Carlo Ancelotti sabia que teria de ajustar a seleção brasileira durante a Despensa do Mundo. Com pouco mais de um ano avante da equipe, em um ciclo caótico no qual sucedeu três treinadores de resultados ruins, chegou aos Estados Unidos ainda tateando o grupo em procura da formação mais apropriada.
Ele, enfim, parece tê-la encontrado. Ao que tudo indica, repetirá contra o Japão a escalação adotada na vitória por 3 a 0 sobre a Escócia, na última quarta-feira (24), que valeu a liderança do Grupo C. E o primeiro grande teste do time será em um jogo de consequência, supressório. Quem vencer avançará às oitavas de final, contra Noruega ou Costa do Marfim. Quem perder ficará no caminho.
“Não é nem um mata-mata. É um mata, não tem partida de volta. Nós nos preparamos para uma final porque é uma final”, afirmou o italiano, que gostou da evolução apresentada em seguida uma estreia ruim. No empate por 1 a 1 com Marrocos, não funcionaram as suas apostas em um zagueiro improvisado na lateral direita, Ibañez, e em um centroavante típico, Igor Thiago.
Ancelotti, logo, colocou Danilo na lateral e promoveu ao time titular o versátil Matheus Cunha, uma espécie de híbrido entre meia e atacante. Deu evidente, e o jogador marcou três gols: dois na vitória por 3 a 0 sobre o Haiti e outro na partida que fechou a participação do Brasil na primeira período.
O ajuste final não foi uma escolha. O atacante Raphinha se machucou no segundo compromisso da equipe no torneio, e o treinador jogou suas fichas no jovem Rayan. O treinador ainda aguarda o retorno do jogador do Barcelona –a CBF (Confederação Brasileira de Futebol) tem sido misteriosa sobre suas reais condições–, mas o garoto de 19 anos entrou muito muito.
Enfim, ainda que a qualidade dos oponentes seja questionável, o Brasil se encaixou.
“O Cunha ajuda muito atuando porquê falso 9. A resguardo adversária fica sempre na incerteza sobre quem marcar. Talento sem movimento não é zero. Estamos nos movimentando muito, criando espaços e encontrando soluções”, afirmou o volante Bruno Guimarães, que tem se evidenciado na construção das jogadas, com três assistências.
Todo o sistema é pensado para dar vazão às melhores qualidades de Vinicius Junior, veloz e habilidoso. Livre de maiores responsabilidades defensivas, o atacante marcou quatro gols –além de um cuja anulação foi contestada em ofício enviado pela CBF à Fifa (Federação Internacional de Futebol)– e participou de seis dos sete marcados pela formação verde-amarela.
“Ele está em uma quesito muito boa. A equipe lhe permite repousar. Não trabalha muito sem a esfera e está mais fresco quando a temos. O trajo de intervalar de posição tem ajudado. Ele não fica só desobstruído, tem jogado por dentro, o que é uma vantagem. Quando recebe a esfera por fora, tem que fazer seis ou sete movimentos para chegar ao gol. Por dentro, basta um movimento”, disse Ancelotti.
“É satisfatório. Eu não tinha incerteza sobre porquê ele chegaria a esta Despensa do Mundo. Para ele, é uma honra jogar pela seleção. Está fazendo tudo muito muito e chegou a marcar um gol de cabeça, que é bastante vasqueiro. Não sou eu que vou desvendar o Vini. O Vini é top, um dos melhores do mundo, obviamente”, acrescentou o comandante.
Na engrenagem que encontrou, o italiano deu o braço a torcer e passou a utilizar mais um varão com características de meio-campista. Paquetá defende pelo lado esquerdo, fechando uma segunda traço de quatro marcadores, porém com a esfera tem liberdade para circunvalar pelo meio e participar das trocas de passes.
“Com três no meio, temos mais estabilidade. Estava faltando um jogador ali. O mister foi inteligente ao fazer essa mudança”, disse Danilo, um dos atletas em que o treinador confia para discussões táticas. O grupo pediu, e o sistema foi ajustado. Agora, vem um teste considerado mais complicado.
O Japão perdeu exclusivamente uma de suas últimas 16 partidas. Nessa sequência, venceu o próprio Brasil, um triunfo de viradela por 3 a 2 em amistoso realizado em outubro, em Tóquio, e fez 1 a 0 na Inglaterra no tradicional estádio de Wembley, em Londres. Na Despensa, empatou com Holanda e Suécia, goleou a Tunísia e avançou com a segunda colocação do Grupo E.
A equipe asiática não chega ao confronto porquê favorita, porém não é o azarão que já foi em outras oportunidades. O técnico Hajime Moriyasu e seus jogadores deram declarações confiantes às vésperas do duelo no NRG Stadium, em Houston. Talvez até confiantes demais, porquê as do atacante Kento Shiogai.
“Antigamente, [a seleção brasileira] era potente. Mas e agora? Tenho a imagem de que a França é potente; a Argentina, também. Sobre o Brasil não tenho ouvido muito ultimamente”, disse o desportista, otimista em relação à possibilidade de o Japão vencer seu primeiro jogo de mata-mata em uma Despensa do Mundo.
A seleção nipônica avançou quatro vezes às oitavas de final e não foi adiante. No novo formato do torneio, ampliado, com uma período a mais, precisa triunfar em um embate supressório para retornar às oitavas. Em Houston, terá pela frente uma equipe disposta a mostrar que seus tempos de glória não são exclusivamente coisa de antigamente.
Ficha técnica
BRASIL X JAPÃO (Despensa do Mundo – período de 32)
Data: 29 de junho de 2026 (segunda-feira), às 14h (de Brasília)
Lugar: NRG Stadium, em Houston (EUA)
Transmissão: Mundo, SBT, CazéTV, Ge TV (Globoplay), SporTV e NSports
Perito: Maurizio Mariani (ITA)
Assistentes: Daniele Bindoni (ITA) e Alberto Tegoni (ITA)
Brasil
Alisson; Danilo, Marquinhos, Gabriel Magalhães e Douglas Santos; Casemiro, Bruno Guimarães, Paquetá e Rayan; Matheus Cunha e Vinicius Junior
Técnico: Carlo Ancelotti
Japão
Zion Suzuki; Tomiyasu, Taniguchi e Hiroki Ito; Ritsu Doan, Tanaka, Kamada e Nakamura; Junyo Ito e Maeda; Ueda
Técnico: Hajime Moriyasu





