“Labareda-se futebol, não soccer.” A provocação da federação belga de futebol aos Estados Unidos, depois da goleada que eliminou os donos da morada na Despensa do Mundo de 2026, reacendeu a discussão sobre o nome do esporte mais popular do mundo —muro de 3,5 bilhões de fãs e praticantes amadores no planeta.
A publicação da Bélgica na rede social X se deu na esteira da interferência de Donald Trump para que a Fifa retirasse a suspensão a Folarin Balogun. O atacante americano foi expulso na temporada de 32 depois ingressão potente no tornozelo de jogador da Bósnia. O presidente dos EUA admitiu o pedido feito à Fifa.
Além do trote sobre o justador derrotado, a mensagem belga apela à tradição nas entrelinhas, uma vez que se dissessem: “Isso que vocês começaram a jogar outro dia e chamam de ‘soccer’ é um velho sabido nosso, e o nome é ‘football’”.
O deboche pode fazer ainda mais sentido para quem vive onde se adota o segundo termo. Isto é, nos países das Américas do Sul e Medial e da Europa.
Mas o termo “soccer” é contemporâneo ao “football”. As expressões coexistem no Reino Uno desde o século 19, e os britânicos são os responsáveis, portanto, pela confusão linguística que persiste nos dias atuais. E em mais de um linguagem.
“Football era um termo genérico para um tipo de jogo recreativo do Reino Uno. Cada lugar jogava de um jeito”, diz Ubiratan Leal, jornalista e comentarista dos canais ESPN. Jogar futebol, portanto, significava tanto quanto proferir que iria “chutar globo por aí”.
O TERMO ‘SOCCER’
Com o tempo, três modalidades principais se desenvolveram a partir de regras criadas em locais específicos do Reino Uno. Ainda assim, “football” era sinônimo de futebol gaélico (praticado na Irlanda), de rúgbi (a cidade onde nasceu) e, por termo, do esporte padronizado pela associação inglesa de futebol.
O último se refere à FA (Football Association, em inglês), órgão que regula o futebol britânico até os dias atuais. A entidade organiza a Premier League e a Despensa da Inglaterra, disputadas por Manchester United, Chelsea e Liverpool, por exemplo. Esse é também o esporte que se consolidou uma vez que paixão pátrio em quase todos os países da América Latina, consagrando nomes uma vez que Pelé e Maradona.
Para diferenciar o esporte regido pela FA, os ingleses foram criativos. Pegaram o trecho ‘soc’ da vocábulo “associação” e adicionaram ‘er’ ao termo do diminutivo. “Estudantes de universidades uma vez que Oxford e Cambridge tinham o hábito de fabricar apelidos com esse sufixo”, explica Carina Fragozo, doutora em linguística e professora de inglês. Ela conta que a prática não se limitou à modalidade da FA. “No caso do rúgbi, também diziam ‘rugger’.”
Uma hipótese para a mudança tão drástica é que “associationer” não era sonoro, mas “assocer” e, posteriormente, “soccer”, sim. A corruptela estava criada.
“Uma das mais tradicionais revistas de futebol da Inglaterra é a World Soccer, que existe até hoje”, lembra Ubiratan Leal. “Na Despensa de 1966, o futebol já estava consolidado uma vez que o maior esporte entre os que usam esse nome.” A queda do termo “soccer” na Inglaterra coincide com o Mundial da Fifa, sediado pelos ingleses e vencido por eles.
O esporte praticado por Geoff Hurst e Gordon Banks passou a ser chamado pelos britânicos, de uma vez por todas, de “football”, sentença que foi assimilada por outros idiomas uma vez que português, espanhol, teutónico, russo e galicismo, por exemplo.
DÁ PARA COMPLICAR
Ex-colônias britânicas uma vez que Estados Unidos, Austrália e África do Sul foram adeptas do rúgbi muito antes de jogarem o futebol da globo redonda, em que unicamente o goleiro pode agarrá-la. Nesses países, o esporte da globo oval, passada para trás, ainda podia anteder pelo sobrenome idoso, “football”.
Algumas regiões também mantiveram a tradição britânica de fabricar modalidades próprias, a exemplo dos futebóis americano e australiano —mais ágeis e menos truncados, ainda que influenciados pelo rúgbi. Esses esportes também passaram a ser chamados por populações locais de “football”. Por essa razão, Ubiratan Leal afirma que a sentença “caiu no limbo” nesses lugares.
No caso da África do Sul, onde os esportes das bolas redonda e achatada são praticados há muito tempo, o futebol de Pelé e Maradona ficou “soccer”, para evitar mais confusão.
Na Austrália e na Novidade Zelândia, também existem duas modalidades oficiais de rúgbi —Union, que atende aos padrões internacionais; e League, ajustado para a preferência dos habitantes das duas ilhas.
Mesmo assim, os australianos não se dão por satisfeitos com tantos nomes à disposição. “O futebol australiano já vem sendo chamado de ‘footy’ e abre margem para o nosso futebol deixar de ser ‘soccer’ por lá”, concluiu Ubiratan Leal.





