Jonathan Scarello dos Anjos não é um nome sabido no Brasil. Mas Panda, sua identidade artística, sim: é a voz do hit músico mais ouvido no país atualmente, a sertaneja “Eu Te Seguro“ – segundo o mais recente levantamento da Pró-Música Brasil, entidade representativa do mercado fonográfico vernáculo, com base na somatória das reproduções de plataformas de streaming.
Mas o sertanejo que está no topo não é exatamente aquela música caipira que começou a surgir em gravações na viradela dos anos 1920 para os 1930.
Tampouco a vertente romântica com contornos bregas que fez a renome de duplas porquê a que Rick – o Geraldo Antônio de Roble, que morreu nesta semana em acidente de helicóptero – formou com Renner – nome artístico de Ivair dos Reis Gonçalves.
Uma vez que costuma sobrevir com exemplos de sucesso da indústria cultural, o gênero se reinventa incessantemente conforme o tempo passa.
Os exemplos que sucedem os anteriores são, na definição do historiador Gustavo Alonso, “modernizadores no sentido da antropofagia cultural, de incorporar valores e músicas de outras searas, de outras origens”.
Alonso é professor na Universidade Federalista de Pernambuco (UFPE) e responsável do livro “Cowboys do Asfalto: Música Sertaneja e Modernização Brasileira“.
“Houve uma transformação estrutural que acompanhou o processo de modernização e o deslocamento do meio rústico para o consumo urbano”, analisa a profissional Gisele Jordão, coordenadora do curso de cinema e audiovisual da Escola Superior de Propaganda e Marketing (ESPM).
Jordão vê o gênero mudando dos versões “que registravam as rotinas do trabalho agrícola” e “causos locais” para “a dor nostálgica do migrante desiludido no meio urbano”. Depois, com o progressão da fronteira pecuária para o Meio-Oeste, uma exaltação do “heroísmo do boiadeiro”.
Gradualmente, as canções sertanejas passaram a incluir “narrativas das culturas de massas” e se alongar “das referências rurais”, dando mais ênfase aos “sentimentalismos amorosos”.
Por termo, neste século, veio a ênfase em “paqueras, bebidas, desencontros e consumo ostentatório”.
A gravação pioneira
Em universal, entende-se porquê uma espécie de marco fundador da música sertaneja no Brasil o incidente que tornou o gênero alcançável enquanto resultado de consumo de volume: a primeira gravação de uma cantiga do segmento, no caso a música “Jorginho do Sertão“, constituição do jornalista e folclorista Cornélio Pires (1884-1958) a partir de fragmentos de causos populares, na voz da dupla Mariano e Caçula. Foi em 1929.
“Nenhuma gravadora queria gravar música caipira. Cornélio Pires alugou um estúdio e pagou a prensagem do próprio bolso”, enfatiza a empresária artística Anita Roble, fundadora da escola Music Rio Academy e pesquisadora da ESPM.
“Para mim isso é o primeiro lançamento independente da história da música brasileira, e diz muito sobre o quanto a indústria erra ao julgar o que o público quer.”
Mariano e Rubens da Silva, o “Caçula”, eram irmãos e viviam em Piracicaba no interno paulista. A música que eles entoavam era aquela conhecida porquê voga de viola.
Nesses quase século anos que se passaram, o sertanejo atravessou fases distintas e pode ser entendido não só porquê fenômeno músico: o gênero deixa pistas, a partir do seu sucesso e de sua disseminação, para compreender a sociedade e a urbanização brasileira.
Professor na Universidade de São Paulo (USP), o violeiro e pesquisador Ivan Vilela divide o sertanejo em cinco grandes fases – Vilela é responsável do livro “Cantando a Própria História: Música Caipira e Enraizamento“ e indigitado porquê o grande profissional no tema.
Os primeiros passos do gênero enquanto resultado vai da gravação de Mariano e Caçula até a dezena de 1940. “A radiodifusão dessas músicas ajudou no processo de re-enraizamento dos migrantes que trocavam o campo pelas cidades grandes”, pontua.
Vilela nota que esse período viu o promanação da profissionalização dos cantores. Foi o caso de Raul Torres (1906-1970), paulista de Botucatu que cantava mas pretendia conciliar a vida artística com a profissão de farmacêutico.
Torres acabou vendo que a música era um bom filão e deixou o balcão para trás – chegou a formar dupla com um sobrinho, mas fez história mesmo com Florêncio, nome artístico de João Batista Pinto (1910-1971).
“Ele cantava embolada, mas percebendo que havia espaço de trabalho muito grande [para a música caipira], acabou entrando no segmento”, diz Vilela. Ou seja: a música caipira deixava de ser uma frase de gente da roça; virava entretenimento que seguia a lógica de oferta e demanda do mercado.
“[Foi quando] a música caipira consolidou-se no mercado fonográfico, sobretudo, com o trabalho de músicos urbanos que passaram a se destinar ao gênero”, comenta o violeiro e pesquisador Leandro Valentin, doutor pela Universidade Estadual Paulista (Unesp) e atualmente escrevendo a biografia do cantor sertanejo Tião Carreiro (1934-1993).
