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'Cem Anos de Solidão': série acerta ao focar tom político
Celebridades Cultura

‘Cem Anos de Solidão’: série acerta ao focar tom político – 08/08/2026 – Ilustríssima

[RESUMO] Um dos principais livros da literatura mundial, “Século Anos de Solidão” (1967) foi sempre tido porquê um romance impossível de conciliar, opinião compartilhada também por seu responsável, o colombiano Gabriel García Márquez. É uma surpresa, portanto, que série da Netflix, que chega ao término neste mês, tenha tantos méritos. Sem tentar competir com o livro, produção é leal à arquitetura de sua trama e faz escolhas exitosas ao compreeender que, mais que simplesmente uma saga familiar em tom fantástico, o romance é uma reflexão sobre os impasses da América Latina e a passagem do tempo.

Poucos romances parecem tão inseparáveis da imaginação de seus leitores quanto “Século Anos de Solidão”. Na segunda metade da série adaptada do livro, que estreia agora na Netflix, os acontecimentos importam menos do que a sensação de que o tempo passou a remoinhar sobre si mesmo e a repetir-se.

Os muitos José Arcadios e Aurelianos não confundem unicamente quem lê. Eles existem para lembrar que cada geração acredita inaugurar uma história novidade quando, na verdade, revive paixões, erros e desejos herdados das anteriores.

É essa segunda metade do romance, mais filosófica, mais política e também a mais difícil de conciliar, que chegou agora ao streaming, encerrando a produção baseada na obra máxima do Nobel colombiano Gabriel García Márquez (1927-2014). Depois a primeira leva de oito episódios em 2024, mais sete foram liberados. O oitavo e último dessa segunda secção estará disponível em 26 de agosto.

Depois da instauração de Macondo, a cidade em que se passa a história, e da subida dos Buendía, acompanhamos a lenta desagregação da família, um dos finais mais extraordinários da literatura do século 20.

A responsabilidade de conciliar essa lanço da história também foi sentida pelo elenco. “Nunca me imaginei trabalhando numa série porquê essa. Me cobrei muito porque essa passagem de geração dos Buendía é muito significativa”, diz Mulato Borja, tradutor do mago Melquíades, personagem que acompanha a trajetória da família do início ao término e funciona porquê uma espécie de guardião da memória de Macondo.

García Márquez resistiu por muito tempo à teoria de vender os direitos do romance ou de autorizar adaptações para outros formatos. Não por obstinação, mas sim pela certeza de que certos livros existem justamente porque cada leitor os imagina de modo dissemelhante. Macondo nunca foi unicamente uma cidade. Foi sempre a cidade que cada um construiu dentro da própria cabeça.

A decisão de conciliar o livro para uma série de TV foi tomada pelos filhos do jornalista, Gonzalo e Rodrigo, porquê uma forma de também festejar o centenário de promanação de Gabo, que se completa no ano que vem.

O crítico americano A. O. Scott, do New York Times, chegou a tutorar que “Século Anos de Solidão” talvez nunca devesse ser transposto para cinema ou TV. Em vez de enfrentar Macondo, dizia ele, seria mais razoável conciliar o livro “Notícia de um Sequestro” (1996), grande reportagem de García Márquez cuja estrutura jornalística encontraria uma tradução muito mais proveniente na linguagem audiovisual.

Adaptações anteriores de livros de Gabo não provocaram excitação. Nem “Crônica de uma Morte Anunciada” nem “O Paixão nos Tempos do Raiva” conseguiram preservar nas telas aquilo que fazia dos romances experiências literárias únicas. Pareciam confirmar que García Márquez pertencia à família de escritores cuja obra simplesmente resiste à imagem.

Talvez por isso a surpresa agora seja maior. Há muito valor na adaptação, pois ela se arrisca a bancar enfoques e a dar mais detalhes e cor política aos personagens.

Ou seja, a série acerta mais do que erra justamente porque parece compreender seus próprios limites. Em nenhum momento tentou competir com García Márquez. Procurou erigir uma versão visual de um romance que continuará pertencendo, antes de tudo, à literatura.

A mudança de tom nas duas partes da série acompanha de perto a arquitetura do romance.

Se a primeira metade de “Século Anos de Solidão” era quase um gênesis latino-americano, acompanhando a invenção de Macondo, a chegada dos ciganos, do gelo, das guerras civis e das primeiras descobertas, a segunda passa a narrar outra história: a do desgaste do tempo.

