A morte de um dos integrantes do elenco fez a Cia. Mungunzá cogitar o cancelamento das apresentações da peça “Cena Ouro – Epide(r)mia” no Fit, o Festival Internacional de Teatro de São José do Rio Preto, no último final de semana.
A decisão, depois reuniões, foi a de manter a agenda e transformar o espetáculo em uma homenagem ao poeta e ativista social Cleiton Ferreira, publicado uma vez que Dentinho, morto aos 47 anos, no dia 27 de junho.
As duas apresentações no interno paulista foram as primeiras sem ele, que chegou a morar na Cracolândia, uma figura marcante no espetáculo e na convívio com a trupe de artistas.
“Foram duas apresentações dificílimas”, diz Marcos Felipe, integrante da companhia. Público e artistas choraram nas cenas em que o grupo reflete sobre a relação com a população de rua no entorno do velho Teatro de Contêiner, ocupado em 2017 e demolido pela Prefeitura de São Paulo em março deste ano.
As diretoras Cris Rocha e Tânia Granussi fizeram mudanças para prometer a presença cênica de Dentinho, mostrando uma vez que era a participação dele na peça.
Em uma delas, um vídeo mostra quando o ativista narra alguns momentos de sua prisão depois roubar um livro. “Se for para ser recluso por pretexto de um livro, que assim seja”, disse a um juiz durante uma audiência. “Estou cá com um livro em mãos para saber quais são os meus direitos e terminar a minha história.”
Também chamado de “professor das ruas”, Dentinho afirmava ser um sobrevivente do cárcere e da vida sem teto. Teve uma secretária de livros, trabalhou para ajudar dependentes químicos a reduzir danos no Núcleo de Convívio é de Lei, foi representante de saúde mental do Estado de São Paulo, ator e artista plástico.
Ele morreu depois procurar ajuda em uma unidade de saúde da região médio da capital paulista. Estava com dificuldade para respirar. O atestado de óbito aponta enfisema pulmonar uma vez que pretexto da morte.
Pândego, Dentinho emendava um “ainda não sei por quê” ao se apresentar usando o sobrenome. Em seguida, dava risada porque a razão estava literalmente na faceta, os dentes projetados para frente.
“Faltam palavras para descrever a dor dessa perda, seguiremos abrandando a tristeza, pois a alegria era sua marca registrada. Vamos seguir seu parecer e ‘trespassar dessa rua escura’”, lamentou a direção do Núcleo de Convívio é de Lei.
Para o deputado estadual Eduardo Suplicy (PT), Dentinho foi um símbolo de resistência e de reinvenção.
Nas apresentações no festival de Rio Preto, outra homenagem foi realizada pela atriz Virginia Iglesias, que contracenava com o ator, cada um dentro de uma bolha, em um embate de classes.
Dessa vez, a bolha dele estava vazia e, enquanto era esvaziada, Iglesias contou que Dentinho relatava, nesse momento da peça, o dia em que perdeu a visão do olho esquerdo depois ser atingido por uma petardo de gás atirada pela polícia.
“Logo ele que gosta tanto de ler. Segurança para quem? Cidade alerta para quem? Vidas editadas. Cá é a luz”, ela diz. No final da cena, ele gritava a termo liberdade.
O espetáculo “Cena Ouro – Epide(r)mia” foi criado em conjunto pela Cia. Mungunzá e moradores da região da Cracolândia, a partir de histórias vividas no território. “Borave!”, dizia Dentinho, uma vez que uma marca registrada de seu bom humor.
A vida dele foi uma das retratadas no documentário “Fluxos” (2022), de Bruno Rico. Em uma das gravações, ele prova que os moradores de São Paulo não têm o hábito de falar bom dia. Dentinho contava que ficou invisível ao morar na rua, no entanto, conseguia enxergar a cidade com lucidez.
Em outra gravação, ele mostrou o quarto em que morava e lembrou o período em que viveu nas ruas, sem tomar banho, usando drogas, porém, com a sensibilidade mantida. “Eu havia perdido a autoestima, o paixão a mim mesmo”, afirmou.
O corpo de Dentinho foi localizado por amigos três dias depois a morte, no IML (Instituto Médico Legítimo). Nas apresentações no festival de teatro, ele é um dos nomes citados na última cena, em que cobertores aparecem jogados nas ruas, simbolizando vidas perdidas.
“Ele era mais um que foi procurar cuidados e morreu”, disse o personagem interpretado pelo ator Lucas Bêda.
As apresentações em Rio Preto aconteceram na sexta (17) e no sábado (18), no Teatro Municipal Paulo Moura. O festival continua até o dia 25.
A jornalista viajou a invitação do festival.





