Caio e Ricardo Blat encenam mazelas dos artistas em peça

Caio e Ricardo Blat encenam mazelas dos artistas em peça – 22/03/2026 – Ilustrada

Celebridades Cultura

Um varão está confinado dentro de uma cubículo exígua. Na penumbra do cativeiro, a pele pálida e os ossos protuberantes denunciam que ele não come zero há quase 40 dias. Unicamente gotas de chuva molharam a sua boca nesse período.

Apesar das privações, o sujeito está em êxtase. Quanto mais tempo sem manducar, maior é o seu triunfo. Ele é, enfim, um artista da lazeira, alguém que faz da pasmo do público o seu único maná. “Eu sou o maior jejuador de todos os tempos. Eu nunca traí a sublimidade de minha arte”, diz ele, encantado pela glória.

Essa cena é uma das sínteses de “Subversão Kafka”, peça que joga luz sobre as mazelas e as obsessões que permeiam a vida dos artistas.

Em edital no Sesc Bom Retiro, na região meão de São Paulo, o espetáculo é dirigido e estrelado por Caio Blat, que contracena com seu primo, o ator Ricardo Blat. Juntos, eles encarnam personagens de três contos do noticiarista tcheco Franz Kafka — “Primeira Dor”, “O Artista da Rafa” e “Josefina: A Cantora dos Ratos”.

Em generalidade, essas histórias refletem sobre a requisito do artista por meio de alegorias tétricas e metáforas cortantes. Ora o noticiarista narra a história de um trapezista que não quer descer do trapézio e tocar o solo, ora ele descreve um jejuador que vai ao limite do sofrimento por sua arte. Há ainda uma sociedade de camundongos mesmerizada por uma ratazana que se diz cantora, mas que emite somente ruídos estridentes.

Na plateia, o público vê o desenrolar dessas histórias de contornos surrealistas. “As pessoas falam que esse é um teatro do contraditório, mas eu acho que não tem zero de contraditório”, diz Rogério Blat, responsável pela dramaturgia do espetáculo.

Para ele, Kafka retratou fenômenos inexoráveis, porquê o trajo de que a vida pode virar uma experiência grotesca a qualquer momento. Foi isso o que ele mostrou ao redigir “A Mutação” —seu romance mais célebre, publicado em 1915. No enredo, o protagonista dormiu porquê um cidadão venerando e acordou na pele de um inseto insignificante.

“Estamos em risco o tempo todo e não controlamos zero. Morremos de pânico dessa anfibologia e desse descontrole”, diz Rogério. “Não existe uma lógica, um final evidente nem certezas.”

Essa imprevisibilidade é um dos fios condutores do espetáculo. A direção privilegiou o improviso e a naturalidade em detrimento de um controle inteiro sobre as cenas. A montagem também estabelece uma relação direta com o público.

Em oferecido momento, dois espectadores são convocados a carregar o jejuador interpretado por Caio, já que o personagem está fraco demais para caminhar sozinho. Com isso, o objetivo é popularizar o espetáculo e diminuir o fosso que separa o público e o noticiarista, considerado por vezes denso e cerebral demais.

“Quando comecei a redigir, vi que as histórias não eram teatrais”, diz Rogério. “Se eu adaptasse os contos do jeito que eles estavam, ficaria um pouco cabeçudo. Não tinha zero a ver com ação cênica.”

Por esse motivo, ele diz ter sido infiel ao responsável, ou seja, concebeu uma adaptação que não reproduz de forma literal os contos. Vem daí, aliás, a subversão presente no título da peça.

Apesar dos desafios, o dramaturgo diz que ajustar o tcheco é uma forma de ajudar o público a refletir sobre temas contemporâneos. “A gente está vivendo um mundo distópico marcado pelo derretimento da veras. É um pouco sobre o qual Kafka já escrevia há muito tempo.”

Opinião parecida tem Caio Blat, para quem o noticiarista antecipou o contraditório da vida contemporânea.

Evidência disso é o gosto do público retratado em “O Artista da Rafa” em se deliciar com as mazelas humanas. Eles gastam tempo e moeda para ver uma pessoa definhar aos poucos. “É quase porquê se fosse o Big Brother, ou seja, a exibição da vida humana dentro de uma jaula”, diz o ator.

Além da capacidade preditiva de Kafka, ele diz ter ficado interessado pelo modo porquê o noticiarista descreve as aflições da classe artística. “Os personagens são todos inadequados, obsoletos e decadentes. São pessoas que têm pânico de serem esquecidas pelo público.” Esse ocaso artístico, aliás, está presente na peça.

Num treino metalinguístico, o espetáculo retrata a última apresentação de uma companhia teatral em colapso. A atmosfera lúgubre é ressaltada pela trilha sonora que o instrumentista Fernando Moura produz ao vivo ao longo do espetáculo.

A grande atração desse concerto hipotético é Josefina, a tal cantora dos ratos. Ocorre que ela se atrasa para a apresentação, de modo que os artistas da trupe precisam entreter a plateia. Essa é justamente a deixa para que os personagens kafkianos entrem em cena.

Dentre as figuras do grupo, a do jejuador é aquela com quem Caio tem mais identificação. “Eu sou fascinado por esse artista que está sempre em procura do inatingível e do impossível, alguém que quer ultrapassar os limites humanos. No fundo, ele é um obsessivo.”

A devoção ao ofício é tanta que o personagem acaba morrendo de inanição —uma metáfora para a capacidade que a arte tem de tragar o próprio artista. Caio, inclusive, se reconhece nessa sina.

Sabido do público por novelas porquê “O Criancinha Caiu do Firmamento” e “Da Cor do Vício”, o artista sempre manteve também uma curso produtiva no teatro e no cinema. Com frequência, atuava em mais de um meio ao mesmo tempo.

“Eu fui um rosto que trabalhava 24 horas por dia, incluindo término de semana. Era uma coisa desumana”, diz o ator, que decidiu desacelerar quando completou 40 anos. “Não estou precisando de moeda nem provar zero para ninguém. Agora eu quero fazer aquilo que tem um sentido profundo para mim.”

Foi pensando nisso que ele decidiu guiar “Subversão Kafka” e invitar Ricardo Blat para atuar ao seu lado. “Percebi que a coisa mais urgente que eu queria nessa vida era trabalhar com ele, o meu ídolo e minha maior referência.”

Na peça, um dos personagens de Ricardo é o trapezista, alguém tão inebriado pela própria arte que não consegue mais tocar no solo.

“Meu lugar nesse planeta é o palco, igual ao trapezista. Ele quer permanecer lá, onde o sol é majestoso e o espaço é crepuscular”, diz o ator, divulgado pelo filme “Carandiru” e pela atuação premiada na peça “Na Solidão dos Campos de Algodão”.

Em um dos momentos de “Subversão Kafka”, o empresário do trapezista se surpreende ao ver uma ruga na testa do varão. “Será o nosso término?”, diz ele, horrorizado. É uma preocupação que espelha o etarismo, problema bastante contemporâneo.

“A gente está vivendo essa veras em que profissionais mais velhos são descartados e substituídos por pessoas mais novas”, diz Ricardo, acrescentando que não desanima diante desse cenário. “Eu vou continuar fazendo tudo que tenho vontade de fazer, independentemente de me chamarem ou não. Não preciso de palco ou de câmera. Eu tenho o mundo.”

Folha

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