Estima-se que, naquela estação, o gênero já dominava 40% da incipiente indústria fonográfica brasileira.
O sucesso Tonico & Tinoco
“A segunda período veio com a música já difundida pelo rádio, com a produção chegando também a cidades pequenas e zonas rurais”, explica o professor da USP.
A música que nasceu no campo, migrou para a cidade cantando o campo e agora voltava ao campo empacotada pelas ondas radiofônicas.
O maior nome dessa período, segundo Vilela, é a dupla Tonico & Tinoco. Foi um retumbante sucesso. Eram os irmãos João Salvador Perez (1917-1994), nascido em São Manuel, e José Salvador Perez (1920-2012).
Na profícua curso, gravaram quase 1 milénio canções, lançaram 83 discos, venderam milhões e milhões de cópias e fizeram mais de 40 milénio shows.
Para Vilela, essa dupla significou o início de um processo de furar a bolha – e a música caipira passou a ser ouvida até por pessoas que não tinham relação alguma, nem afetiva nem biográfica, com o mundo rústico.
Ele estima que Tonico & Tinoco tenham vendido muro de 150 milhões de discos, no totalidade. “Somados todos os formatos, são a dupla que mais vendeu discos no mundo”, crava.
“É quando se firmou com mais força um padrão: a dupla, o violão e a viola, não mais instrumentais de pranto que se usavam antigamente”, diz Vilela.
“Os músicos eram caras da roça que cresceram ouvindo pelo rádio e agora compunham com características muito masi rurais, incorporando ritmos porquê catira, folia de reis.”
Se na primeira leva, os sertanejos narravam o dia a dia rústico, na segunda essa vida no campo passa a ser vendida com contornos de saudade – por fim, o público já se consolidava também nas cidades e tinha aquele ideal imaginário do bucolismo porquê válvula de escape sentimental.
“A vida no campo e o êxodo rústico são tematizados com uma ração de nostalgia e coexistem com o romantismo que começa a lucrar força aos poucos”, nota Valentin.
Vilela contextualiza. No início, eram os migrantes, “gente da roça que [tinha se mudado para as cidades mas] via valores na roça” os que ouviam sertanejo. Depois, “com esse povo já vivendo todo na cidade, as narrativas passam a ser anacrônicas”.
“O público de Tonico & Tinoco, a grande risca de vendagem já era o urbano, portanto eram histórias de saudade”, comenta.
“O termo música sertaneja se tornou hegemônico a partir dos anos 1950”, pontua Alonso. “Antes, desde a primeira gravação de 1929, se falava música caipira, música do interno, música do sertão, música do campo…”
Nessa dezena, o gênero incorporou elementos estrangeiros, sobretudo da guarânia paraguaia e da ranchera mexicana.
“Esses gêneros dialogaram com as culturas locais e alguns vão se tornar adeptos”, explica o historiador. “Nessa período, houve o uso cada vez mais demarcado de ritmos tradicionais porquê o recortado, o cururu e o cateretê”, acrescenta Valentin.
Jovem Guarda e o romântico exagerado
Nos anos 1960, a música sertaneja passou por outra grande transformação. O Brasil já tinha um processo bastante consolidado de êxodo rústico e o mercado fonográfico entendeu que os novos ouvintes do gênero, os filhos dos migrantes, eram já nascidos nas grandes cidades.
“Eles tinham uma ensino tradicional em moradia e uma ensino moderna nas ruas, no trabalho, na escola. Para eles, foi criada uma música que juntava vertentes da Jovem Guarda com a música caipira”, conta Vilela. “Na terceira período, a música caipira deixa de ser historiador do mundo rústico e se torna também historiador do mundo urbano.”
A primeira dupla desse subgênero foi Léo Canhoto & Robertinho, respectivamente Leonildo Sachi (1936-2020) e José Simão Alves, hoje com 82 anos. Para Valentin, foi “uma tentativa de modernização do sertanejo, seja com o uso de guitarras elétricas, seja com uma ênfase a elementos tipicamente mexicanos na sonoridade das canções, e com uma presença cada vez mais marcante da temática amorosa na letra das canções”.
A guinada pop viria nos anos 1980 – obra principalmente dos esforços comerciais da gravadora Sony. “[Os executivos das gravadora] perceberam que a música caipira poderia receber um novo tipo de vestimenta, roupas sonora e visual, e aí iniciou-se a vertente chamada hoje de sertanejo romântico”, comenta Vilela.
“Neste balaio estão sucessos incontornáveis porquê Chitãozinho & Xororó, Leandro & Leonardo, Zezé Di Camargo & Luciano, João Paulo & Daniel, entre outros. Rick & Renner entram na derivação do sertanejo romântico, embora tenham vindo um pouco depois”, pontua Vilela.
Valentin diz que somente nessa período “o sertanejo foi finalmente aceito pela grande mídia porquê o gênero mais popular do país, embora já o fosse havia décadas”.
