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Brasil se descobriu na cultura, diz Maria Fernanda Cândido
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Brasil se descobriu na cultura, diz Maria Fernanda Cândido – 22/08/2026 – Ilustrada

Maria Fernanda Cândido precisa do teatro mais do que os palcos precisam dela. É o que diz depois ser coroada com o Kikito de Cristal no Festival de Gramado, um dos eventos mais importantes para o cinema do país. A láurea vem depois da atriz aumentar o seu prestígio internacional com “O Agente Secreto”, de Kleber Mendonça Rebento, e encarnar Clarice Lispector em Paris.

Ela dispensa pausas. Enquanto grava o próximo filme de Luiz Fernando Roble, “Objetos Perdidos”, deve subir novamente aos palcos brasileiros em outubro, para encenar a última peça do renomado dramaturgo norueguês Henrik Ibsen. “Quando Despertamos Entre os Mortos”.

Apesar do reconhecimento no cinema, Cândido não consegue permanecer longe dos palcos. “O teatro me alimenta. Você recebe mais do que dá do público. O cinema tem outra radicalidade, trata-se de segundos que vão permanecer registrados para a perpetuidade. Já o teatro é efêmero. Se repete todas as noites e nunca será igual”, diz ela, em entrevista, em um hotel de ares campestres. Com a habitual elegância altiva e um vestido preto de saia rodada, a atriz se preparava para prensar o Kikito de Cristal dentro de algumas horas.

“É uma sina. Se você faz muito muito a peça hoje, pensa ‘meu deus, vou precisar repetir amanhã. E amanhã, o que eu vou fazer?’. E quando você faz a peça mal, por outro lado, sabe que vai ter o amanhã”, reflete. Quando questionada se, de certa forma, atuar ajuda a mourejar com as próprias angústias e emoções, ela não hesita. “É um salto no precipício.”

E, ainda assim, Cândido teve tempo para se habituar. Aos 52, ela subiu ao palco pela primeira vez aos 23 anos, em “Anchieta – Nossa História”, trabalho que marcou sua transição da curso de padrão para a de atriz. Logo foi cooptada para a televisão, onde alcançou o sucesso em 1999, ao encarnar a bela italiana Paola de “Terreno Nostra”, de Benedito Ruy Barbosa.

A formosura da atriz foi comparada a de Sophia Loren, símbolo de formosura feminina na era. Em uma indústria que, por vezes, limita reduz o talento de mulheres a sua semblante física, Cândido conta que manteve firme a fé sobre o próprio ofício. “A questão da formosura nunca se misturou muito a isso”, diz.

Na risco de declarações de artistas uma vez que Fernanda Torres e Demi Moore, ela conta que a maturidade trouxe mais crédito. “Você diminuiu suas expectativas e entende que o mundo independe de você. Essa consciência é importante porque você deixa de querer controlar as coisas e ter expectativas muito altas em relação não só a você, mas também a quem te tapume.”

Apesar do paladar por trabalhos de veia mais artística e intelectual, Cândido mantém uma curso profícua nas telinhas. “A televisão faz secção do dia a dia do povo brasílico. É o nosso ducto com o nosso povo”, diz. E, ainda assim, um de seus principais papéis na telinha gerou intenso debate em torno de uma questão social pungente. Ela deu vida a Joyce em “A Força do Querer”, em 2017, socialite que não aceitava o rebento transgênero, interpretado por Carol Duarte.

Um ano depois, embarcou para a Itália, onde gravou “O Traidor”, filme de Marco Bellocchio, um dos cineastas contemporâneos mais celebrados daquele país. E, em 2022, foi recrutada para viver a feitiçeira Vicência na franquia “Harry Potter”.

“Um filme com um orçamento de milhões, a quantidade de recursos técnicos e equipamentos chamava a atenção. Mas, apesar de toda a tecnologia, o que precisava suceder dependia única e exclusivamente de um jogo teatral muito simples. Eu precisava contracenar com um bicho que não existia, que não estava, e eu dependia absolutamente da minha imaginação”, lembra. “Apesar de todos os recursos, você precisa de um tanto muito capital dentro do nosso ofício: a capacidade de imaginar e de distrair.”

É essa origem que guia Cândido na adaptação de obras literárias em linguagem visual, um tanto que ela tem feito desde o início da curso. Nos anos 2000, levou aos palcos José Saramago, e às telas Machado de Assis —com o filme “Dom” e a minissérie “Capitu”, de Luiz Fernando Roble, nos quais deu vida à jovem com olhos de cigana.

A parceria com Roble se repetiu em 2024 com “A Paixão Segundo G.H.”, longa que adapta o célebre romance de Clarice Lispector. A escritora se tornou quase uma preocupação para Cândido, que dois anos depois a encarnou com um texto totalmente em gálico, em Paris, na peça “Defeito Supra do Ruína”.

Cândido, que já trabalha fora do Brasil há alguns anos, admite que o interesse sobre produções nacionais depois “Ainda Estou Cá”, vencedor do Oscar, e “O Agente Secreto”, é inédito.

“É uma vez que se o mundo tivesse voltado os olhos para o Brasil. O Brasil começa a desenredar um tanto que a Coreia, por exemplo, já descobriu há qualquer tempo, que a cultura é um um fortíssimo instrumento de poder dentro da geopolítica do mundo”, diz. “Nós, por exemplo, somos consumidores da cultura americana há muitas décadas, e isso é uma arma, que acabou entrando no nosso país e nos moldando.”

Mais do que o reconhecimento extrínseco, porém, Cândido comemora o que considera uma epifania do Brasil diante da própria cultura. Um pouco uma vez que a experimentada por G.H. no livro de Clarice, depois esmigalhar uma barata e, a partir daí, a leva a questionar sua própria identidade e, por término, viver uma espécie de congregação com o mundo. “O Brasil se descobriu. Nós é que estamos valorizando a nossa produção e percebendo essa força, e esse movimento gera o olhar do outro sobre nós.”

Folha

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