Nas últimas semanas, uma série de casos de violência e ódio contra mulheres tomou conta dos noticiários e das redes sociais. O feminicídio de uma policial militar pelo seu companheiro, em São Paulo. Estupro coletivo de uma jovem no Rio de Janeiro. Vídeos no TikTok em que homens simulam hostilizar mulheres que rejeitam pedidos de matrimónio.
Os episódios não devem ser vistos uma vez que isolados e fazem segmento de uma engrenagem complexa de misoginia, que conecta diferentes peças: desde experiências individuais de frustração até estruturas econômicas e projetos políticos globais. É o que analisam especialistas ouvidos pela reportagem da Escritório Brasil.
As investigações sobre a morte da policial Gisele Alves Santana, que foi encontrada com um tiro na cabeça em seu apartamento, mostram que o marido dela, o tenente-coronel da PM Geraldo Leite Rosa Neto, denunciado do transgressão, usava em conversas termos que circulam com frequência nos grupos misóginos da internet uma vez que “viril começo” e “mulher beta”. Eles remetem à teoria de superioridade do varão e submissão feminina.
Confira na reportagem do Repórter Brasil, da TV Brasil
A origem do ódio
O problema precisa ser entendido também em sua dimensão histórica. Os grupos de ódio têm desenvolvido, em segmento, favorecidos pela expansão dos ambientes virtuais, mas existem muito antes disso.
“Falamos muito sobre o aumento dessa violência, mas ela é secular, existe desde a construção da sociedade. Vemos estruturas patriarcais antigas de submissão das mulheres, e a internet potencializa essa violência”, diz a socióloga Bruna Camilo.
Bruna é pesquisador política, e pesquisa gênero e misoginia. O psicólogo social Benedito Medrado Dantas, professor da Universidade Federalista de Pernambuco (UFPE), acrescenta que as expressões de ódio às mulheres se intensificaram uma vez que uma reação às conquistas femininas
“Desde quando as mulheres começaram a ocupar outros lugares na sociedade que não fossem o do zelo doméstico. Isso, invariavelmente, mexe nas estruturas da sociedade, na intimidade da vida doméstica e familiar”, diz.
Recrutamento precoce
Pesquisadores têm identificado que meninos cada vez mais jovens estão sendo atraídos para a chamada “machosfera”. O termo engloba fóruns na internet, canais de vídeos, grupos de mensagens instantâneas e perfis em redes sociais voltados para resguardo de um padrão conservador de masculinidade e de oposição aos direitos femininos.
A ativista feminista e professora Lola Aronovich sofre ataques virtuais há anos, e relata o que encontrou ao investigar comunidades online, principalmente de jogos.
“Acontece um recrutamento muito pesado. Comecei a pesquisar o Discord [aplicativo] e vi que eram meninos cada vez mais novos, entre 12 e 14 anos. Fiquei muito chocada porque estava acostumada com adolescentes mais velhos, mas, principalmente, adultos”, diz Lola.
Segundo ela, o processo de atração para esse exposição é gradual, e a sondagem começa a partir da reação de meninos a termos e ideias misóginos.
“Por exemplo, no meio da conversa, ao falar de mulheres, vão usar expressões uma vez que ‘vagabundas’ e ver uma vez que esse menino reage. Ao perceberem uma rombo, continuam a cooptação”, explica.
Pesquisadora da Instauração Getulio Vargas (FGV) e de estudos de gênero, Julie Ricard mapeou as estratégias de recrutamento para grupos misóginos em outra rede, o Telegram. O estudo identificou 85 comunidades abertas, o que para ela significa “a ponta do iceberg“.
“Há aquelas explicitamente misóginas e outras se apresentam uma vez que espaços de autoajuda ou desenvolvimento econômico, de vida fitness. Nesses casos, os jovens acessam conteúdos que parecem neutros, mas encontram narrativas de ressentimento contra mulheres”, explica Julie.
As estratégias se multiplicam pelos diferentes canais da internet. Estudos do NetLab, laboratório de pesquisa da Universidade Federalista do Rio de Janeiro (UFRJ), mapearam mais de 130 milénio canais misóginos no YouTube e mostram que temas uma vez que “sedução e relacionamentos”, “questões jurídicas” e “vencer a timidez” são pontes para teor de ódio.
Frustração e vulnerabilidade
Por que homens aderem às ideias que estimulam vexação e violência contra as mulheres? Para os especialistas, a resposta para essa questão não é simples, uma vez que os motivos envolvem elementos da experiência individual. Porém, há padrões coletivos que podem proporcionar a assimilação e são explorados pelos líderes da chamada “machosfera”.
A engrenagem misógina depende de matéria-prima emocional: frustração, isolamento e instabilidade, mormente entre adolescentes e homens em situação econômica vulnerável, explica o psicólogo Benedito Medrado Dantas.
Quando se trata de adolescentes, a vulnerabilidade é inerente ao período da vida, uma vez que eles estão em processo de construção de identidade e de maduração socioemocional. Essas inseguranças podem ser exploradas por grupos que defendem uma masculinidade violenta e submissão das mulheres. Benedito alerta que os jovens que não encontram espaço de diálogo em morada são os mais vulneráveis.
