Em 1992, quando estava prestes a completar 80 anos, Jorge Querido terminava de grafar um livro que deveria ser publicado para festejar a data. Vivendo na França, o responsável ia esticando os prazos, escrevendo mais e mais. Para enviar os originais ao Brasil, foi até ao aeroporto com uma caixa de disquetes à procura de um remetente.
Encontrou Chico Buarque e pediu que o compositor não só levasse a encomenda por avião uma vez que também fizesse a gentileza de parar no bairro de São Cristóvão, no Rio, e entregasse em mãos na editora. Os dois se conheciam de vista, mas não tinham intimidade. Anos antes, no mesmo aeroporto, Jorge procurava alguém que pudesse levar uma encomenda para o Brasil e viu Chico. “Você não é fruto de Sérgio de Buarque de Hollanda”?
A história foi contada por Paloma Querido, filha de Jorge, neste sábado (18), durante a Bienal do Livro Bahia, realizada no Meio de Convenções de Salvador. “O principal da vida, além da amizade, é a simplicidade”, disse Paloma durante a mesa no espaço Moca Literário, que dividiu com a jornalista e tradutora espanhola Pilar del Río, que preside a Instauração José Saramago.
As duas participaram da mesa “O Sal da Vida”, que falava da amizade entre Querido e Saramago. Pilar contou que o português sempre foi um grande fã do brasiliano, mas só depois de muitos anos pôde vê-lo pessoalmente, na Feira de Frankfurt, mas não teve coragem de se aproximar. “Saramago”, exclamou Querido quando o viu, iniciando ali uma amizade que durou até o termo da vida.
A conversa de Paloma e Pilar foi mediada por Joselia Aguiar, autora do livro “Jorge Querido, uma Biografia” e umas das curadoras da Bienal.
“Desde 2022, penso que a Bahia é o eixo meão, os convidados de fora do estado e do Brasil se integram a uma programação que segmento da Bahia. É uma perspectiva bastante dissemelhante daquela que tive, por exemplo, quando organizei a Flip 2017 e 2018, ou o Festival Mario de Andrade em 2019. Sempre acreditei e entendi a força dos leitores e leitoras baianos, que têm seus próprios interesses e pautas”, diz Aguiar à Folha.
Considerada o maior encontro de literatura, cultura e entretenimento do Nordeste, a Bienal do Livro Bahia está na terceira edição dessa novidade versão mais ampliada, organizada pela GL Events, mesma empresa que faz a versão carioca do evento.
Com o tema “Bahia: Identidade que Ecoa nos Quatro Cantos do Mundo” e mais de 170 atrações, a organização espera receber murado de 120 milénio pessoas nos sete dias de Bienal, da última quarta (15) até a próxima terça (21), numa expectativa de aumento de público de 20% sobre a edição anterior.
Só no sábado, com ingressos esgotados, foram mais de 30 milénio visitantes. Por isso, em alguns momentos, caminhar pelos corredores dos estandes de livros lembrava o aperto das festas de largo de Salvador.
Atração internacional, a escritora nova-iorquina Julia Quinn lotou o espaço Redondel Farol. Sua série de livros de romance histórico deu origem à série “Bridgerton”, sucesso que já teve a quinta temporada anunciada pela Netflix.
“A gente tira informações ou vivências do livro que, às vezes, quem escreveu tinha um outro ponto de vista. O leitor interpreta de outra forma e guarda aquilo de um outro jeito”, disse Quinn ao público, citando o exemplo da personagem Francesca Bridgerton.
Havia espaço também para autores independentes, uma vez que o repórter infantil Yalle Tárique, de 13 anos, que está lançando um raconto num livro coletivo. Na pandemia, quando ele escreveu e lançou “Diários de uma Quarentena: Narrativas de uma Petiz na Pandemia”, seu talento precoce virou material na Folha.
“Eu estava escrevendo sobre o que eu estava sentindo e aí surgiu, dentro de mim, a vontade de compartilhar com outras pessoas. Comecei a grafar com sete e terminei de grafar com oito anos”, conta Yalle.
Do lado de fora do Meio de Convenções, era provável perceber a movimentação de ônibus trazendo estudantes de várias partes da Bahia.
“A ida à Bienal representa um marco não unicamente territorial, por meio da viagem à capital, mas também simbólico, uma vez que gesto de resistência e uma vez que oportunidade de contato direto com autores, editoras e uma imensidade de livros que ampliam horizontes e possibilidades de conexão”, diz a professora de português Anielle Andrade, que veio com uma turma de 25 alunos do ensino médio da cidade de Aporá, no sertão baiano.
Responsável de dois livros e já tendo participado da Flip em Paraty, Davi Boaventura pondera sobre os efeitos da Bienal.
“No final das contas, acho que, apesar da Bienal ser chamada de sarau dos livros, ela precisa ser um ponto de partida, não um ponto de chegada. Não vamos mudar o retrato precário da leitura no Brasil se não tivermos ações continuadas e de formação de multiplicadores sociais”.
Depois de entregar a caixa de disquetes para Chico Buarque, Jorge Querido saiu de férias num cruzeiro, mas continuou escrevendo no navio, mandando textos por fax. Coube a sua filha, Paloma, organizar 11 metros de papel pelo solo do apartamento. Finalmente, estava pronto o livro de memórias “Navegação de Cabotagem”.
