A seleção brasileira entra em campo na segunda-feira (29) para enfrentar o Japão na Despensa do Mundo em um duelo que carrega uma relação construída ao longo de décadas. Antes de se solidificar porquê uma das principais forças do futebol asiático, o Japão teve no Brasil uma referência dentro e fora de campo, com influência de jogadores, treinadores e dirigentes brasileiros.
Hoje, o cenário é outro. O Japão chega porquê uma seleção capaz de competir em tá nível, segundo os especialistas ouvidos pela BBC Brasil.
Para Zico, um dos brasileiros que mais contribuiu para a evolução do futebol no Japão, o confronto exige atenção.
“É um jogo em que os dois times propõem jogo. O Brasil precisa ter zelo com a velocidade e a movimentação dos caras, porque eles não param”, afirmou Zico a um podcast no sábado.
“A relação do futebol brasílico com o nipónico é porquê a de professor e aluno, rabino e discípulo”, resume o jornalista esportivo Tiago Bontempo, responsável do livro “Samurais Azuis: a História do Futebol no Japão”. Para ele, a Despensa do Mundo de 1970, a primeira transmitida pela televisão japonesa, marcou o início da aproximação de uma geração de jogadores com o futebol brasílico.
Na dezena seguinte, o Yomiuri, atual Tokyo Verdy, ficou divulgado porquê o “time dos brasileiros” por ter porquê principais nomes Jorge Yonashiro e Ruy Ramos, responsáveis por introduzir um estilo de jogo fundamentado na troca de passes e na técnica.
A geração da J.League (a Liga de Futebol Profissional do Japão), na dezena de 1990, ampliou essa influência. Depois a conquista do tetracampeonato mundial pelo Brasil, em 1994, clubes japoneses passaram a contratar jogadores brasileiros que integravam ou já haviam defendido a seleção brasileira, porquê Dunga, César Sampaio, Zinho e Jorginho.
“Até hoje a maioria dos jogadores estrangeiros no Japão são brasileiros”, afirma Bontempo.
Influência brasileira
Muito antes de Zico, Toninho Cerezo e outros brasileiros ajudarem a impulsionar o futebol nipónico, outro jogador abriu esse caminho. O primeiro brasílico a atuar no país foi Nelson Yoshimura, ainda na dezena de 1960. Progénito de japoneses, ele fez sucesso a ponto de se naturalizar e tutelar a seleção japonesa.
“Por razão dele, os outros times japoneses também começaram a contratar brasileiros”, afirma Bontempo.
Na estação, porém, o futebol no Japão ainda era amásio. As principais equipes pertenciam a grandes empresas e eram formadas por funcionários das fábricas, que conciliavam o trabalho com os treinamentos e as partidas. Clubes ligados a empresas porquê Nissan, Yamaha, Mitsubishi, Hitachi e Mazda dominavam as competições, enquanto o beisebol seguia porquê o esporte mais popular do país.
Segundo o comentarista da ESPN Ubiratan Leal, esse cenário começou a mudar no término dos anos 1980, quando o futebol passou a atrair mais público e investimentos. As empresas ampliaram os aportes nos clubes e passaram a contratar jogadores de maior destaque.
“Um dos primeiros nomes de peso foi o zagueiro Oscar, titular da seleção brasileira na Despensa do Mundo de 1982, que se transferiu para o Nissan ainda antes da profissionalização da modalidade”, diz.
Nos anos seguintes, chegaram primeiro jogadores nikkeis (descendentes de japoneses) e, depois, brasileiros sem progénie japonesa, porquê Ruy Ramos. Naturalizado nipónico, ele se tornou um dos principais atletas do país nos anos 1980 e, ao lado de Kazuyoshi Miura, o Kazu, simbolizou a transição do futebol amásio para o profissional.
Anos da J.League
A geração da J.League marcou a maior mudança da história do futebol nipónico, segundo os especialistas ouvidos pela reportagem. Até logo, o esporte era disputado por equipes ligadas em um protótipo semiprofissional. Com a novidade liga, o país passou a investir na formação de clubes, torcidas e atletas, além de transformar o futebol em um resultado voltado ao público.
