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Cannes: Romances lésbicos ditam primeiros filmes do evento 13/05/2026
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Cannes: Romances lésbicos ditam primeiros filmes do evento – 13/05/2026 – Ilustrada

Por coincidência, os primeiros dois filmes que concorrem à Palma de Ouro, exibidos nesta quarta-feira no Festival de Cannes, seguem a mesma toada. São jornadas de mulheres na morada dos 40 anos que se descobrem no paixão por outra mulher.

Em “Nagi Notes”, do nipónico Koji Fukada, tudo começa quando Yuri vai à pacata cidade de Nagi, no interno do Japão, para visitar a mana do ex-marido, Yokio, que leva a vida entre ordenhar vacas e esculpir bustos de madeira.

Yuri começa, portanto, a posar para Yokio e acaba estendendo sua estada em Nagi. Em tom de confidência, Yuri diz que invejava o ex-marido pela crédito profissional e pela assertividade, características que ela aponta porquê naturais para os homens.

Yokio, por outro lado, é segura de si mesma —descobriu ser lésbica ainda juvenil e foi para Tóquio em procura de liberdade e roboração. Depois de ser rejeitada pela mulher que amava platonicamente, porém, decidiu se recolher nesta que é sua cidade natal.

De certa forma, as duas se complementam. Enquanto Yuri passou a vida tentando aprazer aos outros, Yokio se isolou para não precisar enfrentar a desaprovação alheia. Mais do que o romance implícito que quase não se desenvolve, a convívio das duas e a surpresa mútua faz com que a personalidade de Yuri, aos poucos, vá se desabrochando.

Para complementar, segredos que envolvem outros personagens vêm à tona e complementam o retrato sobre o conservadorismo nipónico e a solidão de pessoas homossexuais no país.

Já “A Woman’s Life”, da francesa Charline Bourgeois-Tacquet, traz de volta à competição principal o rosto da atriz Léa Drucker, que no ano pretérito estrelou no festival o drama policial “Caso 137”.

Agora, ela vive Gabrielle, uma cirurgiã determinada e completamente dedicada ao trabalho. Logo no primórdio do filme, ela discute com o seu namorado, com quem está há 15 anos, sobre o porquê de ela não querer mais morar com ele e os seus enteados.

Gabrielle é questionada sempre sobre sua decisão de não ter filhos. No primórdio, pode parecer uma escolha por autonomia, mas, aos poucos, revela ser uma escolha pela sobrevivência.

Obrigada a cuidar da mãe, da mana, do sobrinho e de pacientes, ela precisa desesperadamente de liberdade —que consegue testar, enfim, ao saber uma escritora mais novidade do que ela.

Em geral com Yuri, Gabrielle descobre seu interesse por mulheres relativamente tarde e, com ele, partes soterradas de sua própria personalidade vêm à tona.

E, numa edição sem grandes estrelas de Hollywood, Hannah Einbinder foi uma das representantes dos gigantes americanos num filme na competição paralela. Ironicamente, a vencedora do Emmy por “Hacks” estrela um “slasher” que tanto celebra o cinema porquê ri da sua a crise.

“Teenage Sex and Death at Camp Miasma” é a novidade produção de Jane Schoenbrun, nome promissor depois do elogiado terror “Eu Vi o Fulgor da TV”, uma metáfora sobre disforia de gênero e vexame de pessoas trans. O trabalho foi escolhido para perfurar a mostra paralela Um Patente Olhar.

Há um romance lésbico no núcleo da trama, que caçoa do olhar masculino que por décadas dominou o audiovisual. Mas a diretora não se leva a sério, o que torna a produção ainda mais interessante, com disparos até contra os excessos da cultura “woke” que limitam a liberdade artística.

Na trama, Hannah Einbinder vive uma cineasta indie cooptada por um grande estúdio para gravar mais uma sequência de dezenas —o excesso é proposital— de uma franquia de terror, “Camp Miasma”. Ela, portanto, vai ao encontro da atriz que interpretou a mocinha no primeiro filme, Billie, encarnada pela magnética Gillian Anderson, para convencê-la a fazer o novo filme.

Billie é excêntrica, reclusa e sensual. Ela vive numa morada de serra no mesmo campo onde foi gravado o terror principiante da franquia que a alçou a um sucesso efêmero na dez de 1990.

As duas se envolvem conforme compartilham a mesma preocupação pelo facínora de “Camp Miasma”. Veras e ficção se misturam num romance com requintes de thriller e reflexões afiadas, mas zero presunçosas, sobre os papéis relegados, historicamente, a pessoas queer nas telonas.

Além do círculo emocional e sexual dessas personagens, são muitas as referências à própria indústria do cinema, porquê o excesso de franquias, o controle dos engravatados dos estúdios sobre a geração das narrativas, a marginalização de atrizes com mais de 40 anos e o conflito geracional entre as audiências. A mensagem que fica é que a geração sem pavor, de convenção com Jane Schoenbrun, é a resposta para tudo isso.

Folha

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