Depois do inesperado e inexplicável sucesso nas telas dos Guardiões da Galáxia, nome do segundo escalão nos quadrinhos da Marvel, os produtores de filmes de personagens poderosos passaram a recorrer a heróis não tão conhecidos para adaptações ao cinema. “Rosto-de-Barro”, em edital no Brasil, é uma tentativa nessa direção. Não deu muito notório.
Rosto-de-Barro nasceu em 1940, uma vez que um vilão para Batman enfrentar na revista “Detective Comics”, à idade o gibi mais vendido nos Estados Unidos. Pelas décadas seguintes, a DC Comics trouxe aos leitores outras versões do personagem, cinco no totalidade, inclusive uma feminina. Cada roteirista criou uma origem dissemelhante para o Rosto-de-Barro.
Nessa irrupção ao cinema live-action, o personagem mistura elementos de todas as configurações anteriores. Matt Hagen é um ator bonitão de filmes de ação, que experimenta um novo momento em sua curso ao ser indicado para o Oscar. Ele encontra uma pequena numa balada e vai para o apartamento dela, sem saber que a moça é namorada do mafioso mais cruel de Gotham City.
Matt e a pequena são surpreendidos na leito pelo chefão e seus capangas. Os bandidos imobilizam o ator e o mafioso trata de destruir o rosto dele com um canivete. Tornar-se um galã desfigurado já seria terrível, mas o ator também é vítima de notícias falsas na prensa, que o acusam de ter dopado a moça e abusado dela. A curso no cinema acaba e, para completar, seu empresário rouba todo o moeda dele.
Morando numa espelunca infestada de baratas, ele recorre a uma observador que estuda um método revolucionário de regeneração humana. Sem autorização para testes em pessoas, ela aceita tratar de Matt, e os resultados são ótimos. Ele volta a ter a mesma ar de antes da agressão sofrida, mas é surpreendido quando o efeito do tratamento vai desaparecendo, com seu rosto derretendo.
Num gesto desesperado, ele toma uma overdose do soro produzido pela observador. Aos poucos, eles começam a desenredar novos poderes no corpo do ator. Matt adquire capacidade de regenerar qualquer ferimento e descobre que consegue transformar seu rosto e seu corpo, podendo permanecer igual a qualquer pessoa. Nessa via-crúcis de nanotecnologia, os dois começam a sentir atração um pelo outro.
Muito, até um leitor de gibi com oito anos sabe desde o primórdio que Matt/Rosto-de-Barro vai usar suas capacidades sobre-humanas para se vingar de quem o levou à ruinoso. O problema do filme, muito comprometedor, é o roteiro ruim para esse acerto de contas.
O filme funciona mais uma vez que “body horror” do que uma vez que uma boa façanha de super-herói. As etapas de transformação de Matt no Rosto-de-Barro são mostradas em detalhes que podem enfardar estômagos mais sensíveis. Mas isso aparece tantas vezes que perde rapidamente o impacto.
No papel de alguém que vai enlouquecendo cada vez mais com o surgimento de poderes que não consegue controlar, o ator galês Tom Rhys Harries é uma escolha desastrosa. Tudo muito que interpretar um personagem de gibi não é exatamente um repto da arte dramática, mas seus momentos de desespero são caricaturais. O resto do elenco é todo de segundo time.
Mas nem ótimos atores poderiam resgatar o filme de uma opção muito complicada assumida pela produção, que é a indefinição sobre o arquétipo do personagem. Nos gibis do Batman, Rosto-de-Barro é um vilão, mesmo que alguns roteiristas destaquem uma vez que o sorte foi cruel com ele e incluam nas histórias possíveis aberturas para despertar no leitor um tanto de empatia.
Ao escalar o personagem num filme seu, fica evidente a pretensão de transformá-lo num herói. Deu notório no estúdio rival, quando a Marvel conseguiu emplacar uma franquia de sucesso com Venom, um vilão do Varão-Aranha levado ao lado dos “mocinhos”. Mas a trilogia “Venom” tem bons roteiros —que sabem dosar as reações violentas do personagem— e a presença poderoso de Tom Hardy.
Há mais uma questão mal resolvida em “Rosto-de-Barro”. Falta ação. As cenas de confronto físico são poucas, porque o roteiro vagar a engrenar a procura por vingança. Filme de super-herói com boa pancadaria deveria ser uma obrigação de quem escreve a história. “Rosto-de-Barro” comete o erro de outros filmes recentes, um tanto desanimados, com a fracassada tentativa da Marvel com o Quarteto Fantástico.
Fica difícil imaginar uma sequência para essa façanha que não decola. Talvez aproximar o vilão/herói do Batman pudesse ser uma opção. O roteiro perde a oportunidade de inserir o Rosto-de-Barro no universo pessoal de Gotham City. Mas há uma chance grande de que as bilheterias não respondam muito a um suposto herói com um rosto que vive derretendo.





