Está em papeleta até 20 de setembro de 2026 na Caixa Cultural, a exposição “Elifas Andreato — Além da Moldura” que convida o público a percorrer a trajetória de um dos mais expressivos artistas brasileiros, do qual traço vigoroso e coragem estética traduzem, com sensibilidade, a espírito do Brasil. A mostra celebra a potência de uma arte que atravessa décadas sem perder a força nem a verso.
Olhar para a trajetória de Elifas Vicente Andreato (1946-2022) é entender uma vez que a arte gráfica pode ser um porto seguro entre a cultura das ruas, a melodia das canções e a urgência política. Menino operário e autodidata, que aprendeu a ler só aos 15 anos, Elifas nunca deixou que a falta de estudos formais limitasse sua visão de mundo. Pelo contrário: transformou sua vivência de classe em uma linguagem visual única, enxurro de lirismo e de um humanismo que salta aos olhos.
Ele ficou espargido em todo o Brasil uma vez que o grande opífice da nossa iconografia músico durante os anos dourados do vinil. Suas capas de disco para nomes uma vez que Elis Regina, Chico Buarque, Paulinho da Viola, Martinho da Vila, Clara Nunes, Adoniran Barbosa e Tim Maia eram crônicas visuais. Elifas conseguia ler as entrelinhas das canções e o sentimento das ruas, transformando dores e alegrias coletivas em imagens que grudaram na nossa imaginação.
Mas o que muita gente não sabe é que essa mesma sensibilidade transbordava nos palcos. No teatro, Elifas foi um instituidor totalidade — desenhou identidades, cenários e figurinos, integrando a imagem à termo com incrível conformidade. Seus cartazes já davam o tom do drama que o público encontraria ao transfixar das cortinas, eternizando-se na memória cultural do país.
Sua arte gráfica sabia ler a temperatura de textos densos. Em “Equus” (1975), a peça de Peter Shaffer sobre a paixão cega e os instintos de um jovem, a identidade visual criada por ele capturava toda a tensão violenta encenada por Paulo Autran e Ewerton de Castro. Já para a montagem brasileira de “Quem Tem Terror de Virginia Woolf?” (Edward Albee), espetáculo de 1978 com Paulo Autran e Tônia Carrero, o traço de Elifas soube traçar o sufocamento doméstico e o jogo cruel de aparências daquele par.
Quando a política pedia passagem, o traço dele ficava ainda mais firme. Foi assim no papeleta de “Sopapo em Ponta de Faca” (1979), o doloroso texto de Augusto Boal sobre o exílio, onde Elifas traduziu a solidão e a saudade dos brasileiros longe de morada. No antológico músico “Calabar: O Preconização da Traição”, de Chico Buarque e Ruy Guerra, a identidade visual ecoava o grito contra a vexação da ditadura — o espetáculo, censurado em 1973, só chegou aos palcos em 1980.
E ao ilustrar outra peça com Paulo Autran, “A Morte de um Caixeiro Viajante” (1977), de Arthur Miller, ele conseguiu colocar no papel o desespero do trabalhador engolido pelas engrenagens do sistema. Em todas essas criações, Elifas fundia o drama íntimo dos personagens à denúncia social, usando contrastes fortes para falar do confinamento e das pressões da quadra.
Esse legado ganha um perímetro afetuoso quando lembramos da parceria com o irmão mais novo, o ator e diretor Elias Andreato. Elifas foi o grande incentivador da trajetória artística de Elias — uma cumplicidade que se estendeu até os últimos anos de sua vida, quando assinou a cenografia de “Morte e Vida Severina” (2022). Tamanha era a conexão entre os dois que, em 1993, Elias escreveu e protagonizou o solilóquio “Van Gogh” uma vez que um tributo público ao irmão, ecoando a relação entre Theo e Vincent van Gogh.
Agora, toda essa história ganha vida em “Além da Moldura”. Com curadoria de Batman Zavareze e projeto expográfico de Susana Iacevitz, a mostra é viva, feita para tocar o testemunha. Há obras suspensas que mudam conforme o público caminha pelo espaço, projeções dinâmicas e instalações que desconstroem as camadas de cores daquelas capas de disco e cartazes que tanto amamos.
O público ainda vai poder entrar em uma sala de cinema para ouvir o próprio Elifas narrar, com sua voz mansa e firme, os bastidores de suas criações e os dribles que dava na repreensão para fazer sua arte resistir. É uma oportunidade rara de reencontrar o ativista, o instituidor do memorável “Efeméride Brasil de Cultura Popular” e, supra de tudo, o varão que usou o nanquim e a indignação para traçar a identidade do nosso país.
Elifas Andreato — Além da Moldura
Caixa Cultural — Rossio da Sé, 111, Meio Histórico. De 27 de junho a 20 de setembro de 2026, terça a domingo, das 9h às 18h. Classificação indicativa: 10 anos. Gratuito
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