Cirque du Soleil traz ao Brasil nova versão de um clássico – 07/06/2026 – Ilustrada
A morte de um rei leva um reino distante à disputa. De um lado, um truão da galanteio cobiça o trono junto de aristocratas egoístas. Do outro, jovens militantes se juntam para enfrentar o conservadorismo.
Esse duelo entre o velho e o novo não é inédito. O Cirque du Soleil concebeu “Alegría” ao comemorar dez anos, em 1994, e fez do título um sucesso, com números mirabolantes que firmaram o estilo do grupo e uma música-tema que chegou até o Grammy.
Em agosto, o espetáculo retorna a São Paulo com uma versão repaginada, dois anos depois de “Crystal”, primeiro músico no gelo da companhia, vir ao Brasil. O excesso barroco dá lugar a figurinos leves, batidas eletrônicas e projeções modernas que alimentam um cenário interativo.
O projeto revê o show clássico e, apesar de ingressos de até R$ 1.475, procura proximidade com todos os setores da tenda. É o que diz o palhaço Thiago Andreuccetti, um dos sete brasileiros da produção. Em cena, o paulista e um parceiro contextualizam o embate e aliviam a tensão de coreografias perigosas.
No processo, brigam, fazem as pazes e dividem piadas com a sua amizade imperfeita. “A inspiração vem das emoções humanas”, afirma o artista, que dedicou anos ao teatro antes de se juntar à trupe.
“O público se aproxima por motivo das fraquezas. O palhaço é quem fracassa, tropeça e não está capaz a certas conquistas. Porquê os números são de tirar o fôlego, elevam os humanos a um estado divino, é proveniente que as pessoas se identifiquem com esses tontos.”
Apesar da narrativa consagrada, são os saltos dos trapezistas, giros velozes em bambolês, corpos de flexibilidade inimaginável, bastões flamejantes e faixas que levantam dançarinos que se destacam em “Alegría”.
Encenações do tipo estão no cerne da iniciativa canadense há mais de quatro décadas, quando a geração do Cirque bebeu da vaga de megashows e se propôs a rever o picadeiro uma vez que um pilar do entretenimento.
Hoje, há figuras do mundo todo entre os responsáveis pelas apresentações musicais —as de “Alegría”, inclusive, usam uma orquestra ao vivo—, pelo “Cirquish”, dialeto privativo que costura idiomas diferentes e palavras inventadas, e pelas acrobacias que impressionam milhares de espectadores.
Dessa vez, as últimas ocupam uma enorme diadema de espinhos, onde o trono ermo permanece no topo e vários trampolins se escondem sob o pavimento. O cenário e as danças, aliás, se adaptam conforme os confrontos entre a juventude e a galanteio.
Em oferecido momento, por exemplo, aristocratas se apoiam em lanças compridas e sobem nos ombros uns dos outros. A precisão dos movimentos, a rigidez das armas e a profundidade que alcançam transmitem o poder que a fidalguia almeja.
Mais tarde, porém, uma leito elástica em forma de cruz situa uma guerra de cambalhotas, em que revoltosos superam tiranos e traduzem a robustez pulsante das ruas. A partir daí, a trama intercala lutas coletivas e duelos com representantes de cada tropa.
Entre os mais famosos estão os que reúnem duas cantoras, diferenciadas por roupas brancas e pretas. O esquina conjunto atravessa as brigas e sugere um verosímil estabilidade. No papel da segunda, mulher resiliente que representa o povo, Cássia Raquel defende a atmosfera lúdica uma vez que estratégia para encantar crianças.
“Em tempos de perceptibilidade sintético, zero substitui os suspiros e os sustos que surgem diante desses feitos inimagináveis. A relação com as artes é uma legado que os pais deixam para os seus filhos.”
A cantora carioca compara os esforços físicos exigidos aos do atletismo e põe a brasilidade entre os aspectos que a diferenciam das atrizes de outras temporadas.
O espetáculo de que participa, inclusive, marca vinte anos desde a primeira vez que o circo veio ao Brasil. A estreia por cá aconteceu com “Saltimbanco”, que explora as complexidades urbanas, e “Alegría – Um Novo Dia” é hoje a nona atração em solo vernáculo.
Seja pelo excitação da plateia, seja pela perseverança dos profissionais brasileiros, Raquel diz que a companhia tem visto o país com cada vez mais seriedade. Essa mistura de nações e expressões artísticas, explicam ela e Andreuccetti, recupera o circo enquanto espaço popular e democrático.
“É um espaço lhano a qualquer corpo, cultura e identidade. Quando comecei no teatro músico, em 2010, 90% das notícias falavam de minha negritude. Dava para descrever no dedo pessoas uma vez que eu”, adiciona a artista.
“Hoje, na era das informações, as pessoas veem que esse espaço é para todos. O cintilação no olhar das meninas que se identificam comigo é dissemelhante de tudo que já vi.”





