Bienal de Veneza: Bebês reborn e nudez marcam festival – 01/09/2026 – Ilustrada
Uma mulher nua acelera um jet ski, dando cavalos de pau nas ondas de uma piscina montada dentro do pavilhão. No recinto do lado de fora, uma pequena pelada, só com um tanque de oxigênio nas costas que a mantém respirando debaixo d’chuva, nos olha submersa em seu aquário mantido pelo esgoto de dois banheiros químicos —em uso— nas laterais de sua prisão transparente. Uma outra performer se pendura nua de ponta-cabeça e faz as vezes do badalo de um sino, dando as horas, marcando o tempo, firmando a compasso da marcha rumo ao apocalipse.
Mais comentado, estremecido e odiado dos pavilhões nacionais nesta Bienal de Veneza, na Itália, o espaço da Áustria leva suas mulheres nuas, expostas e despudoradas, a riscar com o corpo uma parábola da devastação. Florentina Holzinger, artista radical da performance daquele país, imaginou ali um mundo que afunda nos próprios dejetos, níveis do mar que sobem para nos engolir no lixo —tema mais candente impossível na cidade flutuante.
Numa ruptura com a placidez que domina a mostra principal agora em Veneza, a pujança crua, escatológica e nervosa da obra de Holzinger, punk na raiz, esfrega na nossa face aquilo que já sabemos. O mundo não vai muito, e sua performance polêmica, apontada porquê misógina por alguns críticos, grita em vez de sussurrar.
Nesse sentido, não há muita sutileza nas obras dos artistas escalados por seus países com casas nos Giardini e no Arsenale, além de outros endereços da cidade. Não muito longe da Atlântida emporcalhada dos austríacos, o pavilhão da Dinamarca também se ancora às avessas numa potência feminina a desviar o mundo da masculinidade tóxica, os jogos vorazes dos “bromances” da “machosfera”.
Maja Malou Lyse, a artista dinamarquesa, se inspirou nas estranhas competições entre homens que apostam corrida com seus espermogramas, vendo quem seria mais fértil a partir da velocidade dos gametas no revista laboratorial, coisa que surgiu nos antros mais sórdidos das redes sociais.
Ela transformou logo o pavilhão de seu país numa espécie de clínica de fertilidade hi-tech de um lado e pôs atrizes pornô para encenar, num filme projetado na sala ao lado, porquê seria repovoar o mundo colapsado num desses laboratórios, em que frágeis homens do porvir, exauridos, precisam de seus estímulos visuais para melhorar a potência reprodutiva.
É um teatro do contraditório. Belas garotas, ou nem tão belas, mas exageradas e moldadas pelo fetiche de grandes peitos e bundas turbinados pelo silicone, tiram a roupa, brincam umas com as outras, se esfregam nos detalhes do cenário. Na acidez corrosiva do humor, Lyse mostra a que ponto chegamos, a vida besta e maninho que nos aguarda se não houver um necessário ramal de rota.
Noutra ponta desse espectro de término de mundo, também dobrando a aposta no kitsch surreal, está o artista nipónico Ei Arakawa-Nash.
Ele encheu o pavilhão de seu país com bonecos que lembram os assustadores bebês “reborn”, com o mesmo peso de uma moçoilo real —eles seriam talvez os habitantes desse estupendo mundo corroído que os artistas em Veneza agora desenham. A diferença é que eles já nascem tortos —cada um tem porquê data de promanação a mesma de alguma tragédia, a de um ataque sofrido ou desferido pelo Japão na Segunda Guerra ou dias que marcaram a luta por direitos queer e reprodutivos no país asiático e todos os seus retrocessos.
São bebês, mas Ei Arakawa-Nash parece querer mostrar que todos são predestinados desde o nascimento, tendo lugar e hora de vinda à luz porquê condições determinantes de uma vida trágica, de morte súbita ou agonias em série.
Logo ao lado, o iraniano Abbas Akhavan, radicado no Canadá, transformou o pavilhão do país norte-americano numa grande estufa, alterando a temperatura do interno e enchendo de chuva sua sala maior, agora um tanque onde flutuam vitórias-régias. A vegetal tropical, frágil demais para sobreviver no setentrião do planeta, ali floresce à custa de mecanismos artificiais, uma vida delicada que respira por aparelhos.
É nítida a metáfora. Longe de lar, ou do que entendemos por lar, podemos definhar, mas também agonizamos dentro das próprias fronteiras, caso agora de seu Irã natal, níveo de ataques liderados por Estados Unidos e Israel.
No pavilhão britânico, Lubaina Himid dá um verniz ultracolorido ao drama dos deslocamentos forçados. Suas pinturas em grandíssima graduação retratam cozinheiros, costureiros, jardineiros e arquitetos em ação, agentes da construção de lares reais ou postiços, permanentes ou passageiros, abrigos de emergência.
Não são contundentes porquê pintura nem seduzem pela técnica, mas repisam a mensagem de desespero daqueles que vagam pelo mundo sem rumo, aqueles que tiveram suas casas destruídas.
É claríssimo o repercussão com o espaço dos alemães. Toda a frontispício do pavilhão neoclássico do país, de grande imponência fascista, foi revestida com pequenos azulejos típicos do lado oriental de Berlim na era do muro que cortava a cidade.
É a réplica exata de um prédio de apartamentos, com suas pichações e tudo, que ao longo das décadas se tornou o endereço tradicional de migrantes na capital alemã, porquê a artista vietnamita Sung Tieu, autora da obra escalada para simbolizar uma Alemanha hoje polifônica e multicultural, mas que não deixa de ser atravessada por um levante hostil do neonazismo.
O polêmico pavilhão da Rússia, autorizada a voltar à maior mostra de arte do mundo, que sofreu sanções financeiras e o repúdio do júri solene da exposição por esse gesto, sintetiza esse estado de nervos.
Seus artistas ali, malvistos pelos vizinhos, fizeram uma grande sarau, com muita vodca e prosecco, para animar uma exposição anódina também sobre flores que resistem às intempéries. No fundo, eles só queriam deixar evidente para o establishment que, com guerra ou sem guerra, eles ainda estão cá.