Fundada oficialmente em 1º de novembro de 1991, a J.League iniciou sua primeira temporada em 15 de maio de 1993, com a partida entre Verdy Kawasaki e Yokohama Marinos, no Estádio Vernáculo de Tóquio.
A novidade liga representou uma mudança de protótipo.
“Foi o ponto de partida para a popularização do esporte e o fortalecimento de uma cultura futebolística de verdade. A identidade sítio também foi reforçada quando os times deixaram de ser ligados a empresas e passaram a ter o nome de cidades”, afirma Fernando Rudnick, profissional em notícia esportiva e professor da Pós-Graduação em Jornalismo Esportivo da Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUCPR).
Além da reorganização do futebol, a liga apostou em uma estratégia para atrair público. Clubes passaram a contratar jogadores de destaque internacional, enquanto a federação investiu na divulgação do campeonato, na venda de produtos oficiais e na construção da identidade das equipes.
Segundo Leal, o futebol ganhou espaço entre os japoneses, superou o sumô em popularidade e passou a ocupar o posto de segundo esporte mais escoltado do país, detrás exclusivamente do beisebol. Atualmente, a J.League tem média de público de tapume de 20 milénio pessoas por jogo e muitos torcedores fanáticos.
O legado de Zico no país
Entre os jogadores contratados para a primeira edição da J.League, Zico desembarcou no clube que parecia ter menos chances de sucesso. O Sumitomo, equipe que daria origem ao Kashima Antlers, era o único participante vindo da segunda subdivisão amadora e representava uma pequena cidade do interno do Japão. Mais do que substanciar o elenco, o ex-camisa 10 da seleção brasileira ajudou a estruturar o clube que, anos depois, se tornaria o maior vencedor da liga.
“O préstimo de Zico foi pegar um time completamente amásio nessa condição e transformar no que hoje é o maior vencedor do Japão”, afirma Bontempo. Segundo ele, o brasílico participou da organização da rotina do clube, orientando desde a estrutura do vestiário e os métodos de treinamento até a profissionalização do departamento de futebol.
“O próprio Zico disse que a única coisa que ele não fez no clube foi ser presidente”, complementa.
Na partida de introdução da J.League, em 1993, Zico marcou três gols na vitória sobre o Nagoya Grampus, resultado que ajudou a impulsionar sua popularidade e a da novidade liga. Depois fechar a curso, em 1994, permaneceu no Kashima Antlers porquê diretor técnico. O clube conquistou seu primeiro título nipónico em 1996 e, desde logo, tornou-se uma das maiores referências da competição.
“O Zico foi para o Japão mais ou menos o que Charles Miller foi para o Brasil”, compara Celso Dario Unzelte, comentarista da ESPN, rabino em Notícia pela Faculdade Cásper Líbero e professor da mesma instituição.
Segundo ele, além do desempenho porquê jogador, o brasílico ensinou aspectos do futebol que os japoneses buscavam desenvolver, porquê improviso, “malícia e ginga”. Para Unzelte, Zico é tratado porquê uma das figuras fundadoras do futebol moderno nipónico, tanto pela influência dentro de campo quanto pela tributo para a estruturação do Kashima Antlers.
Essa identificação também ajuda a explicar a forma porquê Zico é visto no Japão. Para João Weiner, diretor do documentário Zico, O Samurai de Quintino, lançado no término de abril deste ano, o saudação dos japoneses está ligado não exclusivamente ao jogador, mas também à postura do ex-atleta.
“A primeira frase do documentário é: ‘Estou há 60 anos no futebol. Nunca perdi um ônibus, nunca perdi um voo’. Isso mostra o tamanho do comprometimento dele com o esporte e ajuda a entender por que o nipónico se identificou tanto com o Zico”, afirma.
Segundo Weiner, essa surpresa permanece décadas depois. “No Japão, não é só idolatria. É uma reverência. Não é à toa que eles o chamam de ‘kamisama’ [termo em japonês para ‘Deus’ ou ‘divindade’, usado ali como o Deus do Futebol].”
