Um dos principais ícones culturais e ambientais de Sergipe, a mangaba se tornou, nos últimos anos, símbolo de resistência nas comunidades extrativistas que dependem da proteção de seus territórios para prometer o sustento de dezenas de famílias e um modo de vida totalmente integrado à natureza. Em Aracaju, algumas das últimas remanescentes de mangabeiras concentram-se na região sul da cidade, o epicentro da zona de expansão urbana, e seguem sofrendo potente pressão imobiliária que prenúncio principalmente a autonomia econômica e social de mulheres que vivem da coleta, a chamada “cata”, e do manejo do fruto.
“A gente está rodeado de uma selva de pedra. Eu me sinto guardando um tesouro da humanidade”, desabafa a presidente da Associação das Catadoras e Catadores de Mangaba Padre Luiz Lemper (ACCMPLL), Maria Eliene Santos.
A entidade é a principal organização política e comunitária das famílias extrativistas da capital sergipana e ajuda a orientar a produção, a preservar os conhecimentos tradicionais e a fazer a interlocução com o Poder Público. Esse trabalho rendeu à associação o primeiro lugar na categoria Povos e Comunidades Tradicionais do Prêmio Guardiãs da Sociobiodiversidade, facultado pelo Ministério do Meio Envolvente e Mudança do Clima (MMA), no ano pretérito.
Ao todo, foram destinados R$ 45 milénio à associação, que investiu na realização de oficinas e estudos para fortalecer o beneficiamento da mangaba e o turismo de base comunitária na região, com espeque de instituições porquê a Universidade Federalista do Sergipe (UFS) e a Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa).
O território das catadoras de mangaba em Aracaju compreende duas áreas protegidas contíguas, separadas por uma avenida: a Suplente Extrativista (Resex) Mangabeiras Propagandista Uilson de Sá e uma superfície da União concedida à comunidade por meio de um Termo de Autorização de Uso Sustentável. Embora submetidas a diferentes regimes de gestão, as duas áreas formam um único território cultural tradicional, onde as famílias, a maioria formada por pessoas negras, mantêm o extrativismo da mangaba há mais de oito décadas.
A reportagem da Sucursal Brasil visitou a Resex Uilson de Sá no início de junho, durante a 5ª Sarau da Colheita, evento que marcou o lançamento do Projecto de Manejo Popular da suplente. O documento, elaborado coletivamente pelas famílias catadoras de mangaba, com espeque da associação, procura registrar a memória histórica, estimular a conservação da suplente, fazer uma cartografia ecológica e subsidiar a gestão participativa do território.
“O projecto de manejo foi uma maneira que a gente encontrou, junto com a comunidade, de reorganizar todo mundo em torno da ininterrupção da luta em resguardo do território. A gente ficou com terror de a prefeitura de Aracaju surgir com um projecto pronto e impor regras que não tinham zero a ver com a comunidade”, explica Leandro Sacramento Santos, divulgado porquê Pel, da Associação Raízes, que presta assessoria a comunidades tradicionais em Sergipe.
Uma das controvérsias com a prefeitura, por exemplo, é sobre transformar a Resex em um parque urbano lhano, o que, segundo as catadoras, poderia descaracterizar completamente a finalidade da unidade de conservação, criada para proteger o modo de vida e o uso sustentável do território por famílias extrativistas.
“Quando o Estado vier erigir o projecto de manejo, a comunidade já sabe o que quer”, aponta Raquel Fernandes, crítico da Embrapa Tabuleiros Costeiros, sobre a iniciativa popular.
Traumatismo coletivo
O próprio processo que levou à geração da suplente foi marcado por uma série de violações de direitos que quase extinguiu a atividade extrativista em Aracaju. O agravamento dos conflitos começou quando o progressão da expansão urbana da capital sergipana, a partir dos anos 2010, passou a ocupar secção do território tradicional das catadoras de mangaba, com a implantação de empreendimentos de habitação e a supressão de áreas de coleta.
Segundo lideranças comunitárias e apoiadores da associação, a suplente extrativista foi demarcada pela prefeitura porquê secção das condicionantes ambientais exigidas para o financiamento, pelo Banco Mundial, do conjunto habitacional implantado no Bairro 17 de Março, exatamente ao lado da suplente. Embora tenha representado um progressão no reconhecimento do território, a comunidade afirma que a unidade foi instituída posteriormente a devastação de centenas de árvores de mangaba e não contemplou toda a superfície tradicional utilizada pelas famílias extrativistas.
