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Burle Marx espelha diáspora judaica com plantas exóticas 20/07/2026
Celebridades Cultura

Burle Marx espelha diáspora judaica com plantas exóticas – 20/07/2026 – Ilustrada

De bromélias exóticas a arbustos raros, dezenas de vegetação carregam o nome de Roberto Burle Marx, que revolucionou a construção de parques e jardins públicos no Brasil. Fruto de uma pernambucana e de um judeu boche, as raízes do artista já anunciavam sua vocação para reunir espécies nativas e estrangeiras em seus projetos.

É desse debate sobre pluralidade que segmento a exposição “Vegetalidade em Movimento” ao reunir desenhos e quadros do paisagista no Museu Judaico, em São Paulo. Sem ordem cronológica, a mostra permite andejar livremente pelas folhas, caules e troncos retratados por Burle Marx, em uma dinâmica próxima à que ele propunha entre o varão e o espaço.

Isso porque seu trabalho aproximava a natureza e o universo urbano, independentemente das origens ou de hierarquias entre vegetais mais ou menos nobres. “Ele estendeu a nobreza a espécies brasileiras, num tempo em que predominavam jardins ingleses e franceses”, explica o arquiteto Guilherme Wisnik, que assina a curadoria junto de Isabela Ono.

“Ia na contramão das fachadas das casas europeias e trazia avante o que ficava no fundo do quintal.”

Exemplo disso é o jardim da antiga residência Walther Moreira Salles, no Rio de Janeiro, que o artista idealizou nos anos 1950 para acomodar a morada do logo legado. Croquis e fotos tornam palmeiras-açaí e árvores pau-mulato, historicamente reduzidas a mato, em protagonistas imponentes do sítio, que hoje abriga o Instituto Moreira Salles.

Outras obras em destaque, uma vez que o Aterro do Flamengo, multíplice de lazer onde a flora exótica e pátrio coexistem, e o venezuelano Parque Del Nascente, envolvente recreativo que prioriza vegetação tropicais, também atentam para esse estabilidade.

Pouco importa se tais registros se manifestam por traços realistas, concentrados em mapas e desenhos de paisagismo, ou pinturas que embaralham cores vibrantes e flertam com jardins fantasiosos —todos os projetos buscam nivelar a humanidade e a riqueza ambiental.

“O mundo sem a vegetal seria um deserto. Cada vegetal, para mim, é uma sentença de vida”, afirma o paisagista num dos vídeos da exposição. A produção reúne depoimentos dele próprio, pelos quais compartilha desejos e narra expedições que dividia com botânicos, arquitetos e outros especialistas.

Segundo Wisnik, a pesquisa de campo é uma face do artista que nem sempre é explorada. Foi com base nessas andanças que ele se especializou em biomas brasileiros e construiu o sítio em que morou até o término da vida.

Já o vídeo da sala ao lado aposta em um estilo mais experimental, com uma narração do estudioso Daniel Jablonski sobre vegetação que receberam o nome de Burle Marx. Flashes luminosos e outros ruídos visuais, em planos sempre muito próximos dessas espécies, criam uma atmosfera onírica, enquanto o realizador investiga a árvore genealógica do artista.

O filme aborda a dificuldade por trás das heranças religiosas do paisagista, que se considerava ímpio. Mesmo assim, diz o texto curatorial, seu apego à mistura do nativo com o exótico, num período em que o Brasil se afastava do colonialismo para identificar sua imagem pátrio, reflete dilemas da diáspora judaica.

Provocada por perseguições históricas, que vão da expansão do Predomínio Romano ao extermínio de milhares no Sacrifício, a dissipação forçada dos judeus resultou em variações do judaísmo pelo mundo.

Mesmo nos fundos da mostra, uma parede que traduz essa variedade labareda a atenção logo na ingresso. O mural é formado por fotografias de vegetação grafadas com a terminação “burle-marxii” ou que marcaram a trajetória do brasílio. São cores vibrantes e estruturas diversas que vieram de regiões uma vez que a América do Sul, a África e a Oceania.

“Burle Marx pode ser considerado o inventor do jardim tropical, mas ele não era extremista quanto a isso”, diz Wisnik. “Ele contribuiu para uma teoria de identidade que não era xenófoba, mas ensejo ao estrangeiro e às trocas culturais e dissociada do purismo.”

À luz da guerra entre Israel e a organização terrorista Hamas, que tem dividido o mundo entre acusações de antissemitismo e manifestações contra o tropa israelense —um dos principais motivos é a diferença de forças entre o país e a população palestina—, o curador explica que a mostra tenta se alongar de visões simplistas.

“Israel está no núcleo de uma geopolítica muito complicada e de que saem consequências político-ideológicas para todos os lados”, diz. “O pensamento binário é muito acentuado pela lógica das redes sociais, que induz muitos à teoria de que é preciso escolher um lado entre dois adversários.”

“Nessa exposição, nos esforçamos para explorar um lado mais multíplice, que trata questões do tipo com mais nuances.”

Folha

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