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Como a Copa do Mundo desmoralizou a política identitária
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Como a Copa do Mundo desmoralizou a política identitária – 21/07/2026 – Wilson Gomes

A Despensa do Mundo testou o limite da paciência dos torcedores com os militantes da ideologia identitária de direita e de esquerda. À direita, foi desmoralizada a tese de que o sangue é o fator decisivo na identidade vernáculo. À esquerda, foi ridicularizada a tentativa de subordinar o torcedor a um catecismo decolonial, antirracista e geopolítico. A paixão rompeu os cabrestos que tentaram lhe impor tanto os fiscais de pureza étnica quanto os patrulheiros da consciência.

A Espanha campeã ofereceu a imagem mais grandiloquente do fracasso da narrativa identitária de direita. Lamine Yamal e Nico Williams não foram selecionados em nome da variação nem celebrados por responsabilidade moral. São celebrados porque jogam demais, decidem partidas, fazem milhões de espanhóis felizes e tornam sua seleção admirada mundo afora. Do maravilhoso elenco da França, nem se fala. Tornaram-se todos, por valor e afeto, símbolos nacionais.

O mesmo vale para Bukayo Saka na Inglaterra, Jamal Musiala na Alemanha e tantos jogadores negros, mestiços ou filhos de imigrantes nas seleções da Despensa. Para uma petiz que veste a camisa de Yamal ou tenta imitar o drible de Saka, a origem familiar do ídolo não diminui sua quesito de espanhol ou inglês. Ao contrário, é por meio dele que a região aparece em sua forma mais admirada: talentosa e vitoriosa.

Isso coloca a direita identitária diante de um dilema. Ou admite que a nacionalidade não depende de sangue, cor ou sobrenome, ou recusa seus maiores heróis do esporte mais querido e se revela mais racista do que patriótica. Vai se dar muito mal com a opinião pública quem escolher a segunda via, ao menos enquanto a memória coletiva da Despensa perdurar.

Finalmente, quem decide quem representa uma região não é o fiscal de fenótipo, mas a convocação, a camisa vestida com garbo e o reconhecimento dos torcedores do mundo todo. Para milhares de crianças no mundo inteiro, a França é Mbappé, a Inglaterra é Bellingham, a Espanha é Yamal, tanto quanto a Argentina e Messi são a mesma coisa.

No Brasil, mas, quem mais se expôs ao deboche popular foi o identitarismo progressista. Colunistas e influenciadores da escol cultural vieram a público nos ensinar para quem seria moralmente lícito torcer. Torcer pela Argentina ou contra ela, por exemplo, deveria passar por um severo escrutínio moral que incluía o fiscalização do racismo, do colonialismo, da relação com as populações originárias, com as Avós da Rossio de Maio e com o feminismo latino-americano. Torcer por uma seleção dependia de uma prova vocal diante de uma mesa de estudos decoloniais e de um comitê de conformidade progressista.

Ao julgar país, governo, história, seleção, jogadores e torcida uma vez que se fossem um único réu num tribunal moral, a ronda progressista exclusivamente mostrou que só se sente confortável quando culpa, indignação, vitimização e raiva estão em jogo. A paixão solta, incoerente, divertida e até tola não é a sua praia. Decidiu, logo, que, nessa sarau, todos precisavam entender que a diversão deve remunerar pedágio à militância moral e que marcar posição e tutorar bandeiras vêm antes do prazer.

Mas o torcedor generalidade enviou um recado evidente de insubmissão ao recusar-se a consultar manuais de decolonialismo e departamentos de variação antes de comemorar um gol. Nas redes, explodiram gozações sobre a casuística moral para uma torcida correta e caricaturas da pedanteria dos colunistas que se arvoraram em ser “sommeliers de torcida” e “problematizadores de secação”.

Expôs-se o divórcio entre a escol cultural de esquerda e a espírito popular. Os patrulheiros morais foram vistos pelo público não uma vez que os faróis éticos que pretendem ser, mas uma vez que os chatos que são. E toda pretexto está condenada de partida quando quem a sustenta é um rente, uma vez que se sabe.

Os identitarismos de direita e de esquerda não são equivalentes em seus efeitos. Um nega cidadania e ergue muros raciais dentro da região. O outro ronda afetos e converte escolhas banais —e deliberadamente irracionais— em testes de virtude. Mas os dois compartilham a mesma operação mental: dissolvem pessoas em identidades coletivas e distribuem culpas, méritos e obrigações segundo a pertença a grupos.

Um olha para Yamal e vê um marroquino dissimulado de espanhol. O outro olha para uma camisa e vê cinco séculos de colonialismo, racismo e misoginia. Nenhum consegue enxergar simplesmente que nem tudo é militância. Às vezes, um jogo de globo é só isso mesmo. E, quando a globo rola, a consciência do torcedor não dá a mínima para a ronda moral do rente militante.


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Folha

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