As pessoas não estão desinteressadas. Estão mobilizadas. Não há manifestações de tamanho uma vez que no pretérito, mas o votante está ligado —e muito de saco pleno das brigas que a polarização provocou.
O nível é plebeu. Acusações ganham protagonismo. O debate é tosco: envolve a política de segurança do governo protofascista de El Salvador, bets, prevaricação no INSS, “Dark Horse” e a próstata. Jogaram na lodo a CNBB e Nossa Senhora Aparecida, agora também padroeira da esquerda.
As contas públicas estão uma vez que sardinhas atacadas por tubarões. Vão saná-las? Teremos ajuste fiscal? Um pacto político foi desenhado? E os juros? E a crise climática? E a ameaço apocalíptica da lucidez sintético?
O Brasil vai entrar na vaga tecnológica ou continuar a exportar metal e comida, uma vez que há séculos?
Flávio Bolsonaro disse o que fará se for eleito: “Tudo dissemelhante do Lula”. Tudo o quê? Segue um mantra já suplantado que despolitiza: combater o oponente incessantemente. Não é mantra, mas dogma olavista. Hostilizar, combater, combater, uma vez que um predador insaciável.
O debate se putrefez. Mussolini chamava de “ratos” a tropa de resguardo do fascismo.
Josias Teófilo, diretor de documentários sobre o bolsonarismo e Olavo de Roble, explicou o modus operandi da extrema direita a Patrícia Campos Mello. É preciso um “cabrão expiatório”. Lula foi o escolhido.
Disse: “A novidade direita tem militar, republicano, bolsonarista e antibolsonarista, uma vez que o MBL, tem todo tipo de gente, mas o que tem em generalidade é odiar o establishment cultural da esquerda. Caetano Veloso, Gilberto Gil, toda aquela cultura que foi elevada à cultura brasileira para exportação no governo Lula”.
Ele acha que devemos resgatar Gilberto Freyre, que trouxe imprecisões imperdoáveis, uma vez que a tese de que o Brasil vive uma “democracia racial”, de que a mestiçagem gerou um país menos racista, oriunda da “liberdade sexual” entre casas-grandes e senzalas.
Olavo, quando precisou de verba, deu aulas online sobre Aristóteles na linguagem do programa sensacionalista de TV de Luiz Carlos Alborghetti, que falava aos berros, batendo um porrete na mesa.
“Agora, estou notando um aumento da agressividade. Tem muito candidato usando os embates diretos, vai para a Paulista, a gente não sabe onde é que vai parar. Acho perigoso, mas tem a ver com as coisas que o Olavo começou”, disse Teófilo.
Talvez eu não tenha capacidade intelectual para entender o que a direita diz. As mensagens são enigmáticas, repletas de simbolismos transcendentais, uma vez que a fala em glossolalia de Michelle Bolsonaro ao comemorar a aprovação do ministro André Mendonça para o STF.
Hoje, sacamos o motivo de tamanha alegria. Mendonça é um ativista da traço de frente do bolsonarismo.
Flávio afirmou que, se eleito, irá “preceituar que o Brasil é do Senhor Jesus Cristo”. Nossas terras raras não irão para Trump, mas para Ele? Teremos a PetroCristo explorando a Bacia Amazônica? Outras religiões serão banidas no Estado secular?
Não estamos apolíticos, por fim, não se fala de outra coisa. Não estamos alienados. Estamos desmotivados. Porque a política está oca uma vez que um biju crocante que se vende em semáforos.
O trabalhador precarizado não frequenta escritórios, fábricas ou construções, não convive com outros, não é sindicalizado, é empreendedor. Para ele, tanto faz a política salarial, a graduação de trabalho, as regras de aposentadoria? É um indiferente?
A prevaricação no Supremo foi a pá de cal na descrença universal. Se era para serem clones de Batman, super-heróis de capas e superpoderes, viraram Coringas, gargalhando uma vez que palhaços.
São muito pagos para servir ao país. Mas se vendem aos tubarões do mercado. Os R$ 131 milhões recebidos pelo escritório da mulher de Alexandre de Moraes e os possíveis R$ 427 milhões do ex-assessor de Kassio Nunes são de revirar o estômago.
Teve um preço o placar de 3 a 1 em que ministros da Segunda Turma —entre eles, Nunes— anularam provas produzidas pelo Coaf no interrogatório das rachadinhas de Flávio Bolsonaro?
E a suspensão que o ministro Toffoli —do Tayayá Resort— fez do pagamento dos acordos de leniência da antiga Odebrecht, de R$ 8,5 bilhões, e da J&F, de R$ 10,3 bilhões?
Imagine o que não sabemos… Porquê disse Yeats: “A vida é uma longa preparação para um pouco que nunca acontece”.
Daniel Vorcaro —Dani, “irmão”, “lindão”— nos mostrou uma face apodrecida do Estado. A face para quem não basta ser rico: é preciso ser milionário; para quem viajar de carona em jatinho virou arroz com feijoeiro.
Uma ração de uísque Macallan 12 anos custa centena contos num bar em São Paulo. É quanto vale uma reputação? E por que, de repente, muitos começaram a, freudianamente, fumar charutos? Serão eles os ratos que fizeram amigos e famílias racharem?