“Sem interações e conflitos, não há possibilidade de a família gerar filtros sobre a informação que eles acessam. Há um processo de fragilização grande porque estão tentando erigir a si mesmos, e conteúdos violentos podem ser mais atrativos”, diz Benedito.
Ele ressalta que as mensagens nesses grupos usam a linguagem dos memes e o humor para fragilizar resistências. “É um universo de mensagens de fácil assimilação”, complementa.
Já entre os homens adultos, as mulheres e o feminismo podem virar bodes expiatórios para os problemas pessoais para aqueles que buscam justificavas simplistas para suas vivências.
“Muitos se apresentam uma vez que vítimas, porque se veem uma vez que homens feios ou sem numerário. O que percebemos nessas comunidades é um ressentimento muito grande com a própria situação”, diz a pesquisadora Julie Ricard.
Ela destaca que há duas camadas de frustração muito presentes nos discursos: econômica e afetivo-sexual.
“São frustrações masculinas tanto em relação às mulheres, quanto ao próprio lugar deles na sociedade. Homens socializados para serem ‘provedores do lar’, que hoje têm uma renda que não permite satisfazer esse papel”, complementa.
Hierarquias do ódio
Por trás de uma aparente espontaneidade dos grupos misóginos, há liderança e organização. A socióloga Bruna Camilo labareda atenção para quem conduz o processo repentino de cooptação: homens mais velhos, com idades a partir de 40 anos.
“São pessoas que viveram o mundo antes e depois da internet. Em geral, costumam também ser ressentidos, alguns com ódio inclusive das próprias mães”, diz Bruna.
Os especialistas destacam o papel das grandes plataformas digitais por onde comunidades e discursos de ódio circulam. Além do lucro direto, os empresários adiante das big techs muitas vezes têm afinidade ideológica e política com as ideias propagadas nesses espaços.
“Esses grupos misóginos notaram que ninguém os proibia de agir nas redes sociais. Pelo contrário, passaram a receber numerário por serem misóginos. Há cada vez mais gente apostando nisso, vivendo disso”, diz a professora Lola Aronovich.
Ela lembra que há lideranças dessas empresas que são ativistas de extrema-direita e que estiveram, por exemplo, presentes no governo de Donald Trump, nos Estados Unidos, uma vez que o possuidor da rede X, Elon Musk.
Lola destaca também a assimetria na moderação de teor. Ela questiona o argumento das plataformas de que não podem verberar os usuários.
“Há exemplos de canais feministas que trabalham com direitos reprodutivos e não podem falar sobre pílulas abortivas, que têm o teor derrubado. Mas, quando um monte de canais defende a morte de mulheres, não sofre sanções”, compara.
Projeto político
No cocuruto dessa jerarquia, estão também políticos que influenciam e são favorecidos pela ampliação da misoginia.
“Antes, os misóginos costumavam se esconder em identidades anônimas na internet. A partir da campanha eleitoral do Trump, em 2016, a gente viu uma mudança grande. Eles começaram a dar as caras. Depois, com a eleição do ex-presidente Jair Bolsonaro, a mesma coisa”, diz Lola Aronovich.
Para a socióloga Bruna Camilo, o projeto político da extrema-direita se beneficia com ideais reacionários de masculinidade (virilidade e poder) e a submissão das mulheres.
“No fundo, trata-se de controle dos corpos. O debate de gênero provoca discussões profundas na sociedade. O que interessa à extrema direita é manter o status quo, em que as mulheres não questionam, e os homens concentram poder político e social”, analisa.
Caminhos possíveis
Apesar de avanços, uma vez que a Lei nº 13.642/2018 – que determina a investigação de crimes de ódio contra mulheres na internet –, especialistas apontam lacunas. Uma delas seria criminalização da misoginia no país.
“O que adianta a Polícia Federalista expressar que determinada pessoa foi misógina, se isso não pode ser tipificado uma vez que transgressão? Não dá para ir muito adiante, e gera uma sensação de maior liberdade e impunidade para esses criminosos”, diz Lola Aronovich, que se tornou símbolo da lei.
Enfrentar a rede de misoginia exige ação em múltiplas frentes, incluindo ainda medidas educativas voltadas a meninos e adolescentes.
“O diálogo, para mim, é o único caminho provável de transformação. Os homens não estão acostumados a falar, muitas vezes não sabem se expressar porque não aprenderam. É preciso investir no diálogo em morada e nas escolas”, diz o psicólogo Benedito Medrado.
A pesquisadora Julie Ricard acrescenta que é responsabilidade dos adultos “zelar pela autoestima e pela saúde mental desses jovens”. “Precisamos encarar isso uma vez que um problema de política pública”, diz.
Já em relação aos grupos políticos e econômicos que se beneficiam da misoginia, as soluções passam por mecanismos mais complexos de enfrentamento uma vez que o fortalecimento das instituições e da legislação. Entre elas, o debate sobre a regulação das plataformas.
“Avançamos na legislação sobre proteção do dedo, mas não conseguimos impedir ainda que as big techs mantenham conteúdos misóginos em suas plataformas. Por que até hoje a Câmara dos Deputados não chamou representantes desses grupos e pediu explicações sobre a construção desses algoritmos? Se não há enfrentamento, é porque há interesses políticos”, questiona Bruna Camilo.



