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Como o Punk moldou a rebeldia brasileira em meio século
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Como o Punk moldou a rebeldia brasileira em meio século – 12/06/2026 – Ilustrada

O punk celebra meio século no Brasil, mostrando que fez a cabeça de muita gente. Desde as escutas coletivas iniciadas na segunda metade de 1976, em Brasília, por filhos de diplomatas que tinham aproximação às revistas, aos álbuns e gravadores vindos da Inglaterra e Estados Unidos, o movimento construiu um legado sem fronteiras. Moldou a consciência de jovens periféricos, questionou masculinidades e o lugar das mulheres na cena. Transformou roupa em oração e invadiu passarelas, galerias, livrarias e outras formas de arte.

Em Brasília, o movimento ganhou corpo através da troca de fitas gravadas e de festas alternativas —ou seja, reuniões para tomar vinho e escutar discos na orla do lago Paranoá. À Folha, o cantor, compositor e co-fundador da Plebe Rude, Philippe Seabra, conta que chegou dos Estados Unidos em 1976 e cinco anos mais tarde, em 1981, conheceu André Muller, que trouxe daquele país uma série de álbuns clássicos.

A lista inclui The Clash, Buzzcocks, The Damned, XTC e Killing Joke. Os lançamentos chegavam nos malotes diplomáticos, que também traziam revistas temáticas. “A gente conseguiu o disco do Depeche Mode uma semana depois de lançado”, diz. Além dos álbuns, o grupo tinha aproximação às revistas Enemy e gravadores do tipo RCA Small Wonder.

Vizinho de Renato Russo, Seabra diz que pertencia à Turma do Setentrião, uma vez que eram chamados os integrantes do grupo que moravam na Asa Setentrião. Eles produziam as próprias camisetas, gravavam fitas com os álbuns inteiros e escutavam em festas alternativas. “As músicas eram conhecidas quase que em tempo real ao que era lançado na Inglaterra e nos EUA”, lembra o cantor. E foi mal o punk ensaiou os passos iniciais no Planalto Mediano.

Entre 1977 e 1980, o punk chega a São Paulo e se impregna na periferia com a circulação de fitas e discos. O contexto de possante desenvolvimento industrial, entrecortado por desigualdade, desemprego, transmigração em tamanho e violência policial, faz com que o punk deixe de ser uma novidade estrangeira e se torne uma frase periférica.

Segundo o professor e pesquisador do Programa de Pós-Graduação em Desenvolvimento, Sociedade e Cooperação Internacional do Núcleo de Estudos Avançados Multidisciplinares da Universidade de Brasília (UnB), Moacir Alcântara, “não é excesso manifestar que São Paulo ‘abrasileira’ o punk de forma definitiva”, resume.

Essa cena tem uma vez que um dos precursores Clemente Promanação, fundador da filarmónica Sobras de Zero e membro dos Inocentes, duas grandes expressões do punk paulista. Alcântara afirma que o Festival O Início do Término do Mundo, realizado em 1982, no Sesc Pompeia, é o marco “que tornou o punk popular” e natividade de influência para o surgimento de muitas bandas.

Para ele, esse movimento consolidou um universo independente. “O maior legado é a cultura independente, de se autoproduzir, gravar discos, produzir festivais e eventos, não depender da grande indústria da música”, explica. Na contramão, em Brasília, aquelas escutas inspiraram, em grande segmento, mega bandas com pegada industrial, a exemplo de Legião Urbana e Capital Inicial.

Essa independência também se traduziu na mudança de mentalidade de homens e mulheres periféricos da cena punk. Vocalista e baixista da filarmónica Devotos, um dos principais grupos da cena punk de Pernambuco, Cannibal afirma que o princípio “faça você mesmo, que é um provérbio punk” trouxe discrição sobre o seu papel na sociedade. Varão preto, com dreadlocks na fundura da panturrilha e nascido no bairro do Basta José do Pinho, comunidade da zona setentrião do Recife, ele conta que as ideias do movimento o fizeram enxergar o racismo do qual era meta.

