a Vidiots registraram aumento em aluguéis de filmes e passaram a promover sessões especiais para esse público.

Há ainda a Criterion Collection, que licencia clássicos e filmes alternativos, os restaura em 4K e os relança em edições especiais. A empresa fez reputação no nicho cinéfilo americano e europeu e, embora não divulgue números, relatou um propagação anual nas vendas.

No Brasil, a Versátil Home Video é a maior sobrevivente entre vendedoras de DVDs. Criada em 1999, a empresa lança muro de 50 títulos por mês, entre coleções de diretores, países e gêneros, mas viu suas tiragens diminuírem para entre 300 e 1.000 unidades por resultado. Nos anos 2000, lançamentos badalados vendiam até 10 milénio cópias.

Curador da Versátil desde 2002, o pesquisador Fernando Britto afirma que as edições atuais são melhores, seja pela restauração de obras antigas, seja por materiais extras —que vão de livretos sobre movimentos cinematográficos até entrevistas especiais, o que atrai colecionadores.

Doutor em literatura inglesa, ele diz que o mundo virtual ainda não tomou o mercado literário, já que livros físicos ainda superam ebooks. Recentemente, um estudo da Câmara Brasileira do Livro mostrou que 56% dos brasileiros compraram só livros físicos em 2024, enquanto a compra exclusiva de livros digitais se restringiu a 14%.

Presidente da Do dedo Entertainment Group, Amy Jo Smith disse ao Los Angeles Times que o salto é muito significativo entre Blu-rays, já que espectadores buscam a melhor experiência em suas casas —alguma coisa que os streamings podem não satisfazer, não só pela qualidade de transmissão, mas também pela falta de curadoria.

“Fico mais tempo tentando escolher um filme do que efetivamente vendo”, diz Borges sobre a dificuldade de escolher títulos diante de um cardápio imenso. “Essas plataformas têm uma curadoria focada no retorno financeiro, com mais produções próprias do que licenciadas. Destaques da Netflix são os próprios filmes da Netflix.”

Quem concorda com essa visão é o fundador da Mubi, Efe Cakarel. Criado em 2007, o streaming partiu de uma estratégia de rotatividade que envolvia 30 obras —cada longa permanecia um mês, e, todos os dias, um deles deixava o serviço para dar lugar a um novo. Hoje, o serviço oferece um catálogo maior e menos rotativo e também produz filmes independentes.

Outro streaming pautado pela curadoria humana é a Filmicca. Há cinco anos no mercado, a plataforma brasileira tem porquê um dos focos a exibição de obras feitas por mulheres. Lembra o Another Screen, portal gratuito que reúne filmes e entrevistas em vestígios online.

“Deixamos os filmes disponíveis pelo maior tempo provável, comumente renovando direitos autorais para que possam voltar”, diz Gracielly Pinto, uma das fundadoras da Filmicca, que ainda organiza estreias em cinemas e, mais recentemente, DVDs especiais. “Dependemos da aprovação de produtores, agentes de vendas e da própria disponibilidade no Brasil. A instabilidade do filme sumir também é nossa.”

Procuradas para falar sobre seus critérios para licenciar obras, a Netflix e o Prime Video não responderam à reportagem.

Antes dos algoritmos, escolher um filme nas locadoras envolvia uma conversa com funcionários ou outros clientes em procura de dicas. É esse tipo de saudosismo que ajuda as poucas videolocadoras ainda abertas em São Paulo, porquê a Video Connect, no Copan desde 1985, a Eject, a Clube Charada e a Horus.

Marchar por corredores e virar caixinhas para ler sinopses é uma experiência nostálgica. “Quem conviveu com as locadoras não esquece nunca. De qualquer jeito marca a pessoa”, comenta Busa. “Colecionadores tentam replicar essa sensação em lar. É uma coisa formosa, você chega na lar de alguém e vê várias lombadas, igual livro.”

Fora a cinefilia, outra comunidade versada a levante prazer é a dos games. No TikTok, influenciadores e vendedores de jogos, porquê a loja americana DK Oldies, acumulam milhares de visualizações diárias. Agora, essa mídia física está também ameaçada.

Em julho, a Sony anunciou que todas as versões do PlayStation deixarão de rodar discos a partir de 2028. A estratégia levou gamers às redes sociais e chegou até à política brasileira, com a deputada federalista Erika Hilton, do PSOL, protocolando uma representação na Secretaria Vernáculo do Consumidor contra a empresa japonesa.

A reclamação é que os jogadores não são mais donos dos jogos que compram e que, na prática, pagam por licenças com data para perecer. Isso porque a Sony ainda disse que, em breve, várias bibliotecas digitais serão deletadas.

Por essas e outras, surgiu o movimento Stop Killing Games há dois anos, que pediu à União Europeia uma legislação para proteger jogadores. Essa resistência também contempla plataformas híbridas, porquê a Bandcamp, em que artistas divulgam canções e vendem CDs, vinis e fitas cassetes, e arquivos digitais, porquê o Internet Archive, onde são armazenados livros, filmes e outras mídias.

Diretor da Video Game History Foundation, Frank Cifaldi afirmou nas redes que medidas porquê as da Sony farão da pirataria a única forma de preservação.

Isso já é verdade há décadas, por exemplo, no caso de títulos de consoles antigos que eram gravados em cartuchos, porquê o Nintendo 64 ou o Mega Drive, e que hoje, muitas vezes, só podem ser experimentados nos chamados emuladores —programas que simulam o aparelho para rodar os jogos em questão. A outra opção é submergir no mundo dos colecionadores, onde raridades podem custar milhares de dólares.

Se nos anos 2000 era centralizada em DVDs piratas vendidos por camelôs, hoje a prática independe da mídia física. Com a subtracção de janelas de lançamentos exclusivas para os cinemas, filmes chegam rapidamente a sites de “torrents”, ou seja, downloads descentralizados. Em vez de os arquivos serem transferidos para um único computador, os dados são divididos entre os diversos usuários que buscam um determinado título, o que facilita o armazenamento e dificulta rastrear responsáveis.

Em redes porquê o Reddit e o X, perfis também disponibilizam filmes e jogos em “drives” —nuvens virtuais que qualquer um pode acessar. Em quesito de anonimato, o proprietário de uma dessas contas disse à reportagem que muitos usuários buscam filmes desconhecidos, indisponíveis em catálogos de streaming, e curadorias personalizadas.

Diretora de políticas e advocacia da Electronic Frontier Foundation, ONG internacional que defende os direitos civis no mundo do dedo, Katharine Trendacosta diz que grandes marcas se afastaram da mídia física para treinar controle.

“Longos períodos em que poucas empresas detêm boa secção dos bens culturais são ruins para a originalidade e preservação. Há muito que, para elas, não deve ser preservado, o que é forçado por fãs ao longo do tempo.”

Folha

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