“Nessa estação houve a incorporação do brega enquanto estilo, porquê gênero músico”, afirma Alonso. Era o paixão exagerado. “Uma fixação. Hoje chamamos de sofrência, na estação era ‘música de corno’ mesmo.”
Era uma estação de jabá institucionalizado e uma indústria ávida por novidades. “O mercado já estava muito voraz, em cima da produção músico”, avalia Vilela.
“O romântico acompanha o pagode da estação, também romântico, e segue uma vertente da música romântica norte-americana que ganhou muito campo nos anos 1980”, analisa o professor e violeiro.
Universitário e agro
Na viradela do século surge o estágio atual do sertanejo, chamado de sertanejo universitárIo. O gênero fica pop, à media que o pop internacional também é incorporado e “vira norteador”, complementa o professor da USP.
“Eles são astros pop, tocam música pop em língua portuguesa, da maneira deles, mas a teoria é essa”, resume.
Valentin explica o sertanejo universitário porquê um momento de “fusão crescente com estilos porquê o pop, o rock e o axé”. “E a temática das letras passa a dialogar cada vez mais com o público jovem urbano, com uma abordagem que transita entre o romantismo tradicional e a efemeridade de relações amorosas contemporâneas”, pontua.
É uma safra longa que já tem muitos desdobramentos.
Caso do feminejo, surgido mais ou menos 10 anos detrás. Trata-se de um movimento em que mulheres – que sempre foram minoritárias entre os artistas do gênero – se tornaram as vozes mais ouvidas. Marília Mendonça (1995-2021), Maiara & Maraísa, Simone & Simaria, Naiara Azevedo, Paula Mattos e Paula Fernandes são as maiores expoentes.
Mais recentemente, há o chamado agronejo, o subgênero que alimenta uma idolatria, em universal não sátira e subserviente, ao agronegócio. “São artistas que defendem a cultura do latifúndio e todas essas derivações”, aponta Vilela. “Houve uma apropriação pela extrema-direita.”
O professor acredita que boa segmento do setor esteja ligado a problemas de prevaricação, por meio de uma lógica de cachês milionários em shows bancados por prefeituras e empresas ligadas ao agro em todo o país.
O agronejo, lembra Valentin, incorpora “batidas eletrônicas e traços do pop e do funk ao sertanejo”. “Não vasqueiro, a ostentação e os aspectos sensuais de relações amorosas efêmeras ou casuais são tematizados nessa período”, diz ele.
“A música sertaneja contemporânea é a música das cidades pequenas e médias. Grande segmento desses caras vieram das cidades pequenas e médias. O Brasil se tornou um país de cidades pequenas e médias”, analisa o historiador Alonso, lembrando que as cidades grandes “pararam de intumescer” nos anos 1990 e são as demais que crescem econômica e demograficamente desde portanto. “De certa forma, a música sertaneja retrata esse fenômeno.”
E segue antropofágica, incorporando novas estéticas. “Cada geração novidade faz isso a seu modo. ‘Ai Se Eu Te Pego’ [que fez sucesso com Michel Teló] é um forró. Você tem exemplos que são funk, tem reggaeton e agora o agronejo grava até música eletrônica”, comenta o historiador.
“Eles vão incorporando outras estéticas, de outros gêneros. É o que faz o sertanejo se tornar um grande guarda-chuva universal de gêneros popularzões.”
A teoria da dupla
Embora dentre os nomes atuais esteja longe de ser unanimidade, a teoria da “dupla caipira” porquê símbolo do gênero permanece no imaginário. Segundo Vilela, essa forma de trovar “tem origem nos primórdios das gravações de música caipira”, sempre com a teoria “de dois cantando juntos, muitas vezes irmãos”.
“A questão da dupla tem a ver com o quina em terças. Eles cantam em terças, ou seja, se um canta em dó, o outro canta em mi”, explica Alonso. “Isso é padrão desde que se fazia música caipira lá detrás, antes mesmo de a indústria cultural abraçar o gênero.” Ele observa que, curiosamente, o padrão do sertanejo universitário não mais prefere as duplas – a maioria dos astros faz curso solo.
Vilela lembra também que outra propriedade inerente ao gênero é a canção-romance, a canção-crônica, aquela que conta uma história. “A base da música caipira são as narrativas das histórias. Os povos não grafocêntricos, que não tinham a escrita, se apoiavam na música para registrar suas histórias, porque a música cantada preserva a integridade”, explica o professor.
“O sertanejo sempre foi crônica: histórias de quinta, de cidade do interno, do sujeito que foi parar na capital, além de traição, jogo e bebida, que são temas de toda música popular”, acredita Roble. “O que mudou de verdade foi o retrato do campo.”
Nessa perspectiva, não foi o olhar do gênero que mudou, mas sim o objeto. O mundo rústico virou agronegócio – e a música acompanhou isso.
“[A música caipira] é uma etnomúsica que traz traços muito característicos, instrumentais e de ritmos. São 17 ritmos presentes no universo da música caipira”, enaltece Vilela.




