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Compositor de SP leva música clássica ao cinema e à
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Compositor de SP leva música clássica ao cinema e à poesia – 27/10/2026 – Ilustrada

O paulistano Leonardo Martinelli está entre os compositores de música clássica que gostam de projetos arriscados.

Uma vez que conciliar “Navalha na Mesocarpo”, de Plínio Marcos, para a linguagem da ópera? Faz sentido criar uma trilha sonora para “Limite”, um clássico do cinema mudo brasílio, quase um século depois de lançado o filme? Uma vez que a verso de Hilda Hilst pode ser transposta para a música para coro?

Nesta semana e nas próximas, Martinelli vai provar mais uma vez sua vocação para missões espinhosas. Nesta quarta, dia 28, a Estação Motiva Cultural, na Sala São Paulo, apresenta o filme de Mário Peixoto, lançado em 1931, com os acordes de uma longa partitura escrita por ele.

“Limite” terá o séquito do Percorso Ensemble, sob a direção músico do maestro Ricardo Bologna, em uma apresentação que integra a 50ª edição da Mostra de Cinema de São Paulo.

Daqui a duas semanas, nos dias 12, 13 e 14 de novembro, o Coro da Osesp, o quarteto de percussão Martelo e quatro pianistas interpretam “Cânticos da Lar do Sol”, uma peça de autoria de Martinelli baseada principalmente em “Poemas Malditos, Gozosos e Devotos”, livro de Hilda Hilst lançado em 1984.

Será a novidade em um programa na Sala São Paulo que terá ainda “As Núpcias”, de Igor Stravinsky, e “Salmos de Chichester”, de Leonard Bernstein, entre outras peças.

Fruto de professores de história da rede pública, Martinelli cresceu no bairro do Jaçanã, na zona setentrião da cidade, e começou a se interessar por música quando a família passou a comprar fascículos, com vinis, de uma série da editora Abril.

Sua avó evangélica comprou um órgão eletrônico para aprender as canções ouvidas na igreja, e o menino, aos dez anos, se interessou pelo instrumento. Não demorou para se matricular na Universidade Livre de Música, a ULM, hoje Escola de Música do Estado de São Paulo, a Emesp. Ia de ônibus e metrô do Jaçanã ao Bom Retiro, onde ficava a ULM.

Não se via uma vez que um tradutor supra da média. Gostava mesmo era de inventar e reinventar melodias ao piano e teve a sorte de narrar com a paciência dos primeiros professores. Aos 15 anos, concluiu a sua primeira constituição, “uma peça suave, em um estilo do século 18”, diz.

Dois anos depois, foi o mais jovem estudante selecionado para o curso de constituição do Festival de Inverno de Campos de Jordão. Sob a orientação do professor Flo Menezes, passou um mês imerso em música. “Foi uma experiência transformadora e, ao termo deste período, pensei: ‘É constituição que eu quero’”, conta.

“Não falo que sou pianista em saudação aos meus amigos que tocam piano de verdade, falo que eu sou ‘pianeiro'”, diz em tom bem-humorado.

E assim foi. Graduou-se na Unesp, onde fez mestrado e doutorado. Em 2001, promoveu na universidade o primeiro concerto só com composições suas. A essa profundeza, já tinha se longe um pouco das convenções, uma vez que as que guiaram suas criações de puberdade, embora nunca tenha se deixado levar por um radicalismo inacessível, característico de secção da música contemporânea.

Não é à toa que admire tanto o italiano Luciano Berio, que morreu em 2003. “Berio traz uma modernidade sem fetichismo, não é um compositor difícil para o público”, afirma. Entre os brasileiros, aponta Claudio Santoro, Silvio Ferraz e o próprio Flo Menezes entre suas influências.

Ao longo da curso, ele tem se dividido em formatos variados —composições para orquestra e para percussão, música de câmara e peças para coro.

Já compôs cinco óperas, das quais o destaque é “Navalha na Mesocarpo”, que estreou no Theatro Municipal de São Paulo em 2022. Essa produção tem uma particularidade histórica: foi a primeira vez que o teatro, àquela profundeza com 111 anos, encomendou uma ópera para um responsável.

“Profundo matraqueado do esquina lírico e da música instrumental, Martinelli sabe explorar ao sumo a potência de cada instrumento e das vozes”, diz Roberto Minczuk, maestro da Orquestra Sinfônica Municipal de São Paulo. Eles trabalharam juntos em “Navalha”, que teve ingressos esgotados nas seis apresentações.

Entre dezenas de criações do compositor ao longo de três décadas de curso, nenhuma é tão longa quanto a música feita para “Limite”. O filme de Peixoto dura duas horas, e a trilha composta por Martinelli o acompanha ininterruptamente.

O trabalho do responsável teve início em 2023 e, entre idas e vindas, estendeu-se até abril deste ano. Trechos movimentados do filme exigiram muito do compositor, que levou três semanas para criar uma passagem de unicamente 40 segundos que mostra um naufrágio.

Martinelli não teve vida fácil nesse projeto, assim uma vez que os instrumentistas do Percorso Ensemble não têm tido. Ao longo de seis ensaios, tiveram que aprender a dividir a atenção entre as instruções do regente, as cenas de “Limite” e um cronômetro. Um imprevidência qualquer pode pôr a perder a sincronia entre o filme e a trilha.

Depois do diálogo com Mário Peixoto, o lirismo de Martinelli conversa com Hilda Hilst. A música viaja no tempo e constrói pontes improváveis.

Folha

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