Foi nesse cenário que ganhou destaque a atuação do propagandista católico Uilson de Sá, que organizou as famílias extrativistas em resguardo das mangabeiras e do recta de permanência no território, a partir de 2014. Ao mesmo tempo, também buscou contemplar a luta por moradia popular, estabelecendo regras de convívio entre os grupos sociais vulneráveis envolvidos no conflito territorial.
“O que a comunidade propunha era que existisse uma união da luta dos extrativistas com os sem-teto para tutelar a suplente e lutar por moradia”, relata Pel. “Mas o Poder Público acabou estimulando a luta de pobres conta pobres”, denuncia.
Apesar da tentativa de conciliação das lutas populares, Uilson de Sá acabaria sendo encontrado morto com sinais de violência, em novembro de 2022, em sua mansão, em superfície próxima da suplente. Por sua luta e as ameaças que sofria, ele chegou a fazer secção do Programa de Proteção a Defensores dos Direitos Humanos (PPDDH), do Ministério dos Direitos Humanos e Cidadania (MDH), em que era escoltado pela polícia em algumas atividades.
Questionário da Polícia Social de Sergipe, revisado pela Polícia Federalista (PF), concluiria, no entanto, que a morte não teria sido um homicídio, mas decorrência de asfixia por estrangulamento autoprovocado, de maneira eventual. Uilson tornou-se um símbolo da luta das catadoras, que deram seu nome à suplente extrativista.
O propagandista era rebento mais velho de Rosenaide de Sá, a dona Zenaide, uma das catadoras e matriarcas mais antigas da região. Ela conta que, mesmo posteriormente a geração da suplente, as extrativistas não sentem plena segurança, e moradores da região ainda falam sobre novas ocupações. “Continuam nos ameaçando”, revela.
Dona Zenaide recorda que a superfície atualmente ocupada por conjuntos habitacionais era anteriormente repleta de mangabeiras. Catadora experiente, ela tem percebido a dificuldade de desenvolvimento das vegetalidade que sobraram no território, principalmente aquelas mais próximas da superfície urbana.
A falta de uma vegetação de amortecimento entre a floresta de mangabeiras e os prédios residenciais reduz a presença de mariposas que atuam na polinização do fruto e diminui drasticamente a produtividade das árvores. “A mangabeira é muito sensível, e o balanço dos carros [que passam na rua] interfere”, analisa.
Serviços ambientais
Rica em vitamina C, fibras e compostos antioxidantes, a mangaba é um fruto nativo do Brasil, de sabor agridoce, com formato oval e coloração amarelada com manchas avermelhadas. O nome é de origem da língua indígena tupi e significa “coisa boa de consumir”. Além de nutrir e gerar renda, integra o patrimônio cultural e a sociobiodiversidade de diversas comunidades tradicionais do Nordeste e de outros biomas do país, porquê o Condensado.
O ofício das catadoras de mangaba e a própria espécie nativa da fruta são considerados, por lei estadual, patrimônios culturais de Sergipe. “Quem é sergipano não vive sem mangaba, sem o suco da mangaba”, destaca Raquel Fernandes, da Embrapa.
“Essa superfície cá é uma das únicas de Aracaju com esse mata, essa superfície verdejante contínua, em que que gente consegue respirar um ar um pouco mais fresco. Essa mulheres são guardiãs da biodiversidade, considerando toda a secção cultural [do ofício], toda cultura da nossa dieta também tradicional. Elas efetivamente produzem um favor que não tem preço para a sociedade”, acrescenta.
Apesar desse serviço socioambiental prestado pela comunidade, a histórica redução do território extrativista das mangabeiras de Aracaju e em outras regiões do estado revela uma perda de protagonismo de Sergipe na produção do fruto. Durante muitos anos, o estado foi o principal produtor de mangaba do país – posição que chegou a concentrar mais da metade de toda a produção pátrio.
Mas, nos últimos anos, de contrato com os dados mais consolidados do Instituto Brasílio de Geografia e Estatística (IBGE), referentes à Pesquisa da Extração Vegetal e da Silvicultura (Pevs) de 2023, Sergipe ocupa a quarta posição pátrio na produção extrativista de mangaba, detrás da Paraíba, do Rio Grande do Setentrião e de Minas Gerais, respectivamente.
Uma das conclusões apontada por especialistas para esse resultado é justamente a redução dos remanescentes de mangabeiras, provocada pela expansão urbana e por mudanças no uso do solo, que afetou a base territorial do extrativismo tradicional.
