Clarice Lispector ganha montagem no Teatro Oficina – 19/10/2026 – Mise-en-scène
Olhar de frente para um ovo é aventurar a falência do entendimento. Clarice Lispector sabia disso, e sabia que a tentativa de interpretar o mistério é a forma mais rápida de aniquilá-lo. A única maneira de deixar a coisa viver é fingir que não se olha para ela.
Quando Joana Medeiros e Ana Hartmann decidem levar “O Ovo e a Penosa” ao tablado, não tentam transcrever o intraduzível nem domesticar a prosa para torná-la digerível. Fazem o oposto. Pegam a recusa da explicação e a usam uma vez que pólvora cênica.
O ponto de partida é uma provocação histórica. Em 1975, convidada a falar no Primeiro Congresso Mundial de Bruxaria, em Bogotá, diante de uma plateia faminta por esoterismo e fórmulas mágicas, Clarice subiu ao púlpito e unicamente leu o seu história. Nenhuma pose ritualística, unicamente a vocábulo crua.
A montagem do coletivo “Os Agentes do Ovo” reata esse fio. Hartmann surge sob a névoa documental do congresso, não para imitar o timbre ou o penteado da escritora, mas para reviver aquela mesma recusa ao espetacular. A atriz não representa Clarice. Ela se deixa rasgar por uma crise ontológica que começa numa cozinha qualquer, com a intenção prosaica de fazer uma omelete.
A material do texto permanece intocada. O ovo está ali uma vez que o Ser em sua pureza inacessível, autossuficiente e hermético. Do outro lado, debate-se a penosa, o operário do milagre, o tipo que precisa desaceitar de qualquer consciência própria para prometer a transmissão de um tanto que não entenderá.
No meio, o observador humano entra em colapso. Compreender é falhar. Nomear é perder o objeto. A vocábulo tateia o silêncio, tropeça nas próprias vogais e constata a solidão do pensamento diante do mundo físico.
Em vez de resguardar essa aperto no refúgio seguro de um solilóquio intimista, a direção de Joana Medeiros rompe os bastidores. Cabos, câmeras e operadores de som não se escondem nas sombras: compõem a cena, respondendo ao vivo aos espasmos da fala.
Hartmann equilibra duas forças aparentemente opostas em seu corpo: o rigor do Actors Studio nova-iorquino e o transe dionisíaco nutrido ao lado de Zé Celso. A tradução se apega ao ar que falta nos pulmões. O texto nasce de um esforço físico de expulsão da teoria. A atriz sustenta silêncios desconfortáveis, encara o testemunha e divide com a sala o peso de não saber.
Essa procura por apreender o invisível encontra sua tradução definitiva na material sonora. O que se desenrola no tablado é uma experiência limite da percepção. Ao término, o ovo continua lá, pousado sobre a mesa, indiferente a qualquer exposição, exigindo de nós unicamente a coragem de não saber o que proferir.
Três perguntas para…
… Ana Hartmann
Transpor “O Ovo e a Penosa” para a cena é quase uma recusa à narrativa convencional. Porquê foi o processo físico de transformar a abstração metafísica e o colapso da linguagem do história em ação e tônus muscular?
Na nossa dramaturgia, trazemos Clarice uma vez que personagem: uma escritora que recebe as palavras e as imagens à medida que fala, fazendo da fala uma ação concreta de elaboração do pensamento. Porquê atriz, procuro incorporar a vocábulo com todos os sentidos: paladar, tato, cheiro, visão, som e o terceiro olho.
Percebi que essa Clarice possui uma imaginação tão vívida que chega a ser arrebatadora. O história secção do concreto —”De manhã, na cozinha, sobre a mesa, vejo o ovo —, mas aquele momento dura três milénio anos. O ovo torna-se cósmico, e a cozinha representa toda a vida cotidiana, uma vez que num ritual antigo de afeto. As imagens são tão ampliadas que o gesto inevitavelmente se transforma em trova e dança.
Concretamente, é um trabalho de ativação sensorial, de conexão com o inconsciente e de disponibilidade para se surpreender com o que parece ordinário. O corpo precisa estar inteiramente simples a uma verdade que se transforma a cada vocábulo: é a trova encarnada.
Sustentar o silêncio e o olhar direto para a plateia exige uma grande entrega. Porquê você lida com a vertigem de dividir esse ‘não saber’ com o testemunha a cada sessão?
Existe um dito de que amar significa suportar o desconfortável silêncio do outro. É preciso intimidade para isso, ainda mais na literatura desconcertante de Clarice. Mourejar com essa vertigem exige paixão —que é, por fim, o grande tema do história. Porquê ela escreve: “Paixão é finalmente a pobreza, paixão é não ter”.
Estar em cena é ter a humildade de me tornar translúcida, sem tentar controlar a narrativa, pescando os sentidos na hora. Base-me na fé de que as palavras se resolvem através da trova vivida, tendo o público uma vez que coligado primordial.
Se nem a própria Clarice compreendia o história, admitindo que ele era um mistério para si, quem sou eu para saber um tanto? Não ter e não saber é o nosso estado inevitável diante do texto. Sem se apossar do significado, abre-se um grande despenhadeiro, mas também uma liberdade imensa compartilhada com a plateia.
A Joana propõe uma dramaturgia que recusa atalhos explicativos ou a caricatura de Clarice, tratando o mistério uma vez que material viva. Qual foi a provocação mais desconfortável — ou mais libertadora — que ela colocou para você durante os ensaios?
A Joana buscou uma tradução extremamente humana. A provocação foi acessar a Clarice oculta até para si mesma: seu inconsciente, suas contradições e tudo o que escapa à imagem histórica, composta e burguesa que herdamos dela. No história, ela se admite traidora, fútil, e ao mesmo tempo trata o ovo uma vez que uma teoria revolucionária, que expõe o que gestamos e não podemos revelar.
Vivemos hoje o colapso de estruturas sociais e narrativas universais, e sinto que a libertação exige uma desconstrução dolorosa do próprio ego. Foi preciso lançar essa sombra no despenhadeiro do teatro, mantendo-a em tensão permanente para que um tanto cru pudesse surdir.
Clarice desconcerta porque suas palavras não são levianas. Só quem se permite galgar esse desconforto consegue receber o verdadeiro presente do texto.
Teatro Oficina – Rua Jaceguai, 520, Bela Vista. Segunda e terça, 20h. Até 8/12. Duração: 6o minutos. Classificação indicativa: 14 anos. A partir de R$ 50 (meia-entrada) em sympla.com.br