“Eu sofria muito racismo, discriminação e tudo era tolerado. Era tudo normal. Posteriormente ingressar no movimento, descobri que existe toda uma máquina pensada para que isso aconteça, para que o público não reivindique, não conteste. O movimento punk faz essas coisas virem à tona. Você se sente gente, sente que pode, se sente possante”, diz. A Devotos tem 38 anos de trajetória e foi reconhecida uma vez que Patrimônio Cultural Intocável do Recife.

Segundo Moacir, da UNB, “para muitos jovens, sobretudo nas periferias urbanas, o punk funcionou uma vez que rede afetiva, espaço de sociabilidade, formação política e até mecanismo de sobrevivência emocional”, explica.

Punk de butique e símbolos rebeldes

No universo punk, as roupas expressam o que pensam os adeptos da cultura. Não é exclusivamente um visual. É o que diz o livro “Selvagens e Baderneiros, Representações e Subjetivação do Punk no Correio Braziliense (1990 – 2014)”, de autoria do professor Moacir Alcântara, já citado cá. O uso dessa indumentária também se diferenciou na periferia e áreas centrais.

O cantor Supla, que teve contato com a cena nos Estados Unidos nos anos 1980, tornou-se um ícone do punk de boutique, uma vertente que surge a partir do trabalho estilista Vivienne Westwood cujas peças eram comercializados na Loja Sex, localizada no King’s Road, no região de Chelsea, um dos pontos efervescentes do punk britânico.

As referências para os seus looks foram sendo construídas ao longo de diversos momentos. Ao observar a um show da Murphy’s Law no CBGB, em 1983, ele conta que assimilou o jeans, tênis e camiseta branca. Já o contato com o trabalho da estilista Lígia Morris, da marca Primal Stuff Punk, que vestiu celebridades uma vez que Cher, Lady Gaga e Shakira, agregou o sobretudo, típico do visual de guerreiros de videogame.

Com 40 anos de curso e prestes a lançar, no dia 5 de junho, no Rocambole, “Zero foi em vão”, vigésimo álbum da discografia, Supla reconhece: “o meu punk não veio do Brasil” e define o seu estilo uma vez que “barafunda da lifestyle”, que veste um personagem que incorpora 25 horas por dia.

Alfaiataria e rebeldia

Antes de trabalhar com voga, o estilista Alexandre Herchcovitch conta que foi tomado pela forma uma vez que o punk respondia com estética, política e música à agressividade da São Paulo dos anos 1980. Anos mais tarde, ao ingressar no mundo das passarelas, viu que a cultura rebelde, ainda muito viva em seu imaginário, seria a forma de dar vida ao estilo no qual acreditava: “uma voga que não nasce da aprovação, mas da urgência de frase”, afirma.

Porém, não era tão simples unir o mundo da alfaiataria, da subida costura, ao universo rebelde do punk. Para isso, o instituidor considerava que a indumentária punk periférica e de boutique não eram linguagens opostas. “Sempre me preocupei em não transformar o punk em fantasia ou caricatura”, diz.

Assim, ele criou as suas peças sob uma tensão entre o belo e o estranho e o libido de materializar a roupa uma vez que um manifesto. “Um tecido superior separado de forma agressiva. Uma modelagem precisa carregada de um sentimento de caos.” O estabilidade entre esses dois mundos se consolidou uma vez que uma marca nesses 30 anos de curso de Herchcovitch, hoje con sagrado com um dos mais renomados estilistas brasileiros.

Realismo lisérgico, o punk e as artes plásticas

Os saudosos da extinta MTV devem lembrar das vinhetas animadas que marcavam a transição de saída e ingressão de blocos da programação. Muitas dessas cenas tinham o traço da artista plástica Silvana Mello, gaúcha, que aderiu ao sub gênero punk Oi! em São Paulo.

O caminho até a capital paulista foi pavimentado com encontros com o vocalista da filarmónica Pupilas Dilatadas, Gustavo Brum, nas praias de Santa Catarina onde ia surfar. “Ele tinha cabelos espetados, descoloridos. Eu vi e disse ‘é isso’. Cortei o cabelo moicano e ingressei na vertente do punk Oi!”, conta.

A arte começou com a realização de cursos livres, de imagem, histórias da arte e animação. Com o Festival Feminista Ladyfest e o ingresso na Galeria Choque Cultural, o trabalho ganha notoriedade e ela crava o nome na história das artes plásticas influenciadas pelo punk.

Folha

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