Macondo deixa de ser um lugar onde tudo nasce. Passa a ser um lugar onde tudo retorna. O horizonte deixa de indicar para a invenção e passa a repetir, com pequenas variações, aquilo que parecia já ter realizado.

É nesse momento que entram em cena os gêmeos José Arcadio Segundo e Aureliano Segundo. Laura Mora, que dirige cinco dos sete episódios finais e falou por videoconferência com a Folha, define esta novidade lanço porquê “a mais política” da narrativa. Também a resume numa frase particularmente feliz: “é o término da utopia”.

A frase ajuda a compreender o movimento do livro.

Os vários José Arcadios e Aurelianos não constituem unicamente um recurso narrativo. São a frase mais visível de um romance em que a história parece condenada a repetir os próprios ciclos. Os Buendía tentam evadir do rumo. Quase nunca conseguem. Essa repetição não é unicamente familiar, mas também histórica.

Na segunda metade do romance, a história dos Buendía deixa de satisfazer a si mesma. Macondo passa a condensar boa secção da experiência latino-americana do século 20.

A chegada da ferrovia, celebrada inicialmente porquê sinal de progresso, abre caminho para uma empresa multinacional que comercializava frutas tropicais, sobretudo bananas. E com ela vem também um novo tipo de poder: o do capital estrangeiro, da exploração econômica e da violência institucional.

Nesse trecho García Márquez recria literariamente um incidente traumático da história colombiana —o massacre dos trabalhadores da United Fruit Company, em 1928— e faz dele um dos momentos mais devastadores da literatura latino-americana.

O massacre marca o momento em que o romance deixa de ser unicamente a saga de uma família extraordinária para dialogar diretamente com a história da América Latina. Macondo passa a simbolizar um continente atravessado por interesses estrangeiros, modernizações impostas de cima para inferior e sucessivos ciclos de autoritarismo, desigualdade e apagamento da memória.

A diretora Laura Mora demonstra compreender essa dimensão histórica. Para reconstruir a chegada da empresa bananeira, a produção optou por filmar exatamente na região colombiana em que a United Fruit se instalou, reconstruindo inclusive o bairro talhado aos funcionários americanos.

Não se trata unicamente de um pormenor de produção. É uma maneira de lembrar que o romance está profundamente enraizado na história da Colômbia.

Também labareda a atenção no projeto o novo lugar ocupado por Úrsula Iguarán. Marleyda Soto, uma das atrizes que interpretam a personagem em diferentes fases da vida, diz que o maior duelo foi erigir, em conjunto com as demais intérpretes, uma mulher de traços tão marcantes.

Laura Mora afirma que quis “reconectá-la” ao rumo de Macondo. Aos 104 anos, Úrsula deixa de ser unicamente a matriarca da família. Torna-se quase a memória viva da cidade, a personagem que assiste, impotente, ao desmoronamento do mundo que ajudou a erigir.

Trata-se de uma escolha que altera discretamente a jerarquia do romance. Em García Márquez, Úrsula permanece o verdadeiro eixo da narrativa: matriarca, consciência moral da família e a única personagem capaz de transpor quase toda a história de Macondo sem perder a lucidez diante da repetição dos destinos.

À medida que Macondo envelhece, o verdadeiro protagonista da narrativa deixa de ser qualquer personagem. Passa a ser o próprio tempo. E poucos romances fizeram do tempo um personagem com tanta força quanto “Século Anos de Solidão”.

Talvez seja esse o maior duelo da adaptação: deixar de lado o realismo mágico —convertido, ao longo das décadas, quase numa caricatura pelas inúmeras imitações que inspirou— e transmitir essa estranha sensação de que tudo já aconteceu antes e, ainda assim, continua acontecendo diante de nossos olhos.

Nesse sentido, a série demonstra compreender alguma coisa precípuo: Macondo nunca foi unicamente um lugar fantástico. É também uma versão da Colômbia e da América Latina, além de uma reflexão sobre a incapacidade humana de evadir ao tempo histórico que lhe coube viver.

A boa notícia é que a série não compete com o livro. Cada qual segue as regras de seu gênero. Se conseguir levar uma novidade geração de leitores ao romance, terá realizado alguma coisa que poucas adaptações conseguem, devolver-nos ao texto que lhes deu origem.

Folha

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