“Você romantiza a mangaba porquê símbolo do estado, mas o próprio Poder Público fomenta um processo de extinção da cultura associada a ela”, critica Cristiane Campos, professora do Departamento de Economia e da Pós-Graduação em Geografia da Universidade Federalista de Sergipe (UFS), que acompanha o trabalho das catadoras de mangaba em Sergipe.
A docente também ressalta que, vivendo porquê vivem e tendo seu território protegido, as catadoras já prestam uma “enorme tributo socioambiental” à sociedade sergipana.
“A mangaba representa tudo. É da mangaba que a gente tira o nosso sustento. Além de a gente estar protegendo a natureza, a gente faz várias coisas com a mangaba”, resume Maria Eliene Santos, a presidente da associação das catadoras.
A extrativista conta que que aprendeu a coletar ainda gaiato, e que o conhecimento é transmitido entre gerações. Não só da coleta da mangaba vivem as famílias, mas também dos diversos produtos feitos a partir do processamento do fruto, porquê geleia, licor, biscoito, bolo, pão, vinagre e vinho.
Cenários
Na elaboração do Projecto de Manejo Popular da Resex Uilson de Sá, as famílias extrativistas projetaram diferentes cenários para fortalecer a cultura da mangaba no território. Entre as propostas, está a construção da Lar da Mangaba, unidade que seria o núcleo de beneficiamento do fruto, para a fabricação de derivados. O espaço também serviria para a instalação do museu da mangaba e da novidade sede da associação, que atualmente está em um imóvel alugado.
Outro cenário prevê o desenvolvimento de atividades de turismo de base comunitária na região. A teoria é permitir que visitantes conheçam a história das catadoras e seus conhecimentos tradicionais, incluindo a culinária e os processos de beneficiamento associados à mangaba.
As atividades de turismo comunitário ainda poderiam colaborar para o aumento da renda das famílias extrativistas em períodos de entressafra, principalmente entre os meses de julho e novembro. Muitas dessas mulheres acabam tendo que trabalhar porquê diaristas e fazer outros serviços para não ficarem em uma situação ainda mais vulnerável.
A comunidade reivindica também a inserção em políticas públicas que impulsionem o negócio da fruta, porquê o Programa Pátrio de Sustento Escolar (Pnae) e o Programa de Obtenção de Vitualhas (PAA), o que daria ainda mais firmeza econômica às catadoras.
Posição do Poder Público
Procurada, a prefeitura de Aracaju explicou que a elaboração do projecto de manejo da suplente extrativista depende da indicação de nomes de representantes das catadoras para imaginar o recomendação que definiria os contornos da norma. Segundo a governo municipal, não há tratativas sobre transformar a Resex em parque municipal de entrada público, “até mesmo pela sensibilidade do território”.
A prefeitura também garantiu espeque na construção de uma unidade de beneficiamento da mangaba na superfície da suplente. “Existe um projeto arquitetônico com recurso confirmado. O projeto foi desenvolvido e será executado pela Empresa Municipal de Obras e Urbanização (Emurb), da Prefeitura. Ele foi revisado pelas catadoras e foram utilizados modelos de estabelecimentos de contrato com as necessidades que elas informaram”, destacou a governo da capital sergipana.
Sobre a preocupação com segurança e novas invasões no território das mangabeiras, a prefeitura informou não subsistir denúncia formal nos canais oficiais do município, mas que a fiscalização é contínua.
“A gestão realiza fiscalizações ambientais por meio da Sema [Secretaria Municipal do Meio Ambiente] e a Guarda Municipal intensificou as rondas. A Secretaria Municipal da Família e Assistência Social (Semfas) realiza um levantamento das famílias que possuem cavalos no residencial de frente à Resex para que seja realizada a construção de uma baia comunitária, com a finalidade de reduzir animais amarrados nas grades da Resex que espantam os polinizadores com mau cheiro e desordem. A Prefeitura foi responsável pelo cercamento da superfície da Resex, oferece a estrutura da Secretaria da Mulher para escuta ativa das mulheres, além do espeque contínuo na guarda”, observou.
Ainda na nota à reportagem, a prefeitura de Aracaju defendeu que a autonomia das catadoras sobre o território está sendo respeitada e ponderou que a prosperidade da suplente depende das ações para erigir uma unidade de beneficiamento do fruto e o funcionamento regular do recomendação gestor da superfície.
*A equipe da Sucursal Brasil viajou a Sergipe, entre os dias 5 e 7 de junho de 2026, a invitação no Ministério do Meio Envolvente e Mudança do Clima (MMA).