Os brasileiros que marcaram o futebol nipónico
A influência brasileira no futebol nipónico não terminou com Zico. Ao longo das décadas seguintes, jogadores e treinadores continuaram a desembarcar no país e ajudaram a solidificar o desenvolvimento da modalidade.
“O Japão começou a buscar muito no Brasil jogadores e treinadores para aprender a jogar futebol. Eles queriam ter uma referência mais concreta do que era um jogador de tá nível e até onde precisavam evoluir”, afirma Leal.
A relação entre Brasil e Kashima Antlers continuou mesmo depois a aposentadoria de Zico. Indicado pelo ex-camisa 10 para assumir o comando da equipe em 2000, Toninho Cerezo conquistou dois títulos da J.League e ajudou a desenvolver jogadores das categorias de base.
Segundo Rudnick, da PUCPR, o treinador também soube identificar aspectos em que o futebol nipónico ainda precisava se desenvolver. Dessa forma, a escolha de Cerezo deu sequência a uma tradição do Kashima Antlers, que durante anos manteve exclusivamente técnicos brasileiros no comando da equipe.
Cerezo, no entanto, fez secção de um grupo maior de profissionais que ajudou a solidificar o futebol nipónico. Rudnick destaca Oswaldo de Oliveira, o treinador mais vitorioso da história da J.League, também pelo Kashima Antlers, além de Nelsinho Baptista, que conquistou títulos importantes pelo Verdy Kawasaki e pelo Kashiwa Reysol.
Outro nome lembrado pelo profissional é Levir Culpi, que passou mais de oito temporadas no futebol nipónico e manteve uma relação duradoura com o país, onde chegou a penetrar um restaurante de culinária japonesa em Curitiba depois retornar ao Brasil.
Além dos treinadores, jogadores porquê César Sampaio, Jorginho, Bismarck e Alcindo atuaram no Japão ao longo da dezena de 1990. Para Leal, a chegada desses atletas ajudou a oferecer aos japoneses uma referência prática do nível exigido pelo futebol internacional e contribuiu para açodar o desenvolvimento da modalidade.
O ex-técnico Joel Santana, que comandou o time nipónico Vegalta Sendai em 2006, resume a influência brasileira para além dos títulos. “Supra de tudo, levamos a cultura do futebol brasílico para lá”, afirma. Segundo ele, os treinadores brasileiros contribuíram para introduzir novos conceitos táticos e uma forma dissemelhante de interpretar o jogo, influência que ajudou a moldar a evolução do futebol nipónico nas décadas seguintes.
De aluno a rival
Décadas depois de buscar referências no Brasil, o Japão chega ao confronto de segunda-feira em outro estágio.
Para Tiago Bontempo, a seleção japonesa já desenvolveu um estilo próprio, embora ainda carregue influências externas. Segundo ele, o Brasil contribuiu com a valorização da técnica e da troca de passes, enquanto a Alemanha influenciou a disciplina dos treinamentos, principalmente a partir do trabalho de Dettmar Cramer nos anos 1960.
“Desde 1980, a cada dezena a seleção japonesa tem uma geração melhor que a anterior, que é chamada de melhor da história do país”, afirma Bontempo. Para o comentarista esportivo, o Japão chegou a um ponto em que é capaz de competir com as principais seleções do mundo, movimento que ficou mais evidente a partir da Despensa de 2022.
O confronto contra o Brasil, diz Bontempo, tem peso simbólico para o futebol nipónico.
“Se o aluno derrotar o rabino no maior palco do mundo, seria a ratificação de toda essa evolução ao longo dos anos”, afirma. Para ele, uma roteiro não teria o mesmo peso das eliminações anteriores, mas uma vitória representaria um marco na trajetória da seleção.
Já Leal vê o Brasil porquê predilecto, mas afirma que o Japão chega com chances reais. Para ele, a seleção japonesa ainda tem dificuldade para enfrentar equipes sul-americanas, mormente pelo contato físico, pelas faltas táticas e pela forma porquê Brasil e Argentina controlam o ritmo do jogo.
“Vejo 70% a 30% de chances para o Brasil. Mas 30% é uma chance razoável. Não é uma chance desprezível”, diz.





